sábado, novembro 27, 2021
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Maju Coutinho fala sobre saúde mental, fake news e maternidade: “Estamos enfrentando a pandemia da desinformação”

Maju Coutinho entra no ar da bancada do Jornal Hoje (JH), às 13h25 da tarde, mas sua jornada de trabalho começa bem antes: às 8h15 ela se divide entre maquiagem e reunião de pauta por videoconferência, depois faz os exercícios de fono para garantir a potência na voz durante os 85 minutos que passa ao vivo, checa as chamadas da programação e ainda grava sonoras no estúdio. “É muita ralação, não tem glamour. Não acho bom alimentar essa fantasia de que é tudo fácil, luxuoso e lindo quando na verdade é muito pé no chão e trabalho”, conta em entrevista à Vogue, sobre sua rotina.

Meditar duas vezes ao dia e deixar o celular em modo avião pós expediente estão entre os rituais de autocuidado que Maju incluiu em 2021 para manter a saúde mental após reportar notícias difíceis, como as de famílias que perderam mais de um parente em questão de dias para a Covid-19. “Não dá para ter a frieza de tratar a morte como simples números, mas também não posso sair chorando junto. Dar o tom na medida certa é sempre uma busca intensa e diária”, explica. “Precisamos cada vez mais respirar para não pirar. Aprendi, principalmente, que a ciência e o jornalismo profissional se fazem mais presentes do que nunca”, emenda.

Filha de professores e ativistas do movimento negro, Maju cresceu na Vila Matilde, zona leste de São Paulo, cercada por debates sobre racismo estrutural e identidade negra, o que foi fundamental para que ela se blindasse dos vários ataques preconceito que atravessaram a sua trajetória. “Tinha plena noção do que era ser negra desde pequena e das dores que isso implicava. Minha família me orientou bastante em relação aos meus direitos já que a cor mais escura de uma mulher negra é sempre mais animalizada e sofre mais preconceito”, pontua ao relembrar o caso de racismo que sofreu nas redes sociais em 2015 e que colocou a #SomosTodosMaju no topo dos trending topics do Twitter na época.

A jornalista, que começou sua trajetória na Rede Globo em 2007 como repórter de rua, ganhou destaque por sua maneira descontraída e humanizada de apresentar as previsões climáticas, linha que segue como sua marca registrada. Entre os vários feitos da carreira, Maju foi a primeira mulher negra a ocupar o time da bancada fixa do Jornal Nacional, em fevereiro de 2019, e, desde setembro de 2019, atua como âncora do Jornal Hoje, que completa 50 anos nesta quarta (21.04). Como é a sua relação com a superexposição nas redes sociais? Qual foi o maior aprendizado que a pandemia te trouxe? E a maior mentira que já contaram sobre você? Essas e outras 13 perguntas, Maria Júlia Coutinho responde à seguir:

Por ser um telejornal da tarde, o JH, que completa 50 anos nesta quarta (21.04), aproxima os telespectadores ao trazer uma curadoria das principais notícias do dia de um jeito mais leve. Acredito que a sua apresentação reforçou ainda mais esse aspecto. Em tempos de fake news, como você analisa a importância do jornalismo em 2021?

O cinquentenário do JH chega nesse momento histórico para a humanidade: temos uma crise econômica no Brasil e, além da pandemia do coronavírus, estamos enfrentando a pandemia da desinformação. Exercer o jornalismo profissional num veículo tão importante me dá um baita orgulho e responsabilidade.

Estou lendo A bailarina da morte: A gripe espanhola no Brasil (escrito por Heloisa Murgel Starling e Lilia Schwarcz), um livro sobre a gripe espanhola de 1918, que compara muito essa questão mostrando como os jornalistas foram fundamentais em informar os números da gripe e onde ela estava chegando. A negação da população é muito semelhante também. É uma coisa comum quando chegam pandemias: primeiro existe a negação e depois vem a hora de lidar com essa realidade. Acredito que só no futuro, quando olharmos para esse momento com uma certa distância, teremos a noção do que ele foi e significou. Ainda é muito difícil avaliar porque estamos no meio da turbulência, no meio do furacão.

Quais foram as notícias que mais mexeram com você este ano?

