Flamengo fatura R$ 857 milhões. E luta para não pagar por meninos mortos

Jamais um clube brasileiro ganhou tanto. Em 2020 chegará a R$ 1 bilhão. Mas se nega a gastar R$ 24 milhões com os meninos mortos na sua concentração

Por COSME RÍMOLI, do Esportes 

Reprodução/Twitter

Jamais um clube brasileiro faturou R$ 857 milhões em uma só temporada.

Nenhum na América do Sul.

Mas também nunca qualquer equipe do mundo sofreu um incêndio tão terrível em um improvisado dormitório, junção criminosa de contêineres.

Sem qualquer alarme de incêndio.

Bastava um para evitar a desgraça.

Onde deveria oferecer segurança, proteção, criou de maneira involuntária, e irresponsável, uma terrível armadilha, que matou dez meninos.

As mortes foram terríveis.

Os meninos, entre 14 e 17 anos, morreram asfixiados pela fumaça tóxica dos contêineres facilmente inflamáveis ou tiveram seus corpos completamente queimados.

Foram surpreendidos na concentração do Ninho do Urubu, que funcionava sem o aval da prefeitura do Rio de Janeiro, às cinco da madrugada de uma sexta-feira, 8 de fevereiro.

Para a prefeitura carioca, o local onde crianças e adolescentes repousavam em camas dentro de contêineres improvisados, que o clube carioca tinha a coragem de chamar de dormitório, constava um estacionamento.

Não havia, portanto, aval dos bombeiros.

A concentração dos jogadores da base do Flamengo era completamente irregular.

Tudo ficou ainda mais insano quando a diretoria confessou que, antes dos garotos, os jogadores profissionais costumavam dormir naquela arapuca.

Os dez meninos mortos tinham famílias pobres, simples. E que apostavam todo seu futuro no talento dos garotos que confiaram as vidas ao Clube de Regatas do Flamengo.

Houve uma comoção nacional, internacional.

Pêsames de governantes, reportagens da BBC, CNN, das mais respeitadas redes de tevê do mundo.

Enquanto isso, a diretoria do Flamengo seguia seu plano de não economizar na montagem de um time para ganhar a Libertadores.

Esses foram os atletas comprados.

Arrascaeta (Cruzeiro): R$ 58 milhões
Bruno Henrique (Santos): R$ 22 milhões
Rodrigo Caio (São Paulo): R$ 22 milhões
Gerson (Roma): R$ 53 milhões
Pablo Marí (Manchester City): R$ 6 milhões

Mais Gabigol emprestado, Rafinha e Filipe Luís, com vencimentos milionários, entre salários e luvas.

Jorge Jesus, o técnico, embolsa R$ 1,2 milhões a cada 30 dias.

As conquistas do Carioca, do Brasileiro, da Libertadores e ter chegado ao vice-mundial, renderam mais de R$ 70 milhões em premiações aos atletas e funcionários dividirem.

E os dirigentes já asseguraram Pedro Rocha, Gustavo Henrique e estão fechando com Thiago Maia para 2020, onde o plano é garantir o domínio sobre o continente sul-americano e brasileiro, vencendo novamente a Libertadores e o Campeonato Nacional.

O sonho em 2020 é ser o primeiro clube deste país a arrecadar mais de R$ 1 bilhão.

Enquanto isso, como estão as famílias dos dez garotos mortos asfixiados ou queimados?

A diretoria flamenguista resolveu enfrentar o Ministério Público, a Justiça Brasileira. E lembrava o cruel precedente dos jovens mortos na boate Kiss, onde 242 jovens morreram em um incêndio, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no dia 27 de janeiro de 2013.

Nenhum dos mil pedidos de indenização havia sido pago, mesmo seis anos depois da tragédia. Mostrando a criminosa burocracia da legislação brasileira.

O Flamengo oferecia R$ 300 mil para cada família e um salário mínimo por dez anos.

O Ministério Público segue pedindo R$ 2 milhões e mais R$ 10 mil mensais até que cada um dos garotos mortos atingisse 45 anos.

