Kiusam Oliveira fala sobre o livro “O mar que banha a Ilha de Goré”

Obra teve inspiração durante a participação do Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar, no Senegal

Por Davi Brandão  Do  Dci

SÃO PAULO – Artista multimídia, escritora, educadora. Nascida em Santo André, região metropolitana de São Paulo, Kiusam Regina de Oliveira ganha os holofotes com o lançamento do livro “O mar que banha a Ilha de Goré”, trabalho que ganhou inspiração durante a participação de um festival no Senegal.

Em entrevista ao DCI, a autora comenta sobre essa nova experiência no currículo, a atual situação do sistema de educação do país, literatura, questões raciais, entre outros temas importantes para a sociedade. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, Kiusam deixa uma mensagem especial para o público feminino. Acompanhe:

Como surgiu a concepção do livro “O mar que banha a Ilha de Goré”?

Em 2010, quando participei do Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar, no Senegal. Na ocasião tive a oportunidade de visitar a Ilha da Goré e foi uma experiência maravilhosa, de muita inspiração.

Você possui doutorada em educação, certo? Qual a ótica sobre a questão da autoestima das crianças negras na sociedade atual?

Enquanto crianças no espaço de socialização primário, isto é, no círculo familiar, não nos percebemos como seres  racializados: somos considerados lindos (as) para os pais, mães, avós, tias etc. A compreensão de que somos racializados tem início no processo secundário de socialização que ocorre no espaço escolar. O que afirmo é que a criança conhece o racismo no espaço escolar entre os coleguinhas de classe e profissionais da educação. É nesse espaço que as crianças negras ouvem frases do tipo “minha mão falou para eu não brincar com você porque você é preta” ou “você é feia porque é preta” ou “o seu cabelo é duro, bombril”. Assim, a criança negra começa a perceber que sua vida não será fácil porque pautada pela cor de sua pele, tipo de cabelo e pela exclusão. Desta forma, a criança negra começa a desenvolver uma autoimagem negativa que incide no processo de construção de identidades positivas e saudáveis  e no seu aproveitamento escolar porque no início de nossas vidas, construímos nossas identidades a partir dos olhares dos outros, do que os outros dizem que somos. É fundamental alguém nos dizer que somos lindos/as partindo de nossas características físicas. Isto nos fortalece, nos empodera. Os atos preconceituosos e racistas provocam no ser rupturas psíquicas que podem levar muito tempo para serem suturadas.

Kika personagem principal do livro faz o caminho de retorno para a ilha, qual a mensagem que ela passa principalmente para os pais?

A primeira mensagem é que a criança negra precisa saber suas origens em solos africanos, o protagonismo africano em termos de berço da humanidade. E digo solos africanos porque África é um continente, é plural, múltiplo, diverso. No caso, elegi a Ilha de Goré para contar uma história que nos remete à ancestralidade, à vida dos diversos elementos da natureza inclusive os colocando como sábios porque estão aqui, no planeta, desde sempre, tudo viram e tudo sabem.

É o segundo livro com ilustrações de Taisa Borges, qual a sua identidade e relação com a ilustradora?

Taísa Borges é única. Isto porque leva em consideração minhas imagens, minhas reflexões para a construção das personagens. Além do profissionalismo e competência artística possui uma sensibilidade gigante ao refletir, traçar, ilustrar personagens negras provavelmente porque mantém escuta atenta e observação ancestral. O respeito à diversidade precisa ser transmitida através das mãos de um artista, não só através do discurso e Taísa consegue fazer isso de forma generosa e transbordante. Tal capacidade também é uma forma de ativismo. Meus respeitos à essa ilustradora ativista.

Na sua opinião como avalia a educação infantil e o acesso das crianças à literatura extra curricular?

Livros não faltam nas bibliotecas escolares seja na rede estadual ou na rede municipal. O que falta é formação adequada aos profissionais da educação dentro das perspectivas da lei 10639/03, que obriga em nosso país, o ensino da História da África e da cultura afro-brasileira nas escolas. Tal formação também privilegiaria destacar, por exemplo, numa biblioteca, livros que retratem a diversidade, isto porque, estamos muito acostumados, por exemplo, aos contos de fadas europeus, a um tipo específico de princesa e os livros literários também nos formam, também ajudam a construir identidades. Se existem pessoas com diferentes características físicas, jeitos de ser, gostos e valores, porque tal diversidade não pode estar presente nos livros infantis e juvenis? É fundamental que as crianças vejam livros ilustrados com personagens com deficiências, princesas e príncipes negros e orientais, médicos negros, indígenas etc. para ser capaz de entender ou defender que o mundo deve e pode dar espaços e oportunidades a qualquer ser humano independente de suas diferenças como raça/cor, gênero, orientação sexual, altura, tipo físico, idade, entre outros.

Como você, uma mulher brasileira, negra e com um trabalho social intenso avalia o papel do negro no mundo?

Os papéis da mulher e homem negros são fundamentais. Primeiro porque enquanto pensadora faço parte de um grupo de intelectuais que acredita (e que já foi comprovado) no continente africano enquanto o Berço da Humanidade e, desta forma, tudo começou lá: a vida humana, cientificismos tecnológicos, exatos e humanos. Há que se ter respeito por este continente e pela capacidade que seu povo tem de criar e de se perpetuar na história.

Tais conhecimentos são ancestrais e estão no DNA de todo o ser humano, independente da raça/cor que cada um tenha. Tais conhecimentos e protagonismos históricos e socioculturais fazem parte dos corpos negros e todo o conhecimento, toda a capacidade de transformação social está dentro de nós; toda a força e todo o poder faz parte de nós desde sempre.

O que não podemos é nos deixar sucumbir pelos racistas de plantão que ocupam cargos nos vários espaços públicos em nosso país, por exemplo: na política, na educação, na saúde, na segurança etc. Precisamos ter a noção exata de que nós mulheres negras que secularmente amamentamos as crianças brancas filhos dos nossos algozes continuamos a cuidar das crianças brancas de nosso país e a organizar os lares dessas famílias enquanto, ao mesmo tempo, temos de organizar nossos próprios lares com todas as dificuldades possíveis; somos nós mulheres negras que estudamos muito mas continuamos a ocupar níveis subalternos nos espaços de trabalho vendo quem tem menos titulação e experiência nos chefiando; somos nós mulheres negras que ao desenvolver a mesma função que uma mulher branca ganhamos um salário menor, entre tantas outras desigualdades. Apesar disso, continuamos a sorrir, acreditando, arregaçando as mangas para cavar espaços de autonomia, protagonismo e visibilidade de nossas capacidades e talentos.

Deixe uma mensagem para todas as mulheres do Brasil em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.

Todas nós, mulheres, sofremos por viver em uma sociedade sexista como é a brasileira. Que nesse ano, mais uma vez, você seja capaz de perceber a opressão existente na relação homem-mulher e seja capaz de se fortalecer e atuar num coletivo feminino porque nossas vitórias se deram, se dão e se darão a partir de ações coletivas e cooperativas. Estamos em luta, não se iludam, luta constante contra aqueles/as que nos oprimem. Que cada vez mais você, mulher, tenha capacidade de compreender isso. Que cada vez mais, você mulher negra, tenha a capacidade de compreender que precisamos de você nos coletivos para que possamos cada vez mais ter conquistas através de políticas públicas significativas.

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