Fiquei bem emocionada também com a história da enfermeira da técnica da mãozinha, que criou uma luva com água quente para confortar pacientes com a Covid-19. Toda vez que vejo matérias de ideias de profissionais de saúde com soluções criativas no meio desse caos fico muito tocada. As que me deixam alegre, e com um pouco de inveja esperançosa, são as notícias internacionais dos nossos correspondentes entrando ao vivo falando que já tomaram vacina, estão indo para pubs, e ao fundo da reportagem vemos pessoas sentadas ao ar livre. Espero que a gente tenha esse momento também aqui no Brasil, em breve.

Lembro que depois da sua primeira aparição na bancada do JH, em 2017, você foi elogiada pelo William Bonner e respondeu com um “Tem coisa ainda para ajustar mas a gente vai praticando”. Você segue com esse mantra diário?

Nossa, totalmente, sempre tem algo para melhorar. Consigo ver a evolução do rodízio de plantonista para hoje como titular. É um caminho eterno e tenho essa busca constante em mim. Meu sonho é tentar ser o mais coloquial possível mesmo falando de STF, mas é uma caminhada. Comecei tateando esse espaço até conseguir imprimir a minha personalidade, e tudo isso vem carregado de certa ansiedade. Hoje, me sinto mais confortável e calma.

Qual foi o maior aprendizado que a pandemia te trouxe?

Foram tantos! Vivemos um momento de revisão total em que precisamos cada vez mais respirar para não pirar. Aprendi, principalmente, que a ciência e o jornalismo profissional se fazem mais presentes do que nunca.

E o maior desafio?

Não dá para ter a frieza de tratar a morte como simples números, mas também não posso sair chorando junto com cada família que conta sua história de luta e dor. Dar o tom na medida certa é sempre uma busca intensa e diária. Completamos um ano de pandemia num cenário ainda pior do que em 2020. E aí começa a dar aquela canseira de precisar tirar energia, mesmo sem saber de onde, para continuar noticiando. É preciso equilibrar vários pratos ao mesmo tempo.

O que tem funcionado para você nessa tentativa de equilíbrio? Você mudou seus rituais de autocuidado?

Acredito muito em meditação duas vezes ao dia (pela manhã e pela noite) e em sessões regulares de terapia, sem elas enlouqueço. Assim que chego em casa, mudo meu celular para o modo avião. Quando não tem restrição severa de viagem, eu e meu marido vamos sozinhos para a casa de praia dos meus pais para aproveitar o quintal e tomar um Sol ali mesmo, já que não tenho isso em São Paulo. Estar em contato com a natureza é o que eu faço para poder aguentar o tranco da rotina.

Seus pais foram líderes do movimento negro nos anos 1970. Como isso te preparou para períodos de racismo como quando a #SomosTodosMaju, tomou conta do Brasil, em 2015?

Essa criação foi extremamente importante nesse momento, pois eu não fui pega de surpresa e sabia como me defender. Tinha plena noção do que era ser negra desde pequena e das dores que isso implicava. Claro que passei por sofrimentos anteriores a esse de 2015, como xingamentos por conta do meu cabelo, por exemplo. Mas minha família me orientou bastante em relação aos meus direitos já que a cor mais escura de uma mulher negra é sempre mais animalizada e sofre mais preconceito.

Lembro de uma conversa que tive com a minha mãe em que ela comentou com uma amiga, logo depois que eu nasci, sobre como estava preocupada em como seria colocar uma mulher negra no mundo. Ela tinha plena noção de que seria difícil para mim. Ao mesmo tempo que é uma constatação dura, ter essa noção vem me ajudado a caminhar nessa estrada nada fácil.

Falando em caminhada, o que você enxerga de avanços de 2015 para cá em termos de representatividade?

Temos vários avanços e 2020 foi um ano marcante que deu um choque na sociedade com os protestos de antirracismo como o do George Floyd, nos Estados Unidos, e o do João Alberto aqui no Brasil. Hoje, eu vejo as telas das tevês um pouco mais escuras. Não tão escura quanto eu acho que deveria estar, mas é um avanço muito grande se comparado a quando eu comecei no jornalismo. Agora, tenho várias colegas com o cabelo parecido com o meu, por exemplo. Já vejo mais cores. Acredito que a nossa presença deva estar em todos os lugares, precisamos de mais representação na vida real. É preciso ocupar espaços com permanência e ter diversidade em cargos de chefia e formar talentos ao mesmo tempo. Ser antirracista é agir.

