segunda-feira, setembro 26, 2022
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Exu e alguns outros – metáforas cognitivas

Há alguns meses, com a pandemia colocando todos pra dentro de si enquanto casa, e já quase completando um ano de COVID-19, assisti um filme denominado “Exu – Além do Bem e do Mal” no canal Vimeo. Conheci por indicação do rapper Rincon Sapiência que, pro nosso bem, vem compartilhando várias produções audiovisuais em seus canais na internet. Como diz o próprio título da produção, trata-se da desconstrução de Exu como uma entidade “assim” ou “assado”, frequentemente recebendo uma plaquinha negativa. Apesar de eu não estar tão por dentro destas discussões, o poder de tal preconceito chega fácil aos meus sentidos pouco conhecedores de religiões de matriz africana. O filme conta com a participação de pessoas do candomblé, corpos velhos, corpos de Exu e outros orixás, entrevistas e bate papos “esclarecendo” a complexidade, por vezes simples e natural, que este orixá confere.

Em linhas gerais, o ocidente, e isto inclui os meus processos, vive fortemente o dualismo bem e mal e, por incrível que pareça, busca a ideia do bem como objetivo do ser – o ser humano precisa ser bondoso uns com os outros! Amoroso, educado, gentil… Com isso, peço licença e cito Exu como um ser não fofo, não educado, não gentil e outros adjetivos que conhecemos, que apesar de bondosos nos são enfiados à la violência colonizadora. Ao mesmo tempo, Exu é bondoso, é fofo, é gentil e faz o bem. A partir do momento que Exu é caminho, mensagem e encruzilhada, tudo por este ser passa. Não se trata de um ou outro, mas todos e suas nuances mestiças. Por não ser puramente bondoso de cabelos lisos ou ondulados e rosto suave, como as representações ultrapassadas de Jesus e companhia, só resta a esta entidade confusa ser uma coisa: mal! Aponto a esta postura dualista do ser antinatural: nossas relações não se costuram desta maneira. Por isso é tão difícil aceitar os vacilos do parceiro, pois espero educação, gentileza e gramática, apenas. Da mesma forma, citando o famoso Jesus, acredito ter sido bastante necessário o uso de atitudes “nada fofas” para que as pessoas com que tinha empatia pudessem ser minimamente respeitadas. Contudo questiono: como é possível ser apenas “bem” sendo um ser social na atualidade capitalista? Acho que não precisamos entrar em discussões do que é bom e ruim neste texto, já que acredito que as reflexões postas e possíveis nesta altura são suficientes para estabelecermos relações e trocas interessantemente incômodas. Faça você, leitor, seu papel e construa esses debates comigo. Busco com este texto apresentar como o Orixá mensageiro e caminhante têm aparecido no meu dia a dia, de maneira sorrateira e às vezes até descarada.

Me entregando ao calor que faz de mim, ser aerado, bafo quente, conheci um homem de Comores chamado M’na Madi ao me dar merecidos presentes de fim de ano. Salim Hotudou, leitor de contos orais de sua avó e tradição, deu vida em texto a este homenzinho num livro chamado “A sabedoria de Madi, o viajante tolo”. M’na Madi é sozinho, procurador, nômade como Abel. Madi realiza errância, se entrega à viagem em busca de sabedoria, sempre acompanhado dela. Assim como Exu, é necessário que M’na Madi seja sacana, calmo, arrogante e amigável. Assim ele cumpre seu percurso: não morre porque é aberto à morte. M’na Madi é também vingativo, pois não vê nas hierarquias desrespeitosas lugares de compartilhamento saudável dos corpos. M’na Madi é um crianção! O tamanho de sua sabedoria vem justamente da não observação ou apego à mesma, exatamente como uma criança. Precisei viajar para entre o grande continente e Madagascar para encontrar este tolo que, no final de sua jornada, cansa-se de ir atrás de sabedoria que nunca encontrava, já a tinha.

Sobre a criança e seu caráter ignorante, presentificado e muitas vezes nada educado, assumo a potencialidade tola e criativa dos pequeninos. A raiva, a diversão, e inveja, a fofura, e tantas outras coisas vão sendo somadas juntamente com os bons modos que vamos incutindo: “Agradece seu tio, menino”. “Oferece pra ela!”. “Como é que se diz mesmo?”. Vários elementos constituem um ser humano e o que temos vivenciado é justamente o silenciamento das multiplicidades que nos integra. A criança não segue a ordem e os bons modos em diversas situações, por isso corre na frente da mãe, anda cruzando as pernas ou pulando – é o galumphing, contado por Stephen Nachmanovitch, a grande predisposição à indisciplina, ao gasto de energia e à brincadeira. São atitudes que nós, adultos muitas vezes nada divertidos, carregamos e exigimos do outro. É falso! Com o tempo, começam a surgir apontamentos e adesão a essa falsidade, é aí que a modernidade se apaixona, quando o ser encontra-se abandonado de seus aspectos selvagens, sem conhecimento silencioso de si mesmo, corpo-objeto. O caráter “não-do-bem-apenas” indica multiplicidade, pois, como diz a expressão na etnia maliana bambara, “as pessoas da pessoa são múltiplas na pessoa”. E, adivinhem só, Exú, M’na Madi, Jesus e João Grilo são múltiplos. Assim como você, leitor! Por isso a manutenção da estabilidade é falsa e autodestrutiva e é pelo mesmo “isso” que Abel, praticante da errância e do pastoreio, é morto por Caim, representação da morada preguiçosa e estabilizante.

