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‘Lugar de Negro’ mudou toda a maneira como se estuda racismo no Brasil

Obra de Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg, reeditada agora, consolida um movimento que emergiu na década de 1970

Capa de 'Lugar de Negro', de Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg - Mayara Ferrão/Companhia das Letras

Depois de quatro décadas de sua primeira publicação, o livro “Lugar de Negro”, escrito pela antropóloga Lélia Gonzalez e pelo sociólogo Carlos Hasenbalg, é reeditado.

Originalmente, a obra integrava a coleção Dois Pontos, da editora Marco Zero, dedicada a tratar de “temas polêmicos e atuais”, e sumarizava alguns aspectos significativos do debate sobre a questão racial num período que se estabelecia um novo paradigma de análise, atento às dimensões estruturais das desigualdades raciais.

No campo da luta antirracista, desde a década de 1970, um novo movimento negro emergia com características marcantes de ruptura com seus antecessores, especialmente na crítica ao mito da democracia racial e de reivindicações políticas institucionais.

Os autores eram nomes incontornáveis nessas discussões, cientistas sociais que atuavam na academia e nos movimentos sociais. Gonzalez foi antropóloga, filósofa e professora universitária —uma liderança influente do movimento negro brasileiro— com uma contribuição que se destacou pela originalidade em interpretar a formação sociocultural do país e pelo pioneirismo teórico no campo do feminismo negro.

Hasenbalg era um sociólogo argentino que construiu sua trajetória acadêmica no Brasil. Teve papel precursor na consolidação dos estudos sobre desigualdades e políticas raciais, empregando uma metodologia qualitativa, inovadora na época, em diálogo com as contribuições de intelectuais negras como Beatriz Nascimento.

O nome do livro alude à proposição, feita por Gonzalez, de reinterpretar a teoria do lugar natural do filósofo grego Aristóteles para conceituar o lugar de negro, segundo o qual em todas nossas formações econômicas se manteve uma divisão racial de determinação dos lugares sociais a serem ocupados por pessoas brancas e negras.

Lelia Gonzalez (Acervo do fotógrafo Januário Garcia)

A estas se reservam “senzalas, favelas, cortiços, porões, prisões e hospícios”, com condicionamentos psicológicos de subordinação, inculpação e medo.

No primeiro capítulo, “O Movimento Negro na Última Década”, Gonzalez estabelece uma narrativa em primeira pessoa ao estilo de uma conversa, na qual apresenta os efeitos do golpe militar de 1964 e a instauração de um novo modelo econômico em que grande parte da população negra vivenciou um quadro geral de empobrecimento.

Manifestantes em frente ao Theatro Municipal, em São Paulo, em ato contra o racismo que marcou a fundação do MNU (Movimento Negro Unificado), em 1978 – Jesus Carlos – 7.jul.1978/Imagens

Isso ao mesmo tempo em que, por meio da “pacificação” —ou repressão—, da sociedade civil, os conflitos foram suprimidos, inclusive a denúncia do racismo.

A segunda parte é dedicada especialmente às condições que tornaram possíveis a fundação do Movimento Negro Unificado, o MNU, um movimento de caráter nacional que defendeu como indissociáveis a raça e a classe, compreendendo sua atribuição enquanto sujeito nas lutas sociais do país e na redemocratização.

O segundo capítulo do livro, “Raça, Classe e Mobilidade”, e o terceiro, “O Negro na Publicidade”, são de autoria de Hasenbalg e seguem o formato tradicional de trabalhos acadêmicos.

No primeiro texto, ele analisa o racismo em termos de desigualdade e o modo como fixa a posição dos indivíduos na estrutura das classes sociais —isso somado ao papel da desigualdade regional do país, no qual os estados que, por razões históricas, concentravam a maior parte da população branca tendiam também a centralizar mais oportunidades econômicas e educacionais.

Sua proposição, que já aparecia em sua tese de doutorado, estava apoiada em estatísticas oficiais e desmontava o alicerce das abordagens dominantes da sociologia brasileira acerca das relações raciais, que não compreendiam “a possibilidade da coexistência entre racismo, industrialização e desenvolvimento do capitalismo”. No último capítulo, por fim, ele discute as implicações da publicidade para moldar determinadas representações sobre pessoas negras.

Numa apreciação crítica do livro, algumas questões se mantiveram atuais enquanto outras não. Além disso, existe uma diferença no tom e na abordagem dos autores, o que provoca, em alguns momentos, uma sensação de descompasso, indicando talvez uma desarmonia no conteúdo.

Mas, para além dessas pequenas observações, o livro continua sendo uma leitura recomendada para quem deseja iniciar conhecer o tema ou se aproximar da história do movimento negro brasileiro pela perspectiva de uma de suas lideranças

LUGAR DE NEGRO

  • Preço R$ 44,90 (144 págs.); R$ 29,90 (ebook)
  • Autor Carlos Hasenbalg e Lélia Gonzalez
  • Editora Zahar
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