Mandaram ficar ‘quietinha’, mas ela virou a deputada mais votada no ES

Camila Valadão foi eleita para ocupar cargo na assembleia legislativa - Imagem: Assessoria de Comunicação

Aos 37 anos, depois de sofrer derrotas nas urnas e violência de gênero, a assistente social Camila Valadão (PSOL) alcançou neste domingo (2) o posto de mulher mais votada para deputada estadual na história do Espírito Santo.

Foram 52.221 votos para uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado (Ales). O recorde anterior pertencia a Sueli Vidigal (PDT), que foi eleita em 2002 com 36.500 votos.

Na soma total, Valadão foi a quarta mais votada no Espírito Santo, atrás de João Coser (PT), com 58 mil, Capitão Assumção (PL), que obteve 98,6 mil e Sérgio Meneguelli (Republicanos), eleito com 138 mil votos.

Esse será o primeiro mandato de Camila na Ales e ela tornou-se a primeira deputada estadual eleita na história do PSOL.

Trajetória começou há 8 anos

A vida política de Camila Valadão começou em 2014, quando ela foi candidata ao governo do estado. Naquele pleito, ela perdeu no primeiro turno para Paulo Hartung (MDB).

Na sequência, Valadão concorreu ao cargo de vereadora por Vitória em 2016. Ela foi a quinta mais votada no pleito, mas o PSOL não atingiu o quociente eleitoral e ficou sem uma cadeira na Câmara Municipal.

A terceira disputa da assistente social foi em 2018, quando se candidatou para a Ales pela primeira vez. Recebeu 16.829 votos. Mesmo sendo bem votada, o partido não conseguiu fazer uma cadeira na Assembleia.

Em 2020, mais uma vez, Camila disputou uma vaga na Câmara de Vitória. Dessa vez ela foi eleita com 5.625 votos, se tornando a primeira mulher negra a ser eleita na capital capixaba.

Na Câmara de Vitória, Valadão denunciou um caso de violência política de gênero — quando ofensas, ameaças ou comentários negativos estão relacionados ao gênero da vítima e acontecem em um ambiente parlamentar — durante sessão ordinária. Em março deste ano, um vereador mandou que ela calasse a boca e ficasse quietinha.

A ofensa ocorreu depois que pediu para o colega limpar os papéis que rasgou durante um discurso. “Você não espera nada; você cala sua boca aí porque amanhã isso vai sair nos jornais”, disse o parlamentar para a colega, alegando que Valadão estaria interrompendo sua fala.

“Meu caso não é isolado, o que estou passando atinge milhares de outras mulheres em vários locais do Brasil. É o meu corpo que incomoda. Violência política de gênero é um problema sistemático”, disse à época.

Antes desse episódio, o parlamentar já havia acusado Camila de não estar com “roupas apropriadas para a Câmara”.

Eleita agora para a Assembleia Legislativa, Camila lembrou as violências sofridas. “Para quem é mulher e é questionada pela roupa, que é questionada em sua vida, moral e ética, sua capacidade, ou mesma tentada silenciar, como já fui muitas vezes neste plenário, nós sabemos os desafios de estar no mundo político”, disse em vídeo compartilhado nas redes sociais.

Mandato feminista, com mais creches

Para a disputa na Assembleia, Camila Valadão apresentou mais de 400 propostas. Entre os temas de destaque, Valadão quer fazer um mandato feminista, que coloque em pauta as políticas públicas para as mulheres.

Outros pontos que a agora deputada quer levar para a Ales são: criação de uma Frente Parlamentar LGBTQIA+, gratuidade do transporte público para idosos, ampliação de maternidades e creches, melhoria na habitação, erradicação do analfabetismo no estado e combate à violência policial contra a população negra.

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