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Informantes africanos: o que disseram escravizados e libertos sobre o interior da África Ocidental (século XIX)

O que havia na “misteriosa” cidade de Tombuctu? Qual o curso do rio Níger? Quem eram os ijebus? Essas foram algumas das perguntas que os “informantes africanos”, escravizados e libertos, responderam na primeira metade do século XIX. Você deve estar se perguntando quem eram esses indivíduos e porque sabemos tão pouco sobre eles. Na coluna Nossas Histórias dessa semana, apresentamos três desses informantes: Seïd Enkess, Ouaré Ebnkilho e Osifekunde. 

Em 6 de dezembro de 1839, na abertura da assembleia geral da Sociedade de Geografia de Paris, o secretário Sabin Berthelot leu seu relatório sobre os trabalhos apresentados naquele ano. Após enfatizar a importância da geografia como ciência que buscava separar o real da fábula, dissertou sobre os avanços da disciplina nos continentes europeu e africano. Disse ele: “A África, terra por vezes inóspita, mas agora acessível em algumas áreas, se revela a cada dia diante das investigações dos exploradores”. 

Os exploradores em questão eram, em sua maioria, militares a serviço do Estado francês, e alguns aventureiros curiosos que se correspondiam com as sociedades geográficas nacionais e internacionais, atualizando investigações sobre a topografia, a geopolítica, além de informações sobre as sociedades africanas. As áreas às quais Berthelot fazia referência correspondiam à Abissínia, a Oramia (na Etiópia), o Sudão e o território Ijebu, no sudeste da atual Nigéria. Berthelot também destacou que, graças a “um conjunto de circunstâncias” favoráveis, alguns associados puderam colher informações valiosas em conversas com africanos, escravizados e libertos, sobre o interior do continente. Assim sendo, sem a necessidade e os custos de uma travessia do Atlântico, esses “homens de ciência” conseguiram, com o auxílio de informantes experientes, descrever com exatidão regiões até então pouco conhecidas pelos europeus. 

Recorrer aos conhecimentos dos africanos sobre suas regiões de origem não era uma especificidade dos geógrafos europeus, nem muito menos uma prática exclusiva do século XIX. Porém, esse modus operandi das entrevistas (conversas e interrogatórios), no qual o indivíduo e sua tradição oral tornaram-se objeto científico ganhou outra dimensão no cenário geopolítico que antecedeu a era dos impérios, quando se buscava estabelecer novas relações econômicas entre a Europa e a África, a fim de compensar a possível derrocada do sistema escravagista, substituindo-o por um comércio “legítimo” de produtos tais como o azeite de dendê e a noz-de-cola.

Por certo, um número importante dessas entrevistas foi realizado no Brasil, em 1819, por iniciativa de José Bonifácio de Andrada e Silva, com africanos que sabiam ler e escrever (provavelmente a língua árabe). De acordo com François-Eugène Garay de Monglave, José Bonifácio e um geógrafo dividiram os africanos em grupos de oito a 10 pessoas que foram individualmente questionadas sobre a geografia física de sua terra natal, o nome dos lugares que conheciam, sobre sua população, seu comércio e a topografia das localidades vizinhas. Em seguida, pedia-se para que cada escravizado indicasse, entre os presentes, aquele cuja terra natal era vizinha da sua. O interrogatório continuava seguindo o mesmo roteiro, de modo a completar e interligar os pontos mais distantes de cada região. 

Não há, até o presente momento, nenhum registro sobre a participação de mulheres escravizadas nessas conversas. O que não significa que elas não tenham participado em outras que até o momento não chegaram ao nosso conhecimento. De acordo com Monglave, entre os entrevistados estavam um príncipe, um comandante de um exército, um professor de escola corânica e um sacerdote (marabout). Quase todos possuíam atividades comerciais diversificadas, incluindo a venda de tecidos e o comércio de escravizados, mas em sua grande maioria eram infelizes que tinham caído no julgo de traficantes e que foram vendidos à escravidão, deportados para longe da terra que os viu nascer. Esses indivíduos forneceram informações de interesse de José Bonifácio, informações de uma “exatidão irrecusável” que possibilitaram a realização detalhada de um mapa de algumas partes “desconhecidas” do interior da África Ocidental. Esse mapa nunca foi localizado ou está esquecido em algum arquivo privado, no Brasil ou em Portugal. 

