Entre rios e matas: uma comunidade de negros em Gurupá (PA)

O que você sabe sobre a história da população negra na Amazônia? Angulado por essa questão, neste artigo, resultado da pesquisa desenvolvida durante o mestrado entre 2020 a 2022, busco compreender a presença negra na Amazônia por meio de uma análise histórica e antropológica. Para tanto, focalizo  a experiência do quilombo Jocojó, situado no município de Gurupá-PA. A cidade está localizada na confluência do rio Xingu com o delta do rio Amazonas. Ela faz parte do arquipélago do Marajó, situado na porção conhecida como  “Marajó das Florestas”.

Sobre a região, estudos arqueológicos recentes apontam para uma diversidade cultural no período pré-contato com os colonizadores. Ao longo do período colonial, a historiografia aponta vários fluxos culturais em Gurupá, destacando a população indígena e pessoas oriundas da Europa. Ademais,  fontes históricas e levantamentos antropológicos é possível notar que, para além de uma ocorrência indígena e europeia, houve uma acentuada ação africana na região.

Levando em consideração esse acervo documental, neste artigo busco situar as conexões entre a  população negra do Jocojó do passado e do presente. Para tanto, articulo as singularidades locais  às  dinâmicas do  contexto mais amplo da diáspora africana para a Amazônia. 

A presença negra entre os campos e floresta

O Marajó é considerado a maior ilha fluviomarinha do mundo, com uma dimensão territorial de aproximadamente 105 mil km², composta por 16 municípios. Sobre o aspecto natural,  a região conta com a ocorrência de campos e florestas. A parte ocidental é caracterizada pela presença de muitas matas, com uma rede hidrográfica constituída por igarapés, furos e paranás. O lado oriental é formado por cursos d’água que drenam em direção ao Atlântico e à foz do Amazonas. É nesse território que a população marajoara está distribuída, organizando a sua vida em torno dos rios, matas e campos. Tais espaços norteiam o cotidiano da maioria das pessoas, a exemplo dos rios que exercem uma influência social e cultural.  A esse respeito, é possível observar transformações nas dinâmicas sociais  nos tempos de cheia e de seca, quando a população precisa estar atenta à navegação. Por exemplo, durante as enchentes, ocorre a dispersão dos peixes, fazendo com que os pescadores encontrem dificuldades nas atividades pesqueiras. O que acarreta a necessidade de ampliar a jornada de trabalho, afetando as relações sociais. No plano cultural, as festas costumam ocorrer no período da seca. 

Igarapé Jocojó. Fonte: Acervo pessoal do autor (2022).

A história da presença negra da região remonta ao período colonial. A ilha do marajó não escapou da cobiça dos europeus que buscavam explorar as riquezas da região. Como em outras localidades do vale amazônico, os portugueses não encontraram na ilha metais preciosos, mas se depararam com uma diversidade de produtos naturais, conhecidas como  “drogas do sertão”, que possuíam expressivo valor comercial. Vale destacar que, além do extrativismo vegetal, a agricultura e a pecuária eram atividades praticadas de forma intensa. Com destaque para a criação dos gados das espécies vacum e cavalar,  principalmente nos campos do Marajó. Em todas  as atividades produtivas, a mão de obra compulsória de indígenas e de negros foram predominantes.

Em uma escala transatlântica, a historiografia amazônica estima que até o final do século XVIII aproximadamente 7.606 pessoas foram deslocados da porção ocidental do continente africano, sobretudo de  Cacheu e de Cabo Verde,  para o Grão-Pará no contexto do tráfico de escravos. Esse fluxo de mão de obra escrava envolveu diversas escalas: local, regional e tráfico transatlântico. Apesar da dispersão negra por todo território, a historiografia focalizou a cultura marajoara apenas na parte ocidental do Marajó. Entretanto, por meio da documentação analisada, é possível observar que, na parte oriental, onde está situada a cidade de Gurupá, também houve uma presença marcante de africanos e que deve ser destacada. 

Em 1862, o relatório apresentado à Assembleia Legislativa da Província do Pará  descreveu que as atividades de agricultura e pecuária  não contavam com um  quantitativo de mão de obra elevado para a continuidade da produção. Assim, o documento enumera a existência de 12 fazendas voltadas para a criação de gado que contavam com um número reduzido de trabalhadores: cerca de 39  livres e 7 escravos. A fonte ainda destaca os principais produtos exportados naquele ano, detalhando que a  borracha assumiu o topo da produção com 20,000 arrobas, em segundo a castanha com 8,000, em terceiro o cacau com 3,000 arrobas. 

Essa baixa disponibilidade de mão de obra para agricultura e pecuária relaciona-se ao aumento da demanda pela borracha amazônica no cenário internacional, ocorrida em função do avanço industrial na Europa e Estados Unidos. No século XIX, essa situação preocupava governantes e empresários, conforme descreveu jornais paraenses da época, a exemplo do Gazeta Official. Os textos destacam o elevado número de trabalhadores que abandonaram suas atividades produtivas para se embrenhar nos seringais para a extração do látex.  Por conta disso,  a mão de obra negra escravizada que garantiu o funcionamento das atividades agrícolas e da pecuária. Foi nesse contexto que pessoas negras escravizadas organizaram estratégias que desafiavam o sistema escravista. Dentre os agenciamentos de resistência, destaca-se a formação dos quilombos na região do Marajó, cuja tradição ressoa ainda no tempo presente. 

