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Futebol sempre foi coisa para pobre no Brasil, até decidirem que não seria mais

Futebol sempre foi coisa para pobre no Brasil, até decidirem que não seria mais

O futebol é o esporte do povo, dizem, com boa dose de razão. As regras são fáceis de serem compreendidas. A prática também é simples. Basta uma bola, feita de meia ou de poliéster, uma latinha de refrigerante amassada, uma tampinha de garrafa, dois chinelos e muita imaginação. É o assunto que melhor une o patrão e o empregado, o doutor e o porteiro, e o estádio, o ambiente inclusivo em que todos eles convivem em harmonia. Todas as afirmações ainda são verdadeiras, com exceção da última. No Brasil, ainda mais no Brasil com 14 milhões de desempregados, o futebol virou programa para quem consegue pagar muito por um ingresso. E o preço cobrado exclui muita, muita gente.

Por: Bruno Bonsanti, do Trivela

Por isso, Alexandre Kalil, prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do Atlético Mineiro, tem o mérito de pelo menos ter sido grosseiramente honesto ao dizer, em entrevista ao jornal El País, que futebol não é coisa para pobre, justificando seu veto a um projeto de lei que reservaria 30% da carga total de bilhetes para preços populares. Kalil só não foi muito preciso na sua declaração. Futebol é, sim, coisa para pobre, foi durante uma centena de anos, mas, no Brasil, o pobre não tem mais vez no futebol.

Como na política, à esquerda, à direita e ao centro, o pobre é usado para uma retórica bonita e frequentemente ignorado na prática. Unindo as duas esferas, o povo serve para reforçar a importância do futebol, por exemplo, quando decidem sediar uma Copa do Mundo para, no meio do processo, superfaturar obras de infraestrutura e estádios. Logo depois, entre outros motivos, também para pagar a conta do Mundial e para sustentar as novas e caras arenas, o povo é excluído dos estádios porque, nas palavras de Kalil, “torcida dividida e entrada a preço de banana estragada só existem no Brasil”. No caso do Atlético do prefeito de Belo Horizonte, a “massa atleticana” serve para elevar o status do clube, para fazer boas campanhas de marketing, para cobrar mais por patrocínio de camisa e pelos direitos de televisão, mas, por favor, só venha ao estádio quem tiver dinheiro.

É interessante que Kalil tenha citado também a torcida dividida porque o preço dos ingressos é apenas um fator do processo de teatralização em curso dos estádios brasileiros. E não no sentido de discursos e ações grotescamente encenadas, embora haja muito disso em promotores, jornalistas e dirigentes, mas no de converter o campo de futebol em um teatro: limpo, quieto, complacente, controlado. A cada lamentável caso de briga entre torcidas, as instituições atacam com soluções que servem a esse propósito e não resolvem nada do real problema de violência que temos por aqui. E, pouco a pouco, vamos normalizando situações absurdas, como a ausência de bandeiras e torcida visitante em clássicos nos estádios paulistas. Como a ausência do povo nos estádios. Teve até especialista em gestão esportiva escrevendo que preço popular “derruba o nível do torcedor” e atrai bandidagem.

De maneira inconveniente para os poderosos, o povo, principalmente o nosso povo, tende a não desistir facilmente e encontra maneiras de ficar próximo do time de futebol do seu coração, apenas para mais uma vez ser enxotado. Foram espetaculares as festas dos torcedores do Palmeiras, muitos sem condição de ir sempre ao Allianz Parque, nos arredores da Rua Turiassu antes, durante e depois de partidas importantes. Mas parece que a felicidade incomoda. Havia problemas – superlotação e furtos – que precisavam ser tratados, mas, em vez de encontrar uma maneira de todo mundo conviver pacificamente, as autoridades mais uma vez atacaram com autoritarismo, se me permitem a redundância: cerco, silêncio, controle. Exclusividade, como se fosse o setor vip de uma balada, e não uma via pública. Apenas quem tem ingresso pode entrar na agora Palestra Itália e o resultado foi uma rua fria e desinteressada, até mesmo antes do jogo que poderia dar ao clube seu primeiro título brasileiro em 22 anos.