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Maju Coutinho (Foto: Globo/ Fabio Rocha)

Vejo que você compartilha semanalmente fotos de crianças negras que se inspiram no seu trabalho. Tem noção do quanto você inspira outras crianças a se amarem do jeito que são ao aparecer na TV aberta todos os dias?

Eu recebo tantas fotos, áudios e mensagens nesse sentido, é muito forte e gratificante. É uma explosão de fofura! Eu não tive isso. Claro, Gloria Maria era a minha referência desde a infância, e sei que ela apresentou o RJTV, mas como eu sou de São Paulo, não a via diariamente. Então, é difícil cair a ficha quando vejo o volume de depoimentos que recebo. Acredito que o sonho é o primeiro passo para abrir essa janela que faz com que mais crianças se vejam na TV em múltiplos espaços e que isso as estimulem a conquistarem o um futuro brilhante.

E qual é o seu sonho?

O meu sonho é exercer essa profissão de comunicar da melhor forma possível e não me render à vaidade. Tenho plena noção de que eu não sou esse posto, eu estou nele. Não quero ficar apegada a cargos, acho que isso só nos adoece.

Como é a sua relação com a superexposição nas redes sociais?

Tive duas fases. No começo, eu interagia muito mais, mas quando cheguei num nível de exposição muito grande, com o aumento da polarização no país e essa pandemia assolando a gente, eu fiquei mais discreta. São muitos os ataques e eu tomo cuidado de não responder nem dar palanque para haters. Não tenho energia para isso. Agora, adoro uma crítica construtiva!  Sempre leio os comentários, pesquiso e respondo quando possível.

Você não fala muito da sua vida pessoal nas redes, como chegou nessa escolha?

Quero me distanciar dessa glamourização em torno do meu trabalho na TV. Tem toda essa idealização, um arquétipo de fama e de camarim exclusivo, de que eu vivo num castelo e janto com artistas o tempo todo, por exemplo. Mesmo sem colocar nada sobre minha vida pessoal nas redes, as pessoas já imaginam milhares de coisas que não existem. É ralação, não tem glamour. Eu durmo cedo, tenho que ler jornal todos os dias pela manhã antes do expediente e estou cansada na maioria do tempo. Não acho bom alimentar essa fantasia de que é tudo fácil, luxuoso e lindo quando na verdade é muito pé no chão e trabalho.

Como você costuma montar e eleger os seus figurinos? Mudou algo do início de carreira para cá?

As figurinistas são quase as mesmas desde o meu início de carreira e o legal é que o nosso gosto casou muito. Uso vários looks de marcas do Bom Retiro e um ou outro de grife — é difícil emprestarem produção. No geral, gosto de vestidos tubinho e de conjuntos coloridos. Sei que tenho um quadril largo, então prefiro calças pantalonas para alongar a perna. Não tem muito segredo nem exigência, é bastante troca.

Como você definiria o seu estilo?

Sou mais clássica e minimalista. O importante é estar confortável para ficar muito tempo no ar com uma peça que não amasse. Preciso ser elegante e prática ao mesmo tempo. Minha moda precisa ser funcional.

Você já deu algumas declarações sobre não querer ter filhos, como é a sua relação com esse tema em 2021?

Acho a maternidade uma coisa maravilhosa! No momento, não penso nisso, mas não estou fechada para o assunto. Acredito que, às vezes, as pessoas interpretem mal o que eu falo. Existem mulheres que falam que precisam de um filho para completar a existência — e ok, opção delas — eu só não compartilho desse sentimento. Se eu não gestar, posso adotar, como fizeram Gloria Maria e Astrid Fontenelle. Existem várias maneiras de ser mãe. E acho que é importante você saber silenciar o externo, colocar todo mundo no mute, para tomar uma decisão importante e que seja verdadeira para você e não uma cumpridora de tabela do que a sociedade acha.

Qual a maior mentira que já contaram sobre você?

Nossa, são tantas. A história da praia, por exemplo, eu dou risada. Tem uma foto de alguns anos que fica rodando. Sites de fofoca que criam manchetes tão doentias e distorcidas são os que me deixam mais abismada. Já disseram que eu quebrei o isolamento, por exemplo, quando eu tomo cuidado extremo com isso. Mas é do jogo, por isso não fico tão magoada. Agora, quando chega num ponto de ofensas e ataques racistas, eu vou pela lei e denuncio na hora. A verdade sempre aparece.

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