sexta-feira, novembro 26, 2021
InícioQuestões de GêneroMulher NegraKiusam Oliveira fala sobre o livro "O mar que banha a Ilha...

Kiusam Oliveira fala sobre o livro “O mar que banha a Ilha de Goré”

Obra teve inspiração durante a participação do Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar, no Senegal

Por Davi Brandão  Do  Dci

SÃO PAULO – Artista multimídia, escritora, educadora. Nascida em Santo André, região metropolitana de São Paulo, Kiusam Regina de Oliveira ganha os holofotes com o lançamento do livro “O mar que banha a Ilha de Goré”, trabalho que ganhou inspiração durante a participação de um festival no Senegal.

Em entrevista ao DCI, a autora comenta sobre essa nova experiência no currículo, a atual situação do sistema de educação do país, literatura, questões raciais, entre outros temas importantes para a sociedade. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, Kiusam deixa uma mensagem especial para o público feminino. Acompanhe:

Como surgiu a concepção do livro “O mar que banha a Ilha de Goré”?

Em 2010, quando participei do Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar, no Senegal. Na ocasião tive a oportunidade de visitar a Ilha da Goré e foi uma experiência maravilhosa, de muita inspiração.

Você possui doutorada em educação, certo? Qual a ótica sobre a questão da autoestima das crianças negras na sociedade atual?

Enquanto crianças no espaço de socialização primário, isto é, no círculo familiar, não nos percebemos como seres  racializados: somos considerados lindos (as) para os pais, mães, avós, tias etc. A compreensão de que somos racializados tem início no processo secundário de socialização que ocorre no espaço escolar. O que afirmo é que a criança conhece o racismo no espaço escolar entre os coleguinhas de classe e profissionais da educação. É nesse espaço que as crianças negras ouvem frases do tipo “minha mão falou para eu não brincar com você porque você é preta” ou “você é feia porque é preta” ou “o seu cabelo é duro, bombril”. Assim, a criança negra começa a perceber que sua vida não será fácil porque pautada pela cor de sua pele, tipo de cabelo e pela exclusão. Desta forma, a criança negra começa a desenvolver uma autoimagem negativa que incide no processo de construção de identidades positivas e saudáveis  e no seu aproveitamento escolar porque no início de nossas vidas, construímos nossas identidades a partir dos olhares dos outros, do que os outros dizem que somos. É fundamental alguém nos dizer que somos lindos/as partindo de nossas características físicas. Isto nos fortalece, nos empodera. Os atos preconceituosos e racistas provocam no ser rupturas psíquicas que podem levar muito tempo para serem suturadas.

Kika personagem principal do livro faz o caminho de retorno para a ilha, qual a mensagem que ela passa principalmente para os pais?

A primeira mensagem é que a criança negra precisa saber suas origens em solos africanos, o protagonismo africano em termos de berço da humanidade. E digo solos africanos porque África é um continente, é plural, múltiplo, diverso. No caso, elegi a Ilha de Goré para contar uma história que nos remete à ancestralidade, à vida dos diversos elementos da natureza inclusive os colocando como sábios porque estão aqui, no planeta, desde sempre, tudo viram e tudo sabem.

É o segundo livro com ilustrações de Taisa Borges, qual a sua identidade e relação com a ilustradora?

Taísa Borges é única. Isto porque leva em consideração minhas imagens, minhas reflexões para a construção das personagens. Além do profissionalismo e competência artística possui uma sensibilidade gigante ao refletir, traçar, ilustrar personagens negras provavelmente porque mantém escuta atenta e observação ancestral. O respeito à diversidade precisa ser transmitida através das mãos de um artista, não só através do discurso e Taísa consegue fazer isso de forma generosa e transbordante. Tal capacidade também é uma forma de ativismo. Meus respeitos à essa ilustradora ativista.

Na sua opinião como avalia a educação infantil e o acesso das crianças à literatura extra curricular?

Livros não faltam nas bibliotecas escolares seja na rede estadual ou na rede municipal. O que falta é formação adequada aos profissionais da educação dentro das perspectivas da lei 10639/03, que obriga em nosso país, o ensino da História da África e da cultura afro-brasileira nas escolas. Tal formação também privilegiaria destacar, por exemplo, numa biblioteca, livros que retratem a diversidade, isto porque, estamos muito acostumados, por exemplo, aos contos de fadas europeus, a um tipo específico de princesa e os livros literários também nos formam, também ajudam a construir identidades. Se existem pessoas com diferentes características físicas, jeitos de ser, gostos e valores, porque tal diversidade não pode estar presente nos livros infantis e juvenis? É fundamental que as crianças vejam livros ilustrados com personagens com deficiências, princesas e príncipes negros e orientais, médicos negros, indígenas etc. para ser capaz de entender ou defender que o mundo deve e pode dar espaços e oportunidades a qualquer ser humano independente de suas diferenças como raça/cor, gênero, orientação sexual, altura, tipo físico, idade, entre outros.

Como você, uma mulher brasileira, negra e com um trabalho social intenso avalia o papel do negro no mundo?

Os papéis da mulher e homem negros são fundamentais. Primeiro porque enquanto pensadora faço parte de um grupo de intelectuais que acredita (e que já foi comprovado) no continente africano enquanto o Berço da Humanidade e, desta forma, tudo começou lá: a vida humana, cientificismos tecnológicos, exatos e humanos. Há que se ter respeito por este continente e pela capacidade que seu povo tem de criar e de se perpetuar na história.

Tais conhecimentos são ancestrais e estão no DNA de todo o ser humano, independente da raça/cor que cada um tenha. Tais conhecimentos e protagonismos históricos e socioculturais fazem parte dos corpos negros e todo o conhecimento, toda a capacidade de transformação social está dentro de nós; toda a força e todo o poder faz parte de nós desde sempre.

O que não podemos é nos deixar sucumbir pelos racistas de plantão que ocupam cargos nos vários espaços públicos em nosso país, por exemplo: na política, na educação, na saúde, na segurança etc. Precisamos ter a noção exata de que nós mulheres negras que secularmente amamentamos as crianças brancas filhos dos nossos algozes continuamos a cuidar das crianças brancas de nosso país e a organizar os lares dessas famílias enquanto, ao mesmo tempo, temos de organizar nossos próprios lares com todas as dificuldades possíveis; somos nós mulheres negras que estudamos muito mas continuamos a ocupar níveis subalternos nos espaços de trabalho vendo quem tem menos titulação e experiência nos chefiando; somos nós mulheres negras que ao desenvolver a mesma função que uma mulher branca ganhamos um salário menor, entre tantas outras desigualdades. Apesar disso, continuamos a sorrir, acreditando, arregaçando as mangas para cavar espaços de autonomia, protagonismo e visibilidade de nossas capacidades e talentos.

Deixe uma mensagem para todas as mulheres do Brasil em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.

Todas nós, mulheres, sofremos por viver em uma sociedade sexista como é a brasileira. Que nesse ano, mais uma vez, você seja capaz de perceber a opressão existente na relação homem-mulher e seja capaz de se fortalecer e atuar num coletivo feminino porque nossas vitórias se deram, se dão e se darão a partir de ações coletivas e cooperativas. Estamos em luta, não se iludam, luta constante contra aqueles/as que nos oprimem. Que cada vez mais você, mulher, tenha capacidade de compreender isso. Que cada vez mais, você mulher negra, tenha a capacidade de compreender que precisamos de você nos coletivos para que possamos cada vez mais ter conquistas através de políticas públicas significativas.

Facebook Notice for EU! You need to login to view and post FB Comments!
RELATED ARTICLES