O Flamengo praticamente não teve casa para disputar o último Campeonato Brasileiro, quando chegou a brigar pelo título. O motivo principal foi o crime que fizeram com o Maracanã, um estádio que passou a exigir público na casa das muitas dezenas de milhares apenas para não dar prejuízo a quem joga lá. A torcida passou a acompanhar o elenco ao aeroporto antes das viagens, nas ruas e no saguão, e qual foi o discurso que ouvimos? Atrapalha o trânsito, atrapalha quem quer viajar, faz bagunça, é perigoso. Para ser justo, o pobre até é bem-vindo caso fique bem quietinho no seu canto e não atrapalhe muito.

A ironia é os clubes usarem o alto custo de um time competitivo hoje em dia para justificar ingressos caros ao mesmo tempo em que estão perdendo dinheiro. A maioria dos especialistas afirma que cadeira vazia durante um jogo é prejuízo. Há “consumidor” querendo aquele “produto”, mas o preço o afugenta. Mantendo-se na comparação com um supermercado, o “produto” estraga, é jogado fora quando a partida termina e o clube perde dinheiro. Apenas sob a ótica do faturamento, os clubes deveriam buscar o ingresso mais caro possível que resultasse em estádio lotado todas as semanas. É assim que fazem os grandes da Europa que eles adoram usar como exemplo (ou desculpa).

Ano passado, Palmeiras e Corinthians tiveram taxas de ocupação próximas aos 70%, o que ainda está longe do ideal. Daí para baixo, quase todo mundo teve, em média, metade do estádio vazio durante as suas partidas. Todos os clubes grandes do Brasil têm milhões de torcedores, muitos dos quais adorariam ver o time ao vivo. Não tem justificativa para não lotar o estádio, nem financeira: 70 pessoas pagando R$ 50 dá R$ 3500; 100 pessoas pagando R$ 40 dá R$ 4000. Talvez dê para contratar mais um atacante com esses metafóricos R$ 500. Como a conta que acabamos de fazer não é a mais difícil do mundo, há claramente uma preferência, consciente ou não, por certo tipo de público nos estádios. Na contramão da nova tendência, é de se aplaudir as medidas tomadas por América Mineiro e Internacional para trazer o povo de volta ao estádio e, ao mesmo tempo, olha que surpreendente, aumentar a receita.

A venda exclusiva ou favorecida pela internet já é um problema. Segundo números do IBGE, em 2015, aproximadamente 58% da população brasileira teve acesso à rede mundial de computadores. Outra pesquisa, do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), mostra que 53 milhões dos 200 milhões de brasileiros tem cartão de crédito, o jeito pelo menos mais fácil de comprar ingresso hoje em dia, senão o único, em certos casos. A dinâmica dos nossos planos de sócio-torcedor é outro empecilho: não importa o quanto de desconto um sócio recebe se ele tiver que pagar uma quantia mensalmente para obtê-lo. O peso no orçamento mensal acaba sendo maior. E, em alguns clubes, você só tem acesso aos ingressos mais baratos se for a todos os jogos. Logo, precisa pagar a mensalidade e três ou quatro bilhetes por mês. Isso é preço popular?

Imagens da geral do Maracanã, como a que abre este texto,  e outras arquibancadas importantes com pessoas de todas as raças, todos os credos, todas as classes sociais não passam de folclore hoje em dia, histórias que os avôs contam para os filhos sobre os “velhos tempos”. Sempre houve uma necessidade de profissionalização dos clubes brasileiros, cobrança por programas como o sócio-torcedor e por maiores rendas para que eles deixassem de ser tão frágeis e devedores. No entanto, como era até previsível, fizeram de qualquer jeito. O futebol sempre foi inclusivo, e é tão maravilhoso justamente por ser tão inclusivo, e é necessário encontrar uma maneira para que ele continue sendo, mesmo nos tempos modernos. O futebol não pode buscar a tal da modernização ao custo de perder a sua essência. Sem a essência, não resta nada, e a essência do futebol brasileiro, Alexandre Kalil, é, sim, o pobre nos estádios.

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