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Maria da Conceição Evaristo, a voz da mulher negra na literatura

Educadora e escritora, ela participa da Flip nesta quinta-feira para discutir o direito à escrita e à leitura das populações periféricas

Por Karla Dunder, do R7

A escritora e educadora Maria Conceição Evaristo, que participa da Flip Rafael Arbex/Estadão Conteúdo

Educadora e escritora, Maria da Conceição Evaristo é um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea. Uma mulher negra com uma trajetória marcada por muitas lutas e que usa a sua escrita como um ato político. Conceição participa da Flip (Festa Literária de Paraty) na mesa Escrevivências e andanças: prazer em ler, direito a escrever, na tarde desta quinta-feira (11).

A mesa conta também com a presença de Jessé Andarilho e Claudileude Silva. A mediação é de Angela Dannemann. A proposta é discutir o direito à escrita. Mulheres, negras e negros, e as populações periféricas não tiveram, muitas vezes, acesso à leitura e a oportunidade de contar sua própria história. A ideia é aproximar essas pessoas da leitura e da escrita.

“Essa mesa discute a apropriação ao direito da escrita e da literatura pelas classes mais populares e também oferece um entendimento mais democrático da leitura”, explica Conceição.

E quem é Conceição Evaristo?

Uma das principais vozes negras na literatura contemporânea, Conceição nasceu em novembro de 1946 em uma família humilde, a segunda de 9 irmãos. Foi a primeira de sua casa a conseguir um diploma universitário.

Filha de lavadeira, cresceu na periferia de Belo Horizonte. Aos sete anos foi morar com uma tia que não tinha filhos, teve oportunidade de estudar, mas mesmo assim, “os períodos de estudo foram entremeados com o trabalho de babá, muitas vezes, trocava a limpeza da casa por livros”, conta. “Em dado momento, estudava à noite, limpava casa de manhã e fazia estágio à tarde”.

Também ajudava a mãe e a tia a lavar e a entregar as trouxas de roupas. Olhava crianças da vizinhança, tudo que pudesse render um troco, mas sem deixar os estudos de lado. Ao terminar o antigo primário, ganhou o primeiro prêmio de literatura com a redação: “Por que me orgulho de ser brasileira”.

Nos anos 70, se mudou para o Rio de Janeiro, onde passou em um concurso. “Trabalhei com o ensino fundamental, fiz mestrado e doutorado, mas só comecei a escrever nos anos 90”.

Uma referência foi a leitura do diário Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Também uma mulher negra, nascida na favela e que enfrentou adversidades e a fome. “Esse livro teve um impacto sobre a minha família, líamos juntas todos os dias à tarde, a semelhança com a nossa vida era grande, passamos pelas mesmas dificuldades, minha mãe escreveu um diário, mas não me deixou publicá-lo”.

“O que me aproxima de Carolina de Jesus é que somos mulheres oriundas de classes popular com um histórico de não pertencer a camada letrada, mas assumi a escrita, ela também me pertence”, diz. “Carolina foi uma mulher muito corajosa que reivindicou para si o que o entorno negava”.

Em seus livros, Conceição explora o universo, toda a complexidade e a humanidade da mulher negra. Escritora versátil, autora de romances, contos e poemas, com textos publicados no exterior. Entre seus livros, destaque para Ponciá Vicêncio (2003) e Becos da Memória (2006).

A escritora também será homenageada como Personalidade Literária do Ano na edição deste ano do Prêmio Jabuti.

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