Mulher, negra e de cabelo crespo sim

Para contestar padrões de beleza, o projeto “Tecendo e Trançando Arte”,  realizado pelo coletivo Manifesto Crespo, promove oficinas que ensinam a técnica do turbante e do trançado dos cabelos; última vivência ocorreu em aldeia indígena de SP

Por Anna Beatriz Anjos  Do Portal Fórum 

manifesto-crespo-forum2-300x199Projeto “Tecendo e Trançando Arte” existe há quatro anos e já atingiu mais de mil pessoas, a maioria mulheres (Foto: Semayat Oliveira)

Se nas sociedades modernas as mulheres sofrem com o machismo, quando são negras, a opressão é dupla, motivada por seu gênero e sua raça. Uma das formas pela qual esse sistema de exclusão se expressa é o “padrão de beleza”, que elege brancas e magras, com cabelos lisos e traços finos, como o ideal a ser atingido.

As mulheres negras, portanto, além de marginalizadas nos espaços de trabalho e educação, nas esferas de decisão e poder e também nas representações veiculadas pela mídia, enfrentam ainda a subjugação estética. Em uma sociedade na qual machismo e racismo se cruzam e se somam, as características físicas negras, sobretudo femininas, são inferiorizadas a todo momento.

Por causa desses parâmetros – que também costumam ser racistas –, muitas meninas negras crescem com a autoestima abalada, em uma constante jornada para corrigir um suposto defeito catalogado pela sociedade. Mas como consertar um ‘defeito’ que é sua própria condição física natural?”, escreveu a militante feminista Jarid Arraes, blogueira da Fórum.

O coletivo Manifesto Crespo surge em São Paulo com o objetivo de contestar e fissurar essa lógica. “Tudo começou quando um núcleo de mulheres negras, jovens, se reuniu para discutir a questão da identidade a partir do cabelo, das nossas dificuldades em sermos aceitas com o cabelo natural, crespo”, conta a produtora e socióloga Lúcia Udemezue. 

Por meio do projeto “Tecendo e Trançando Arte”, o grupo promove oficinas que ensinam a técnica do turbante e do trançado dos cabelos com “uma abordagem histórica e cultural”. Durante a atividade, uma roda de conversa é formada, na qual as educadoras discutem com as participantes a relação com seus corpos, além de compartilhar relatos e experiências.

Pensamos em montar um projeto que fosse artístico, pedagógico e ao mesmo tempo político, para que a gente criasse um ambiente onde pudéssemos compartilhar essas mesmas vivências e ouvir de outras mulheres como são ou não aceitas na sociedade por conta de um padrão de beleza imposto”, adiciona Lúcia.

Desde que foi criado, há quatro anos, o “Tecendo e Trançando Arte” já atingiu mais de mil pessoas – segundo as organizadoras, “a maioria de mulheres, em São Paulo e região”. Em 2014, foi contemplado pelo Prêmio Lélia Gonzalez (Protagonismo de Organizações de Mulheres Negras), lançado em parceria pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). A partir daí, o coletivo expandiu seu espaço de atuação e passou a visitar comunidades para além da capital. Os critérios de escolha são a preservação da memória e tradições da população negra e indígena, além da presença de mulheres nos ambientes de liderança.

Nas vivências, as educadoras debatem também o “sofrimento de prateleira”: a não existência de cosméticos fabricados especialmente para as mulheres negras, considerando os tons de suas peles e as especificidades de seus cabelos. “Muita gente nem percebe que existe uma quantidade de produtos que não tem nada a ver com a gente. E aí, todos os produtos voltados para o cabelo crespo são para domar, conter, ‘dar um jeito’, ‘arrumar’, nunca valorizando a característica natural do cabelo, mas sim tentando transformá-lo em outra coisa. Temos um trabalho de reconstrução diária”, diz a designer Nina Vieria, integrante do coletivo.

manifesto-crespo-forum1-300x199Mulheres e crianças da aldeia Tenondé Porã aprenderam a fazer turbantes (Foto: Semayat Oliveira)

Intercâmbio

No último dia 28, o Manifesto Crespo visitou aldeia indígena Tenondé Porã, localizada em Paralheiros, no extremo sul de São Paulo. A ideia era promover um intercâmbio entre as índias e a cultura afro, além de ouvir os relatos dessas personagens, que cultivam um laço tão estreito com a terra.

