Fátima Oliveira: Senador maranhense, Gracimar e a maca fria do corredor do hospital

Ao fazer uma limpa em meus guardados, de vez em quando, dou de cara com meu diploma de datilógrafa, obtido em 1968, quando estava no último ano do ginásio. Foi um sacrifício! Saía da escola por volta das 17h30 e ia direto para o curso de datilografia, das 18h às 19h, durante três meses. E aquilo era simplesmente infernal, pois sempre tive muita dificuldade de executar trabalhos manuais.

Por: Fátima Oliveira

Não era fácil “tirar” o diploma de datilografia. Não bastava fazer o curso e não ter mais que três faltas mensais. Havia uma prova final de destreza/velocidade: um ditado de mil toques num determinado tempo. Muitas pessoas terminavam o curso e levavam muito tempo para conquistar o diploma; e outras jamais conseguiam!

Para se empregar como datilógrafa, não bastava o diploma: tinha-se de passar no teste da habilidade; daí os “tantos toques por minuto” para comprovar o saber datilográfico. Achava que jamais “tiraria” o diploma, porque usar a máquina de escrever sem poder olhar para o teclado – coberto por uma banqueta de madeira com lugar para os dedos – é castigo doloroso. Treinei durante uma semana, horas e horas a fio, numa máquina emprestada antes da prova. Ufa! Consegui o diploma na primeira tentativa.

Jamais precisei ser datilógrafa para sobreviver. E esqueci tudo! Uso apenas dois dedos, seja para datilografar ou “micrar”. E assim escrevi meus livros, mas morro de inveja de a filharada manejar o teclado do computador como se tivesse feito curso de datilografia, que perdeu a razão de existir, assim como a profissão. Hoje, as máquinas de escrever são peças de museus – a minha, uma Remington que já passou dos 30 há muito tempo; eu a guardo com carinho, enfeitando um armário.

O assunto de hoje surgiu porque reencontrei em BH uma colega que fez curso de datilografia comigo, em São Luís do Maranhão, nos idos de 1968! E nos perdêramos até a semana passada! Coisas de eleição. Ela estava vendo o programa eleitoral na TV, quando apareci por uns “segundinhos de nada” e ela achou que era eu. Ficou em dúvida. No dia seguinte, procurou na internet e me disse que, ao ter certeza de que era eu, ficou muito feliz, e viu tanto o vídeo que, quando nos encontramos, repetiu o que falei.

“Lembra, Fátima, que a professora de datilografia, que era fã do senador La Rocque, só fazia ditados de um livrinho de discursos do senador? Num dia, você falou que, se tivesse idade pra votar, não votaria nele, porque estava abusada daquele falatório falso?”. Sim, relembrei. Discuti com a professora e disse-lhe que, enquanto gente morresse sem atendimento médico no Maranhão só porque não tinha dinheiro para pagar, eu não votaria naquela gente por nada. Eu e Gracimar rimos tanto que choramos.

“Você pensa que gente deve ser cuidada como gente desde que era adolescente”. Ela é cidadã 100% “SUS-dependente”; é diabética e hipertensa; vai muito às urgências; é uma sobrevivente do que declarei na TV: hoje em dia, como médica, sou obrigada a colocar pessoas, dias e dias, numa maca dura e fria em corredor de hospital, o que é o cotidiano nos serviços de urgências em Belo Horizonte. Tão somente porque vivemos numa cidade cujo déficit de leitos de retaguarda para desafogar tais serviços é de cerca de mil leitos e, na Grande BH, chega a 1.200! Não adianta chiar: tal calamidade pública é de responsabilidade da Prefeitura de Belo Horizonte, que detém a gestão plena do SUS.

Sim, Gracimar sabe o que é uma maca dura e fria no corredor de um hospital! Como eu, ela acha que é muito cruel.

 

Fonte: Viomundo 

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