A promotora do MP, Danielle Kremer, ficou revoltada com a postura do clube carioca. Não admitia a comparação

“É uma situação absolutamente diferente: no Flamengo eram todos menores de idade, estavam alojados e eles prometeram às famílias cuidar de todos esses garotos.”

“Na Boate Kiss, estavam em busca de entretenimento, era totalmente diferente. Agora vamos passar para caminhos judiciais. O Ministério Público do Trabalho, o Ministério Público e a Defensoria vão propor ações cabíveis para indenizações. Podem ser ações coletivas, aquelas famílias que não quiserem aderir podem procurar advogados particulares ou até a Defensoria, que se dispôs a ajudar.”

Só que, enquanto o Flamengo se impunha no campo, e quebrava recordes de arrecadação, as famílias dos meninos mortos começaram a ceder.

Precisavam de dinheiro.

E fizeram o que o clube queria.

Quatro das dez, passando necessidades, decidiram assinar acordos secretos com o Flamengo e desistiriam de uma ação conjunta na justiça.

E, pelo acordo, se comprometaram a não só não revelar quanto receberam. Também a recorrer no futuro.

Desmoralizada, a justiça do Rio de Janeiro determinou, em outubro, que o clube banque R$ 10 mil a cada uma das dez famílias dos meninos mortos. Até que todos os processos sejam encerrados.

A decisão é provisória.

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, fez a promessa de ganhar todos os títulos possíveis em 2019.

Mas acabou com a indesejada conquista de o clube mais frio, cruel.

“Não tenho dúvida de que foi uma fatalidade.”

“Infelizmente, aconteceu. Não posso imaginar que alguma coisa poderia ter sido feita e o Flamengo não fez porque não ligou, achou que não teria importância.”

“Há muitas coisas que vamos saber ao longo desse processo. Ele não termina aqui, ainda não terminou. Essa vai ser uma conclusão da polícia, mas, na minha percepção, foi uma fatalidade”, disse o dirigente.

Depois de dez meses de investigação, ficou provada toda a negligência do Flamengo.

Landim decidiu não se pronunciar mais sobre as mortes.

Neste último dia de 2019 fica o registro.

Foi o ano que o Flamengo revolucionou taticamente o futebol brasileiro.

Quebrou recordes e mais recordes de vitórias.

Ganhou o Brasileiro de forma nunca vista.

Conquistou a Libertadores.

Resgatou o orgulho pelo futebol.

Mas fora do campo envergonhou o país.

A morte dos dez meninos não será esquecida.

E muito menos a maneira com que foi tratada.

É bom comemorar Arrascaeta, Bruno Henrique.

Pensar em Gabigol.

No R$ 1 bilhão em 2020.

Flamengo, campeão da Libertadores em 2019 (Foto: Daniel Apuy/Getty Images)

Mas ninguém tem o direito de se esquecer desta lista.

Athila Souza Paixão, 14 anos.
Arthur Vinícius de Barros Silva Freitas, 15 anos.
Bernardo Pisetta, 14 anos.
Christian Esmério, 15 anos.
Gedson Santos, 14 anos.
Jorge Eduardo Santos, 15 anos.
Pablo Henrique da Silva Matos, 14 anos.
Rykelmo de Souza Viana, 17 anos.
Samuel Thomas Rosa, 15 anos.
Vitor Isaías, 15 anos.

Nem das suas famílias.

Submetidas à irresponsabilidade…

Depois, à cruel mesquinharia…

Do campeão do Brasil, da Libertadores.

Do arrecadador de R$ 857 milhões em 2019.

Que premiou R$ 70 milhões seus atletas.

E enterrou seus dez meninos.

Mortos, surpreendidos, encurralados.

Na sua absurda concentração…

O Clube de Regatas do Flamengo.

Bastariam R$ 24 milhões para indenização.

E a terrível questão seria encerrada.

Mas Landim não aceita.

Que sua consciência siga não atrapalhando.

E comemore, com champanhee alegria, 2020.

Afinal, será o ano do bilhão.

Dez famílias não terão essa sorte.

Estão muito diferentes.

Mudaram em relação a dezembro de 2018.

A concentração do Flamengo matou seus sonhos.

E seus meninos…

 

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