O   Quilombo Jocojó: presença negra no tempo presente

Atualmente, o município de Gurupá é formado por 10 comunidades quilombolas, dentre elas está o Jocojó. Esse quilombo é localizado junto ao igarapé de mesmo nome, ficando à margem direita do rio Amazonas. Na memória coletiva dos gurupaenses, o território quilombola é apontado pela população local como um dos locais mais antigos da região. Nesses relatos, o ponto de partida do quilombo ocorreu  pelo deslocamento de Gurupamirim. Isso aconteceu quando um grupo de negros, que viviam sobre a tutela de um patrão, aproveitou uma das suas viagens e organizou uma fuga. Por meio da análise de fontes orais e textuais, é possível inferir que a formação do quilombo do Jocojó ocorreu entre o final do século XIX e início do XX. 

A história de permanência negra coletiva no território está relacionada à  criação de uma rede de solidariedade construída entre  os quilombolas, comerciantes e fazendeiros do entorno. Essa rede de aliança pode ser visualizada pelos relatos da memória dos moradores do quilombo  sobre a fuga. Nessas narrativas, destacam a sapiência dos escravizados que, mesmo antes da fuga, já haviam contactado com um outro patrão que morava em Munituba, pedindo-lhe  “proteção” aos negros do Jocojó. Em contrapartida, a comunidade deveria “ceder” parte da sua produção agroextrativista ao patrão de Munituba. Na mesma direção, o antropólogo Charles Wagley,  em meados do século XX, descreveu os quilombolas como roceiros que tinham uma  intensa relação econômica com alguns comerciantes que viviam em Gurupá. Eles trocavam principalmente a farinha que produziam por gêneros alimentícios, remédios e demais bens de consumo. No contexto do pós-abolição, essa situação provocou a escravidão por dívida dos quilombolas. Apesar disso, os quilombolas, ao compreenderem a sua importância no abastecimento de um mercado local e regional, articulavam suas demandas com outros interesses e, nas brechas do sistema, alargavam suas possibilidades de existência. 

Conhecer e documentar a história da população negra do Jocojó, diz respeito de mapear as trajetórias traçadas por diferentes sujeitos nos campos e nas florestas que, conforme foi observado, foram ocupados de forma estratégica por esses sujeitos para conquistar a sua liberdade. Essa visada histórica permite compreender acerca da diversidade sociocultural desse imenso Marajó. 

Assista ao vídeo do historiador Pablo Silva no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

Ensino Fundamental: EF07HI16 (7º ano: Analisar os mecanismos e as dinâmicas de comércio de escravizados em suas diferentes fases, identificando os agentes responsáveis pelo tráfico e as regiões e zonas africanas de procedência dos escravizados).

Ensino Médio: EM13CHS204 (Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas).


Pablo Silva

Telefone: (91) 98733-3912 

Licenciado em História (UNAMA); Mestre em Diversidade Sociocultural (MPEG); Professor de História da SEDUC-PA.

E-mail: [email protected]

Instagram: @pablosilvaprof.


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

+ sobre o tema

Uma história negra com certeza: a escrita histórica nos jornais negros paulistanos

No ensolarado sábado de 24 de outubro de 2020,...

40 anos do Adé Dudu: a história do Grupo de Negros Homossexuais

Há 40 anos, em março de 1981, surgiu em...

Maxwell Alakija: militância antirracista africana na Bahia do pós-abolição

Por que escrever sobre a trajetória do Maxwell Assumpção?...

Candendê: terras de cativeiro e de sonhos de liberdade

Acompanhamos a luta de Quitéria na justiça, em 1837,...

para lembrar

Quilombolas reivindicam direito à terra; Aracruz Celulose contesta

Fonte: Repórter Brasil - Irohin - Moradores de Sapê...

Incra garante conquista histórica para quilombolas de Sergipe

Incra garante conquista histórica para quilombolas de Sergipe   Dezenas...

Secretaria de Direitos Humanos acompanha situação dos quilombolas no Maranhão

  A ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos...

Quem foi Beatriz Nascimento, pioneira nos estudos sobre quilombos

Beatriz Nascimento é uma das intelectuais mais importantes do Brasil. Historiadora, ela foi pioneira nos estudos sobre as comunidades quilombolas no país. No ano passado,...

É preciso ‘amazonizar’ o Brasil

Estive no "centro do mundo". É assim que a Amazônia é chamada pela jornalista Eliane Brum e eu acredito que ela foi muito feliz nessa definição....

Ser negro-índio: a força das ancestralidades no Quilombo Itamoari (PA)

No final de julho deste ano, dados inéditos sobre a população quilombola divulgados pelo IBGE mostraram que no Brasil mais de 1.3 milhões de...
-+=