Já passadas as festas de fim de ano, conheci o drama “Touki Bouki – a viagem da hiena”. Já vinha sendo atormentado por este filme sem saber do que se tratava, por um deslize, me contaram. Djibril Diop Mambety foi um cineasta, ator, poeta e várias outros “foi” que caracterizam sua multiplicidade. Natural do Senegal, Mambety no cinema é conhecido por seu estilo “bad vibes” e de uma potência criativa maravilhosa. Ao invocar Mambety e Touki Bouki para esta conversa, crio relações entre os nomes anteriormente mencionadas e a figura da hiena, que em algumas tradições orais africanas representa a astúcia, a enganação (enganar e ser enganado), a rapidez, a trapaça. Exu, M’na Madi, a criança, meu tio Luciano…! Bouki, hiena, nada mais é do que esse ser escorregadio que nada segura, essa tolice inteligente que tanto incomoda mas que, também, é passível de muita admiração. Não só estes nomes são múltiplos e confusos mas nos deixam dessa forma, sem ter onde pousar, sempre em movimento. Mory, a hiena, que viaja para chegar à França com sua parceira Ane, utiliza de toda sua astúcia e jogo rápido, no qual as palavras legal e maldoso andam na mesma mochila, em vários bolsos. Não cabe a nós, ocidentais super ocupados, tentar prender um caminhante espertalhão. Com isso, trago o último ator dessas metáforas que me penetrou nesses novos tempos:

Ao viajar para a China e o Japão, degustei dos privilégios de Christine Greiner para reconhecer o elemento que mais me abasteço. Nos primeiros capítulos de “Leituras do Corpo no Japão e suas diásporas cognitivas”, Greiner dedica lindas palavras sobre a potência que o elemento vento possui em tradições chinesas, em tempos muito antigos. É interessante observar como a medicina tradicional chinesa estabelece conexões frutíferas entre o ser humano e os outros seres elementos da natureza, observando que as mudanças que ocorrem no meio, obviamente, interferem na saúde do humano. Parece bastante natural tal reflexão, uma vez que se o humano é também meio e o meio, num olhar também dualista ele/eu, experiencia ciclos, qual a possibilidade do humano ser cíclico e círculo? Quais as chances de uma vida não estática de atitudes e sensações? Qual a necessidade de firmar o estado “bem” e excomungar tudo que dele foge?

Os ventos, para muitos sábios do antepassado chinês, possui grande caráter considerado destrutivo, podendo causar, doenças, loucura e morte, como incitam ações construtivas, tais como os que ajudam na polinização de plantas e outros que estimulam cavalos e vacas ao acasalamento. Os ventos também podem ser mensageiros, avisando sobre a vinda da chuva ou outras instabilidades climáticas. Griner nos apresenta o vento não apenas como mudança mas mudança e movimento, podendo nos causar temor e grande admiração, possibilidades de transformação do ser em outro. Em “Mitologia dos Orixás” de Reginaldo Prandi, nos mitos de Exu podemos ver nitidamente o orixá vento estimulando ações, como faz a brisa e as tempestades: “Ele viu que tudo estava em paz e decidiu plantar uma discórdia”, “Exu não gostava nada dessa vida tranquila e tratou logo de armar alguma confusão”, “o pobre ficou rico graças à artimanhas de Exu”, “Exu lhe dera tudo” etc. Nada para, o ar é poroso, “é pele, feita de poros por onde escoa a luz, gota por gota, como um suor solar”, diz Marianinho em “Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra”, uma gigante leitura desenhada por Mia Couto, escritor Moçambicano, demonstrando os segredos da terra, a tradição, os segredos da casa, a multiplicidade e a instabilidade.

Ao colocar tantas figuras diferentes para dialogar, sou atingido por uma rasteira: a mestiçagem é interdisciplinar? Mestiçagem aqui não da biologia, que sozinha não existe, mas uma mestiçagem cultural e, por vezes, política. Trata-se de uma mistura de ideias que já se namoram num lugar além da consciência egóica humana, quando chega a virar poesia, já o é. Não busco com a mestiçagem de ideias interdisciplinar (verbo) culturas num ideal de unir, mas enxergar semelhanças, abertas às diferenças, sem criar hierarquias pisantes e exploratórias. Trata-se não apenas de formar um, o mito da democracia racial, ou segregar grupos, focando nas diferenças com adjetivos de melhor ou pior, mas iluminar vários. É um e muitos, é Exu e alguns outros.