Desse singular experimento foram retiradas seis valiosas entrevistas com os escravizados Francisco, Mateus, José, Bernardo, Bento e Bonifácio, de origem hauçá. inseridas no artigo “Lettres sur l’Afrique ancienne et moderne” (Cartas sobre a África antiga e moderna), publicado por Antônio de Menezes Vasconcelos de Drummond, no Journal des voyages, découvertes et navigations modernes, em 1826. O texto ganhou uma tradução comentada por Alberto da Costa e Silva, em 2013, inserida na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) com o titulo de “José Bonifácio e o curso do Níger”.

Os seis africanos hauçás também forneceram informações sobre Tombuctu (a “pérola do deserto”), cidade “rodeada de muros” onde “os nobres e ricos iam a cavalo.” Francisco, um ulemá (teólogo muçulmano), foi o interprete do grupo. Ele também viu a cidade de muros altos, fortemente defendida por artilheiros. Todos descreveram suas regiões e seus modos de vida, mas principalmente as circunstâncias de suas capturas e o itinerário que foram obrigados a percorrer do interior do continente até a Costa dos Escravos, de onde eles foram deportados para o Brasil. Foi com base no que disseram que o estadista deduziu o curso Níger, chamado pelos hauçás de Gulbi (Gulby) e Kwara, tendo em vista que o rio recebia diferentes denominações, de acordo com as regiões que ele atravessava, até desembocar num “delta maior do que o do Gange”. Porém, José Bonifácio nunca recebeu os devidos créditos por suas deduções. 

Em 1848, outros vinte e três africanos escravizados, em sua maioria hauçás, foram questionados pelo naturalista e conde Francis de Laporte de Castelnau, em Salvador da Bahia. Após sua chegada na província, o então cônsul da França reparou que alguns dos vários escravos “sabiam ler e escrever o árabe e o líbico”. Eles lhe seriam úteis na sua pesquisa sobre o interior da África porque provinham dos reinos de Kano, Gobir, Katsina, Zaria, Zamfara e Adamawa, no norte da atual Nigéria, e quase todos foram deportados para a Bahia através dos portos de Onim (Lagos) e Porto Novo, na atual República do Benim. Porém, foi em Paris que os geógrafos Edme-François Jomard e Marie-Armand d’Avezac, membros das sociedades científicas de Geografia e Etnográfica, conversaram com os libertos Seïd Enkess, Ouaré Ebnkilho e Osifekunde, três africanos libertos cujos resumos biográficos veremos a seguir.

Representações de Seïd Enkess (1), Ouaré Ebnkilho (2) e Osifekunde (3). Fontes: https://www.museedelhomme.fr/fr/musee/collections/buste-said-abdallah-4131 (1); https://gallica.bnf.fr/ (2); Museu da História do Homem (Paris), foto de Aderivaldo Ramos de Santana (3).

Seïd Enkess nasceu em 1821 no sul do atual Sudão. Foi capturado por traficantes de escravizados egípcios e turcos quando tinha apenas 8 anos de idade e levado ao Cairo, onde foi comprado por um negociante italiano que o cedeu ao cônsul da Prússia em Livorno, na região da Toscana. Chegou à França como doméstico, em 1838, acompanhando o príncipe russo Dimitri Galitzin e foi provavelmente nessa época que se tornou um homem livre, beneficiando-se do direito costumeiro que proibia a escravidão na metrópole francesa. Após a morte de Galitzin, Seïd passou a trabalhar como modelo profissional para diversos pintores e escultores, entre eles Pierre-Marie Dumoutier e Henri Joseph Charles Cordier, membro da Sociedade de Etnologia de Paris. Cordier moldou um busto, em bronze, do seu informante e o rebatizou de Saïd Abdallah, em homenagem a uma “tribo do Darfur”. Não se sabe se o primeiro africano a trabalhar como modelo em Paris continuou posando e qual o seu destino após 1848. O certo é que ainda há muito a ser contado sobre Seïd Enkess.  

O relato de Ouaré, assim como o de Seïd Enkess, é um registro singular do tráfico interno. Nativo do país limou, na atual Etiópia, ele contou que foi sequestrado por traficantes quando era apenas uma criança; estava sozinho no campo, longe dos irmãos e do pai que havia ficado em casa porque estava doente. Os traficantes de escravos o levaram, junto com outras trinta pessoas, jovens e crianças de ambos os sexos. Mas somente onze escravizados chegaram com vida até o mercado na cidade de Cartum, capital do Sudão, depois de uma viagem de quatro meses de caminhada. Em Cartum, Ouaré foi comprado por um inglês que o libertou. Um chefe do exército egípcio o levou para França para ser um dos estudantes da missão egípcia. O objetivo era formá-lo e, em seguida, enviá-lo ao seu país de origem. Em Paris ele estudou muito, obtendo bons resultados em Matemática e Física, sempre sob elogios do geógrafo Jomard e dos seus professores. Porém, infelizmente o jovem etíope nunca regressou à sua terra natal. Faleceu de tuberculose aguda na madrugada do dia quatro para o dia cinco de julho de 1839, com apenas 18 anos de idade. 

Osifekunde era de etnia Ijebu, um subgrupo iorubá do sudeste da atual Nigéria. Foi capturado em 1820 e vendido para o Brasil, onde recebeu o nome de Joaquim e trabalhou durante 17 anos como escravizado doméstico, antes de conseguir se tornar um homem livre na França. Descobriu, quando acompanhava a família Navarre em uma viagem à Paris, que não podia ser escravo na metrópole francesa e foi beneficiado pelo direito à liberdade do solo. É importante lembrar que esse era um direito costumeiro, nem sempre garantido a todos escravizados que pisavam o território francês. Isso porque muitos senhores usavam de prerrogativas legais para se hospedarem na metrópole salvaguardando seus direitos de propriedade sobre seus escravizados.  

Como homem livre, Osifekunde passou a se chamar Joseph; continuou trabalhando como doméstico em casa de particulares e também num hotel popular em Paris. No dia 21 de março de 1839, ele foi apresentado a d’Avezac na esperança de que este o ajudasse a encontrar “meios de retornar ao Brasil”, onde deixara um filho. Chamou a atenção do geógrafo o interesse do africano em retornar ao Brasil, negligenciando a possibilidade real de uma reescravização, tendo em vista que a liberdade do solo adquirida na França não tinha nenhum valor jurídico sobre a propriedade escrava num país estrangeiro. 

O geógrafo conseguiu persuadi-lo a esperar uma oportunidade de retorno à África. Osifekunde passou a ser um informante providencial, contando tudo o que sabia sobre sua terra. Membro da aristocracia real do reino Ijebu, filho de um importante comerciante, ele parecia não ignorar nada sobre a topografia e geografia de seu país natal. Descreveu aspectos físicos de seus conterrâneos, os seus hábitos de trabalho, em particular a fabricação do pano da costa, cuja confecção era protagonizada pelas mulheres. 

O tempo em que foi escravizado no Brasil não o fez esquecer os diversos eventos que marcaram sua existência: o ritual de nascimento e a atribuição do nome de batismo, o aleitamento das crianças recém-nascidas, a educação primária, a circuncisão, as tatuagens ou escarificações, o ritual do casamento, a maneira como os Ijebu curavam as enfermidades, a expectativa de vida, a morte, os funerais. O informante parecia ter resposta para todas as perguntas do geógrafo, descrevendo aspectos relevantes a respeito da vida cultural e religiosa do seu povo, a importância dos orixás, em particular Obatalá, patrono da sua terra natal, além do papel importante que desempenhava a música. Tudo foi descrito com minúcia: a organização política, o sistema judiciário e o funcionamento do exército, todas as informações serviram para compor um estudo completo e pioneiro sobre os Ijebus. 

Em 1841, aos 48 anos, Osifekunde aceitou uma proposta do seu ex-proprietário, e negociou melhores condições de trabalho, na certeza de reencontrar seu filho, de quem até o presente momento não temos informação. Essa oferta de trabalho mostra que durante o tempo em que viveu na França, ele não deixou de ter contato com Jean-Baptiste Navarre, cuja trajetória ganhou importância no setor industrial pernambucano. De retorno ao Brasil, o liberto Osifekunde adotou o nome de Joaquim da Costa e foi trabalhar no sitio dos Navarre, em Apipucos. 

Embora liberto, o fato de viver com Jean-Baptiste Navarre ainda fazia dele, aos olhos dos demais e, quem sabe, do seu antigo senhor, um escravo. Um ano e três meses após regressar ao Brasil, Osifekunde foi vítima de uma emboscada, no dia 24 de julho de 1842. Alguns indivíduos o levaram para uma casa, rasparam sua cabeça e o surraram até a morte. Ainda não sabemos o motivo do seu assassinato, mas a forma como foi brutalmente espancado chamou atenção da opinião pública que classificou o crime como um dos mais “escandalosos pela insolência dos assassinos” e pelo “requinte de crueldade” que apartava o Brasil das “nações civilizadas”. Dois anos após seu assassinato, uma nota publicada no jornal Diário de Pernambuco cobrava respostas das autoridades recifenses. Seu linchamento mostrou de forma cruel que a liberdade do solo, conquistada na França, não tinha força nem validade legal para contrapor a ordem privada escravista, na qual o homem branco era dono do escravo e autoridade máxima. 

Tanto no caso dos informantes escravizados quanto no dos informantes libertos, fica evidente a importância da história oral para a produção de conhecimento sobre o interior da África Ocidental, na fase que antecedeu o colonialismo europeu. Para os “homens de ciência”, que pretendiam somente tirar proveito do que sabiam esses africanos, não importava as circunstâncias de suas capturas e mesmo a dura realidade da escravidão. Porém, para o historiador contemporâneo, compreender de que maneira esses indivíduos serviram de objeto de investigação “científica” também nos permite identificar um volume considerável de documentos úteis aos estudos que visam reconstituir e trazer à tona suas biografias, em particular dos escravizados no Brasil. Essas entrevistas nos oferecem elementos para entendermos as subjetividades desses indivíduos, suas desventuras e protagonismos, sobretudo a partir da experiência do cativeiro e da liberdade. 

Assista ao vídeo do historiador Aderivaldo Ramos de Santana no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula:

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

Ensino Fundamental:

EF07H103 (7° ano: Identificar aspectos e processos específicos das sociedades africanas e americanas antes da chegada dos europeus, com destaque para as formas de organização social e o desenvolvimento de saberes e técnicas). EF07HI16 (7° ano: Analisar os mecanismos e as dinâmicas de comércio de escravizados em suas diferentes fases, identificando os agentes responsáveis pelo tráfico e as regiões e zonas africanas de procedência dos escravizados). EF09HI14 (9° ano: Caracterizar e discutir as dinâmicas do colonialismo no continente africano e asiático e as lógicas de resistência das populações locais diante das questões internacionais).Ensino Médio: EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos).


Aderivaldo Ramos de Santana

Docente – Universidade Paul-Valéry Montpellier 3

Doutor em História – Universidade Sorbonne


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