Nina Vieira esclarece porque, na perspectiva do coletivo, é tão importante a troca entre mulheres negras e indígenas. “Tem a questão de autoestima. Estamos falando de estética negra, da não aceitação do cabelo, do formato do corpo e do rosto, e a gente percebe, dialogando com elas, que isso também existe para a mulher indígena. Tem também a questão da resistência”, destaca. “Em dezembro, estivemos em uma comunidade quilombola, que tem uma relação acirrada com a especulação imobiliária, e isso acontece aqui também, por conta do processo de demarcação de terras.”

Mas a Tenondé Porã foi escolhida por uma particularidade: entre seus líderes, está a índia Jerá Guarani, de 34 anos. “Queríamos ouvir, a partir da ótica da mulher indígena, como é ter uma uma mulher à frente. Tradicionalmente, ouvimos falar de caciques e pajés à frente, então queremos saber como é ter mulheres despontando”, complementa Nina.

Na oficina de turbante, foram levados em conta aspectos da rotina da aldeia. As educadoras ensinaram às índias, por exemplo, como fazer uma saia utilizando apenas um pedaço de tecido. A peça incluía um pequeno bolso na região da cintura, pensado para o armazenamento de sementes durante o processo de semeadura, frequentemente realizado pelas indígenas.

Era perceptível o interesse das mulheres Guarani Mbya em aprender as amarrações. “Eu tinha curiosidade de conhecer a cultura afro. A minha mãe é descendente de negros, então ela tem o cabelo crespo. Queria fazer nela os turbantes e trançados, por isso queria aprender”, conta a professora Aline Jaxuka, de 23 anos.

Para a também professora Priscila Para Poty, de 24 anos, a visita do Manifesto Crespo foi importante por conta das semelhanças entre as problemáticas vividas por mulheres negras e indígenas. “Aqui na aldeia, não são todas as guaranis que têm cabelo liso. [Tem gente com] cabelo crespo, mais enrolado. Essas mulheres, quando olham para outras com cabelo liso, querem ter aquele cabelo também”, relata.

+ sobre o tema

Luislinda Valois

Nascida no Estado da Bahia em 1942, Luislinda Dias...

Carol Dartora é eleita a primeira deputada federal negra do Paraná: ‘Resposta histórica’

A vereadora de Curitiba Carol Dartora (PT) foi eleita deputada federal...

SPM e Seppir entregam Prêmio Mulheres Negras Contam Sua História

Dez mulheres negras serão agraciadas com prêmios em dinheiro,...

Leci Brandão tem vida e obra celebrada em musical com direção de Luiz Antonio Pilar e texto de Leonardo Bruno

Nome incontornável da música brasileira, compositora e intérprete de...

para lembrar

A Consulesa Alexandra Loras convida para um Coaching de Empoderamento para Mulheres Negras

A Consulesa Alexandra Loras convida para um Coaching de...

Amazonas de Daomé: As mulheres mais temidas do mundo

Bravas guerreiras da África Ocidental repeliram com sucesso invasores...

Medo

Eles, os terroristas, estão nos vencendo! Por Sueli Carneiro O crescimento...
spot_imgspot_img

Negra Li mostra fantasia deslumbrante para desfile da Vai-Vai em SP: ‘Muita emoção’

A escola de samba Vai-Vai está de volta ao Grupo Especial para o Carnaval 2024, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste sábado...

Livro põe mulheres no século 20 de frente com questões do século 21

Vilma Piedade não gosta de ser chamada de ativista. Professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e uma das organizadoras do livro "Nós…...

“O Itamaraty me deu uma bofetada”, diz embaixadora Isabel Heyvaert

Com 47 anos dedicados à carreira diplomática, a embaixadora Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert não esconde a frustração. Ministra de segunda classe, ela se...
-+=