Sobre semelhança e diferença nas visões tanto biológicas como sociais, é difícil discutir como a repulsa do racismo diante a semelhança caminha junto com o abraço à mesma, este segundo almejando os vários roubos característicos da relação ocidente-áfrica, por exemplo. Como nos mostra Munanga e Mbembe, assim como outros vários pensadores negros, o maior medo dos brancos racistas é se verem semelhantes a pretos, povos ultrapassados e, com isso, inferiores. O outro só é diferente porque é capaz de invadir o meu espaço, deixando de ser indiferente, ou seja, “o medo e o horror da semelhança encontram-se escondidos na diferença”. Com isso firmo, afirmo, e confirmo que não posso ser como aquele. Tudo trata-se da partilha do espaço, e a problemática é intensificada quando trazemos à memória não apenas o espaço simbólico mas o espaço terrestre de vivência de inúmeros povos autóctones violentamente invadidos. Paralelamente, apesar de apontar a diferença e segregar pessoas, precisam delas para trabalho, diversão, amamentação, sexo, produção cultural de tudo que é jeito. Utilizo de toda potência criadora daquele animal inferior que nada posso ter de semelhante. Ainda, encontra-se na atualidade discursos anti-racistas ou taxados de anti-racistas buscando o uno como resposta à convivência saudável. Cuidados precisam ser tomados nestes discursos para não confundir o 1 com a superioridade ladra branca, julgando agora sermos todos iguais e apontando ser característico da beleza do Brasil a mestiçagem, sem ao mínimo enxergar as contribuições negras para a construção dessas terras. Voltemos!

Exu atrapalha-se com as palavras e espalha-se com elas. É orixá que vive a céu aberto, na passagem ou na trilha, nos campos. Também entra nas casas, nas cabanas e palácios. Comunica-se com todo mundo, faz diálogo, Mercúrio. M’na Madi resolve-se com ricos e pobres, até com sete diabos. Ganha coisas e os dá a outrem. Conhece o medo e não foge, conversa, pois se possui o dom da fala, por que o temor não falaria? Claro, tudo numa categoria metafórica, “metáforas cognitivas ou corporais”, disse Greiner, não apenas como figuras de linguagem mas como possibilidade de cognição que se dá pelo sistema sensório motor. Reconhecimento que se faz através da sensibilidade, dos poros do corpo, caminhos de diálogos entre os ventos quase apenas próprios e os quase apenas mundanos.

Apesar de interessantes as reflexões, meu leitor, tudo isso é doido e doído. Seja como Exu, M’na Madi, a hiena, o vento e não se apegue. Apague e parta em busca de sabedoria. Acolher Exu para além do bem e do mal é aceitar o corpo e a complexa condição humana. Exu é corpo! Nos ensina a necessidade da astúcia e do jogo para que, principalmente povos colocados às margens, possam estender suas vidas. (…) Mas se eu te disser, leitor, que Carl Jung, que tanta gente aprova, já desenvolveu escritas sobre as situações de coincidência, você acreditaria melhor nos diálogos deste texto ou eu precisaria invocar um pensador alemão?

Referências:

Achille Mbembe. Crítica da razão negra / Achille Mbembe; traduzido por Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.

Amadou Hampaté Bâ. A noção de pessoa na África Negra. Tradução para uso didático de: HAMP TÉ B , Amadou. La notion de personne en Afrique Noire. In: DIETERLEN, Germaine (ed.). La notion de personne en Afrique Noire. Paris: CNRS, 1981, p. 181 – 192, por Luiza Silva Porto Ramos e Kelvlin Ferreira Medeiros.

Christine Greiner. Leituras do Corpo no Japão e suas diásporas cognitivas / Christine Greiner – São Paulo: n1 Edições, 2015.

Exu – Além do Bem e do Mal. Direção: Werner Salles Bagetti. Alagoas: Núcleo de Produção Digital de Alagoas, 2012. Disponível em: https://vimeo.com/51492394.

Francesco Careri, Wakscapes: O caminhar como prática estética. Traduzido por Frederico Bonaldo. São Paulo: Editora Gustavo Gili; 1ª edição (15 setembro 2013).

Kabengele Munanga. Identidade, cidadania e democracia: algumas reflexões sobre os discursos anti-raciais no Brasil. In: SPINK, Mary Jame Paris (Org.). A cidadania em construção. São Paulo: Cortez, 1994.

Mia Couto. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra / Mia Couto – 1. ed – São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Salim Hatubou, 1972 – A Sabedoria de Madi, o viajante tolo / Salim Hatubou; ilustração Mokeït Van Linden; tradução Fernando Cotrim – 1. ed – São Paulo: Scipione, 2014

Stephen Nachmanovitch. Ser Criativo – O poder da improvisação na vida e na arte / Stephen Nachmanovitch; (tradução de Eliane Rocha). – São Paulo: Summus, 1993.

Reginaldo Prandi. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. – 1. ed – São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Touki Bouki, A viagem da hiena. Direção: Djibril Diop Mambéty. Senegal: 1973, Cinegrit, 1973.

Cleisson José é artista, músico, professor, pesquisador… Graduando no curso de Licenciatura em Música na Universidade Federal de São João del Rei pesquisa, entre tantas coisas, corporeidades na prática musical.
** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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