- Material busca estimular pensamento crítico e combater a desinformação na sociedade
- Publicação gratuita ensina métodos científicos para avaliar informações
Antes que os jovens evangélicos do Dunamis Movement ocupassem a praça do Relógio da USP para encenar guerra inconciliável entre fé e ciência na frase infeliz: “A USP não é de Marx, mas de Jesus“, a universidade já havia pisado no solo das religiões pelos pés dos pesquisadores do Laboratório de Estudos Psicossociais (InterPsi), grupo vinculado ao Instituto de Psicologia.
O resultado da incursão está na cartilha: “Ciência, Crença e (i-)Realidade“. O objetivo da iniciativa é enfrentar problemas sociais decorrentes de crenças que, embora pareçam inofensivas, podem produzir efeitos deletérios na vida das pessoas e na sociedade.
A obra define crer, etimologicamente, como “colocar o coração” em algo. Crenças são apresentadas não apenas como ideias, mas como lentes pelas quais estruturamos a identidade e interpretamos o mundo. Sejam religiosas, políticas ou cotidianas, elas moldam nossa realidade e filtram a percepção do que nos afeta.

Em contraste, a ciência é definida como um sistema de crenças distinto. Enquanto as crenças religiosas oferecem sentido e conforto sem exigir prova material, a ciência opera pelo ceticismo, exigindo demonstração, controle de variáveis e evidências empíricas. O texto enfatiza que a ciência não é uma verdade absoluta, mas um conhecimento em constante revisão.
A publicação rejeita a hierarquia entre saberes, afirmando que a ciência não é superior à filosofia, arte ou religião. Cada campo possui seu espaço: a ciência explica fenômenos naturais, mas não tem competência para responder sobre o sentido da vida ou a respeito do sobrenatural. Os saberes são complementares quando respeitados seus limites.
O texto alerta, contudo, para quando crenças ultrapassam a esfera pessoal e geram danos. Convicções arraigadas podem legitimar desigualdades, sustentando o racismo estrutural e a violência de gênero. Muitas vezes, essas crenças justificam exclusão e feminicídios, perpetuando injustiças sociais.
As crenças examinadas extrapolam o escopo das religiões. No contexto da saúde pública, a cartilha aborda os riscos do negacionismo. Exemplos de crenças que representam perigo coletivo são os movimentos anticientíficos, como grupos antivacina, que rejeitam evidências em favor de teorias conspiratórias, colocando vidas em risco. Desse modo, a negação da realidade se configura como uma ameaça à saúde de todos.
A relação entre religião e saúde é analisada com nuances. A cartilha reconhece estudos que associam religiosidade ao bem-estar, citando apoio social e conforto espiritual. Contudo, argumenta que a fé não é garantia automática de saúde física e mental, dependendo da qualidade dessa experiência.
Ilustrando o lado prejudicial, apresentam-se crenças e experiências religiosas negativas como por exemplo, sentir-se punido por Deus ou rejeitado pela comunidade, como fatores associados à depressão. Cita-se ainda o burnout em líderes religiosos, provando que a imersão na fé não blinda o indivíduo do esgotamento psíquico.
Riscos físicos graves são expostos, como o abandono de tratamentos médicos sob a premissa de que “apenas a fé salva”. Essa negligência, motivada por dogmas ou proibições a procedimentos, pode resultar em mortes evitáveis, evidenciando o perigo da crença sem filtro crítico.
A cartilha relembra a tragédia de Jonestown para ilustrar o perigo do fanatismo. A submissão cega a lideranças e doutrinas inflexíveis pode anular o instinto de sobrevivência, levando à destruição de comunidades inteiras, como no suicídio coletivo na Guiana.
Como antídoto, propõe-se o desenvolvimento do pensamento crítico. Diferenciando o pensamento intuitivo do racional, a obra incentiva o questionamento das próprias convicções para evitar armadilhas de “bolhas sociais” e desinformação.
Em suma, a cartilha visa a aprimorar o debate público sobre o tema das crenças pessoais e coletivas, sem a intenção de eliminar ou atacar as religiões. Ao diferenciar opinião (doxa) de conhecimento (episteme), os autores da cartilha fornecem instrumentos para fortalecer tanto a democracia quanto a saúde pública, especialmente no contexto atual de polarização.
Valdinei Ferreira – É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante