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James Baldwin, o grande crítico do sonho americano

James Baldwin, o grande crítico do sonho americano

“Quando você estava começando como escritor, sendo negro, pobre e homossexual, deve ter pensado: ‘Nossa, quão desfavorecido se pode ser?’, afirmou certa vez um apresentador de talk show ao entrevistar James Baldwin. Sem pestanejar, ele respondeu: “Não, eu achei que tinha tirado a sorte grande. Era tão ultrajante que eu tinha de achar um jeito de usar aquilo”.

Por Helder Ferreira Do Revista Cult

Neto de um escravo, Baldwin nasceu em 2 de agosto de 1924 em um hospital no Harlem, bairro negro de Nova York para onde sua mãe, Emma Berdis Jones, havia acabado de se mudar, após deixar o pai biológico do escritor por conta de seu vício em drogas. Três anos depois, ela se casaria com o pastor evangélico David Baldwin, que daria ao autor seu sobrenome, oito irmãos e uma conturbada relação: para agradá-lo e, ao mesmo tempo, desafiá-lo, começou a pregar em uma igreja diferente da dele aos 14 anos.

Aos 18, deixou o púlpito para sempre e decidiu se tornar escritor. Foi a maneira que encontrou de utilizar as “desvantagens” citadas pelo apresentador: usou a literatura para retratar a vida dos que, assim como ele, eram excluídos do sonho americano e refletir sobre as injustiças de sua sociedade. Não lhe interessava o caminho a que estava supostamente predestinado, nem acreditou na retórica racista.

“Os negros deste país são ensinados a se desprezar desde o momento em que abrem os olhos neste mundo”, escreveu em um dos dois ensaios que compõem The fire next time, livro incendiário – o único de seu gênero a permanecer no topo da lista de mais vendidos do jornal New York Times por 41 semanas – publicado em 1963, quando eclodia no sul dos Estados Unidos o Movimento dos Direitos Civis, do qual ele se tornou uma das principais vozes. “Este mundo é branco e eles são negros. Os brancos detêm o poder, o que significa que eles são superiores aos negros (intrinsecamente, isto significa: Deus quis assim), e o mundo tem inúmeros jeitos de fazer esta diferença conhecida e sentida e temida”.

Crítico do sonho americano

Quase trinta anos após Baldwin morrer devido a um câncer estomacal, em 1º de dezembro de 1987, sua voz voltou a ressoar no documentário indicado ao Oscar de Raoul Peck, Eu não sou seu negro, que usa como roteiro um manuscrito inacabado do escritor sobre a vida e os assassinatos de três companheiros na luta pelos direitos civis: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King.

O filme chegou aos cinemas brasileiros em março, mas demorou a ressoar no mercado editorial do país, onde suas obras permanecem esgotadas há décadas. Em agosto, a A Companhia das Letras divulgou a compra dos direitos de três títulos do autor, ainda sem previsão de lançamento: Another country (1962), Giovanni’s room (1965) e If beale street could talk (1974). A presença de Baldwin é também incipiente nas universidades brasileiras: uma busca na plataforma Lattes, do CNPq, resulta em poucas referências, nenhuma delas correspondente a autores de dissertações de mestrado ou teses de doutorado a respeito do autor.

Professora do Instituto de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora de literatura afro-americana, Maria Aparecida Salgueiro lamenta essa ausência; ela afirma que a obra do escritor tem muito a dizer ao Brasil contemporâneo que começa a discutir a questão racial. “Tenho incentivado minhas turmas a prestarem atenção nele e neste ano irei orientar uma tese de doutorado dedicada à sua obra”, conta.

“Baldwin conseguiu ser um grande romancista, um grande ensaísta, um grande dramaturgo, um grande poeta e um grande militante”, afirma Salgueiro, que também ressalta três pontos importantes na obra do escritor: o pioneirismo, a sensibilidade e a visão antecipada.

Segundo ela, o escritor foi um dos primeiros a praticar de forma orgânica o conceito de “consciência da nação” – tema que figurou em muitos discursos do ex-presidente dos EUA Barack Obama, por exemplo – ao levar paixão e honestidade para a discussão racial, tornando impossível que esta fosse mais uma vez ignorada. “Esse pioneirismo aparece tanto nos romances quanto nos ensaios – estes fundamentais, pois tratam não apenas das questões raciais, mas das questões raciais ligadas às de sexualidade e de classe, mostrando como esses três pontos estão interligados aos preconceitos das sociedades ocidentais e especialmente da sociedade estadunidense do século 20”, informa. “Ele foi o grande crítico do sonho americano, da promessa dos pais fundadores de que os EUA eram ‘terra de todos’.”

O segundo ponto é a sensibilidade com que ele trabalhou os grandes temas de sua obra: a rejeição por si próprio, pela família e pela sociedade. “Ele tinha uma sensibilidade absurda, e não estou falando só de emoção, mas também de razão”, comenta a professora. “A forma e o momento em que ele lidou com esses temas demonstram também este terceiro ponto, que é a visão antecipada de vida, de mundo e do ser humano”.

Livre em terra estrangeira

Para escrever sobre a sociedade opressora em que vivia, Baldwin precisava primeiro se afastar dela. Então, em 1948, após ter trabalhado um tempo como escritor freelancer – resenhando livros e publicando contos – e sido contemplado com duas bolsas de criação literária, mudou-se para a capital francesa para terminar de escrever seu primeiro livro: o romance semiautobiográfico Go tell it on the mountain, publicado em 1953.

Em pouco mais de 200 páginas, o autor narra a história de John Grimes, um adolescente negro que vive no Harlem nos anos 1930, e seu relacionamento com a família (uma mãe estoica diante das tragédias da vida e um padrasto violento e religioso fanático) e a Igreja Pentecostal (fonte de repressão e hipocrisia moral, mas também de inspiração e senso de comunidade). O romance garantiu a Baldwin um prêmio da Fundação Guggenheim e foi considerado pela revista Time, em 2005, um dos 100 melhores romances de língua inglesa do século 20.

Giovanni’s room, segundo romance do autor, sucederia a obra se não tivesse sido rejeitado pela editora, em 1954, por conta de sua temática: a homossexualidade. O livro, cujo enredo enfoca o relacionamento de um gay americano branco com um bartender italiano em Paris, só seria publicado na Inglaterra em 1956, após a chegada da coletânea de ensaios Notes of a native son às livrarias e a estreia da peça The amen corner.

Dedicado ao pintor Lucien Happersberger, primeiro namorado do escritor – que o deixou para se casar com uma mulher –, o livro só chegaria ao Brasil em 1967, pela editora Civilização Brasileira, com tradução de Affonso Blacheyre e texto de orelha em que o jornalista e crítico Paulo Francis ressalta a independência do autor em face dos problemas raciais (já que no romance não há personagens negros) e seu pioneirismo ao normalizar a homossexualidade: “O caso de amor que ele relata contém todas as alegrias, angústias e crises de esfriamento peculiares às ligações heterossexuais”.

Para Lauro Maia Amorim, professor do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários da Unesp de São José do Rio Preto e autor de pesquisa sobre a recepção tradutória de autores afro-americanos, há no texto de Francis uma tentativa de atrair a atenção do leitor para a dimensão estética e para a linguagem de Baldwin, em contraposição ao seu lado político. “A questão da homossexualidade é trazida para um campo de menor intensidade afirmativa, sem contornos ideológicos, mas submetida à força estética que o jornalista atribui (com razão) à grandeza da linguagem ficcional do autor”, explica ele, que também identificou um esforço do tradutor em elevar o registro das falas em situações em que não há tanta formalidade entre os personagens comunicando-se em inglês.

Amorim não vê o gesto da editora Civilização Brasileira de despolitizar o escritor como censura editorial direta, mas uma estratégia política de veiculação de um tema polêmico durante a ditadura militar. “A editora apresenta e traduz Giovanni em consonância com uma perspectiva doméstica cultural que se aproxima da busca por valores mais ‘universalistas’”, escreveu ele em artigo sobre a pesquisa. “Uma opção tão ‘política’ quanto ‘estética’.”

Esta mesma estratégia citada pelo professor pode ser identificada na primeira página do terceiro romance do escritor, Numa terra estranha, publicado no Brasil pela editora Globo em 1965, que aborda temas como bissexualidade e relacionamentos inter-raciais. Nela, lê-se o seguinte aviso: “Este livro destina-se a leitores adultos: sob nenhum pretexto deve ser posto na mão de menores. Ao traduzir para o português esta aterradora história do submundo de Nova York, a intenção da editora Globo foi dar a conhecer ao público brasileiro uma obra que o crítico americano Granville Hicks considera ‘um dos mais poderosos romances de nossa época’”.

Homossexualidade apagada

Os anos de 1957 e 1968 são respectivamente marcantes na biografia de Baldwin: um assinala sua volta aos EUA para participar das manifestações pelos direitos civis, decisão tomada após ver fotos da estudante Dorothy Counts ser assediada por uma multidão branca em seu primeiro dia de aula em uma escola mista; o outro marca seu retorno para a Europa, após o assassinato de Martin Luther King, onde residiria até o fim de seus dias. Durante esses onze anos que separam as datas, ele se dividiria entre criação literária e o ativismo político, participando de inúmeros protestos, encontros com políticos e debates televisionados, mas também publicando oito livros (entre romances e coletâneas de ensaios e contos).

O documentário Eu não sou seu negro, de Raoul Peck, retrata muito bem a tristeza e a indignação de Baldwin com o assassinato de Luther King, mas omite do espectador as discordâncias do autor com o movimento negro advindas de sua condição de homossexual. Por conta dela, era zombado e atacado tanto por liberais, como o presidente J. F. Kennedy e outros que o chamavam de “Martin Luther Queen”, e radicais, como Eldridge Cleaver, líder do Partido dos Panteras Negras, que escreveu que ele e outros “negros homossexuais sentiam-se frustrados por, em sua doença, não serem capazes de gerar um filho com um homem branco”.

“A omissão é uma presença”, ironiza Maria Aparecida Salgueiro. “Acho impossível falar de Baldwin sem mencionar sua sexualidade; é um interesse marcante desde o início de sua obra o de estudar a exclusão nos seus mais variados aspectos. Além disso, trata-se de uma característica claríssima em sua biografia a intersecção entre a questão racial e sexual, como quando ele foi assediado por policiais aos 10 anos de idade”, relembra a professora.

Durante os anos 1970 e 1980, Baldwin ainda falaria abertamente sobre sua sexualidade em entrevistas e escreveria mais um romance protagonizado por um homossexual: Just above my head (1979), que narra a história de um pastor gay aclamado internacionalmente e que também não foi editado no Brasil.

Para Lauro Maia Amorim, não faltam motivos que justifiquem reedições e novas traduções das obras de Baldwin: “Sem dúvida, a obra de Baldwin continua extremamente atual, especialmente em uma era em que se tornam cada vez mais públicas as discussões, no Brasil, acerca do racismo e do respeito às diferenças, incluindo temas caros à crescente comunidade LGBTTT”, opina.

Até que isso ocorra, o escritor pobre, negro e homossexual seguirá invisível aos olhos do mercado editorial brasileiro.

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