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Morte de Malangatana é “uma grande perda”

 

“É uma notícia muito, muito triste”, dizem os amigos sobre a morte do pintor moçambicano Malangatana, que representa “uma perda muito grande para o mundo lusófono”.

A morte do pintor moçambicano Malangatana representa “uma perda muito grande para o mundo lusófono”, disse o secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle.

Para o governante, Malangatana era não só “uma figura universal na área das artes, com uma obra muito vasta”, mas também um “grande homem e um resistente anti-colonial”.

Também o governo moçambicano recebeu com “profunda tristeza” e “surpresa” a notícia, apesar de ter tido conhecimento da deterioração do estado de saúde do artista ontem, terça-feira, através do embaixador de Moçambique em Portugal.

“Estamos profundamente consternados com o desaparecimento físico do mestre Malangatana, um dos precursores das artes e cultura em Moçambique”, disse o ministro moçambicano da Cultura, Armando Artur.

Através das artes, salientou, Malangatana “contribuiu sobremaneira para a contestação à presença colonial em Moçambique, para a libertação de Moçambique e para a construção do país de hoje e do futuro”.

O secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Domingos Simões Pereira, considera que “esta perda é irreparável”.

“É uma grande perda. Para o mundo. Malangatana conquistou essa dimensão. Ultrapassou as fronteiras de Moçambique e de África”, sublinhou, lembrando que o pintor era uma das pessoas “mais carismáticas” de Moçambique que “rapidamente se transformou numa verdadeira lenda viva”.

 

Para o escritor moçambicano Mia Couto, “é uma notícia muito, muito triste. Moçambique teve em Malangatana uma espécie de embaixador permanente da cultura pela projecção que deu ao país. Moçambique é hoje mais e melhor conhecido em grande parte pela obra do Malangatana”.

Ele afirmou o princípio de uma cultura sem fronteiras, com dignidade e sem agressões por outras raças e culturas. “Entendia que as culturas eram mulatas. É um enorme vazio a sua morte, mas deixa um grande legado”, acrescentou.

O pintor José de Guimarães confessa a sua admiração por Malangatana, um artista que considerava “muito genuíno” num trabalho que “reflectia as manifestações próprias das culturas tribais africanas”.

A crítica de arte e directora do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, Isabel Carlos, explica que a obra de Malangatana é marcada por “telas em que o colectivo e as multidões são representadas”, com rostos que são máscaras.

“A obra tem uma identidade muito forte. Quando olhamos para uma obra do Malangatana, imediatamente dizemos que é Malangatana. Tem uma autoria fortíssima”, sublinhou.

A obra do artista plástico Malangatana, que inclui pintura, desenho, escultura, está representada em várias colecções públicas e privadas, incluindo a do Centro de Arte Moderna, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, que possui cinco obras do pintor moçambicano.

Neste momento, é possível ver obras de Malangatana na Casa da Cerca, em Almada, onde está patente uma exposição de desenhos e esculturas, e no Mercado de Santa Clara, na exposição da colecção de obras africanas de Pancho Guedes.

Malangatana

Nasceu em Matalana, em 1936. Estudou na Escola da Missão Suiça de Matalana e na Escola da Missão Católica de Ntsindya, em Bulaze. Depois de obter o diploma da 3ª classe rudimentar, vai para Lourenço Marques (Maputo). Em 1958 frequentou o Núcleo de Arte onde conhece o pintor Zé Júlio, que o apoia. Em 1961 efectou a sua primeira exposição individual. Em 1971 foi bolseiro da Gulbekian em gravura e cerâmica. Recebe a Medalha Nachingwea pela contribuição dada à cultura Moçambicana. Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Algumas Exposições Individuais
1961 – Edifício das Associações Económicas, Lourenço Marques.
1985 – Atelier de António Inverno, Lisboa. Desenho na Galeria Almadanada, Almada.
1986 – II Bienal de Havana. Exposição retrospectiva, Museu Nacional de Arte – 25 anos do artista/50 anos de idade, Maputo. Exposição retrospectiva, Leipzig, Chiverine e Berlim.
1987 – Exposição retrospectiva, Sófia. Exposição retrospectiva, Palais Palphy e AAIC, Viena.
1989 – Grenwich Citizens Gallery, Londres. Exposição retrospectiva, Sociedade Nacional de Belas- Artes, Lisboa. Worlds Maaimat 90, Jaensun, Finlândia.

Algumas Exposições Colectivas
1961 – “Imagination 61”, Universidade do Cabo, África do Sul.
1985 – “10º Aniversário da República Popular de Moçambique”, Casa dos Bicos, Beira e Núcleo de Arte, Maputo. “Artistas do Mundo contra o Apartheid”, Roissy-Ch. de Gaule e La Maison de L’Etranger, Marselha. “Hommage aux Femmes”, Berlim.
1986 – Semana de Moçambique, Roma. Exposição colectiva de Paço D’Arcos.
1987 – Semana Cultural de Moçambique, Estocolmo.
1989 – Aniversário da OUA, Maputo. Aniversário da ONJ, Maputo. 5º Congresso do Partido Frelimo, Maputo. “Amor e Arte”, Maputo. “Encontro de Escritores de Língua Portuguesa”.

Prémios
1959 – Menção honrosa no I Concurso de Artes Plásticas de Moçambique, Associação dos Naturais de Moçambique, com “Mulher na Cidade”. 1962 – 1º Prémio de Pintura “Comemorações de Lourenço Marques”, com “A Humaninade”. 1968 – 2º Prémio de Pintura (ex-aequo” “Comemorações do 24 de Julho”, com “Última Ceia”. 1970 – Diploma e Medalha de Prata como Membro “Honoris Causa” da Academia Tomase Campanella de Artes e Ciência. 1971 – Bolseiro em Lisboa da Fundação Calouste Gulbenkian, em cerâmica e gravura. 1982 – Artista convidado para “Artistas do Mundo contra o Apartheid”, das Nações Unidas. 1984 – Medalha Nachingwea, pela contribuição dada à Cultura Moçambicana. 1985 – Artista convidado para presidir ao júri da National Annual Art Exhibition os Zimbabwe. 1989 – Prémio de Artes Plásticas atribuído pela secção Portuguesa da Assocition International des Critiques d’Art (AICA-SEC).

Museus e Colecções
Está representado em museus, galerias e colecções particulares em todo o Mundo. As suas obras estão presentes no M’Bari de Oshogbo, Nigéria, no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa, no Museu Nacional de Luanda, na National Gallery of Comtamporany Art de Nova Deli, na National Art Gallery de Harare, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, na colecção do Partido Comunista Português, no Museu Nacional de Arte de Moçambique e em inúmeros países, de Cabo Verde à Nigéria, da Bulgária à Suíça, dos Estados Unidos ao Uruguai, Na Índia e no Paquistão.

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