sexta-feira, julho 1, 2022
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Mãe preta pode ser? Mulheres negras e maternidade

Débora Silva Maria, do Movimento Mães de Maio, há 10 anos organizadas, o movimento é uma das frentes mais fortes na luta contra o genocídio do povo negro no Brasil

Fonte: Revista Afirmativa

Peso e medida

Mãe preta, pode ser?

Dose de humanidade essa maternidade

Pra mãe preta é sempre uma batalha de vida

No sexo desejada, estuprada

No caminho uma gravidez abortada

Caso filho no mundo joga na roda

 Assegura o leite da brancada

Em tempos de agora

Mãe preta tem a sua humanidade conquistada?

Posta em risco e anulada

Quando esterilizam seu ventre, filho único

Ouro de Mina

A polícia assassina

Volta à estaca zero

Mãe do verbo presente

Insistente

Ele só tem 16 anos!

Artigo\Poesia: Emanuele Góes*

A maternidade como uma das dimensões da humanidade alcançada, as mulheres negras ainda não sabem o que é isso. Há muito tempo este texto passeia na minha cabeça, mas para escrevê-lo foi preciso sentir que era a hora, não sei se é a hora, mas agora faço.

Gravidez, esterilização, aborto, parto, morte materna e direitos reprodutivos. Juventude negra, mães de maio, violência policial, genocídio, mãe que não dorme e direitos humanos. Estes são alguns pontos que atingem a maternidade das mulheres negras.

As mulheres negras sob a ótica do racismo e do sexismo sempre foram vistas como um objeto sexualizado e estéril, vide ai o termo mulata, e quando mais velha era a mãe preta que cuidava dos filhos das pessoas brancas, neste caso maternidade transferida. A imagem das mulheres negras como mulata é de um objeto erótico que quase nunca vivencia a maternidade.

As mulheres negras fazem parte do imaginário da erotização e do sexo, sendo naturalizadas ou relegadas ao “mercado do sexo”, em contraposição às mulheres brancas que nesse mesmo imaginário, marcado por uma hierarquização racial e gênero, são pertencentes à “cultura do afetivo”, ao “mercado matrimonial”, ou seja, preferíveis para o casamento e uma união estável (Pacheco, 2013) e (Souzas e Alvarenga, 2007) e consequentemente a maternidade.

Torna-se mãe para as mulheres negras parece missão quase impossível, pois o racismo que hierarquiza a reprodução e a maternidade concedida só se for transferida – babas, mães ou amas de leite.

VIVENCIANDO A MATERNIDADE NA HIERARQUIZAÇÃO REPRODUTIVA

Os direitos reprodutivos para as mulheres negras é um horizonte que não conseguiremos alcançar, se não for por meio da justiça reprodutiva que amplia o olhar sobre os direitos humanos e sociais, para que possamos alcançar o ambiente da decisão e da autonomia, de não ter filhos, mas de ter também. Sempre tentaram nos levar a não-reprodução, visto a esterilização em massa que aconteceu na década de 80/90.

O percurso de uma gestação para as mulheres negras é carregado de violências institucionais, raciais e obstétricas, como no processo de não aceitação sobre a gravidez, “mas uma pessoa negra no mundo”, tudo é feito para a gestante negra desistir, não tem parto humanizado para que não é considerada humana.

As mulheres negras peregrinam na hora do parto, ficaram mais tempo em espera para serem atendidas, tem menos tempo de consulta, estão submetidas a procedimentos dolorosos sem analgesia, estão em maior risco de morte materna. São cerca de 60% das mulheres que morrem nesta situação.

Recordo aqui uma situação em que o Governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral (2007), que defendia a legalização do aborto como forma de prevenção e contenção da violência, por considerar que a fertilidade das mulheres das favelas cariocas as torna fábrica de produzir marginais, apresentando assim uma proposta de política eivada de ideologia eugenista destinada à interrupção do nascimento de seres humanos considerados potenciais marginais (Sueli Carneiro, 2011).

MÃE PRETA, MÃE DO VERBO PRESENTE

Para ilustrar sobre o que estou falando, apresento o filme Historias Cruzadas em que a personagem Aibileen Clark (Viola Davis, 2011), era uma mulher que vivia sozinha e que cuidava, educava e dedicava a sua maternidade para as crianças brancas nas casas que ela trabalhava, e o único filho dela havia sido assassinado ainda jovem.

As mãe que perdem seus filhos para o sistema racista que são assassinados diariamente pela polícia, a partir deste ponto em que não se tem mas o filho presente, “vivo para elas sempre”, vem a luta pela dignidade da pessoa – dela, do filho e da família, neste momento a história universal sobre ser mãe não cabe para as mães negras.

E agora essa mulher é uma pessoa adoecida, violentada, violada na sua suposta humanidade e precisa dar conta disso. O filme Lile e Eve (2014), com as atrizes Viola Davis e Jennifer Lopez apresenta para nós essa questão, a luta por justiça e o adoecimento das mulheres que a partir de agora seguem este tortuoso caminho.

Estima que mais de 42 mil adolescentes de 12 a 18 anos poderão ser vítimas de homicídio nos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes entre 2013 e 2019 (UNICEF). E dos 30.000 jovens vítimas de homicídios por ano, 77% são negros.

Paro por aqui. Escrevo este artigo com muito pesar na alma, tema difícil, os números saltam das estatísticas e vira cada uma e cada um de nós! Para tudo isso não há recomendações, conclusões e nem considerações somente resistência, luto que vira luta!

“– A gente combinamos de não morrer. – Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel” Conceição Evaristo (Olhos d’agua)

* Emanuelle Góes é enfermeira, blogueira, coordenadora de saúde do Odara Instituto da Mulher Negra, doutoranda em Saúde Pública ISC/UFBA

REFERENCIAS:

Pacheco, A. C. L. Mulher negra: Afetividade e solidão. Salvador: EdUFBA, 2013.

Souzas, R.; Alvarenga, A. T. DE. Direitos sexuais, direitos reprodutivos: concepções de mulheres negras e brancas sobre liberdade. Saúde e Sociedade, v. 16, n. 2, p. 125–132, 2007

Carneiro, Sueli. Racismo, Sexismo e Desigualdade No Brasil – Col. Consciência Em Debate, 2011.

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