Mulheres

As brasileiras ocuparam as ruas e as redes sociais para garantir direitos e lutar pelo fim do assédio sexual e da intolerância. Por isso, receberam a homenagem “Brasileiros do Ano”

Camila Brandalise e Débora Crivellaro, do ISTOÉ

Ao final de uma palestra sobre a campanha “Chega de Fiu Fiu”, que combate o assédio sexual em espaços públicos, a criadora do projeto, Juliana de Faria, 30 anos, abriu a rodada de perguntas.

Eis que uma mãozinha se levanta. Era uma menina de 9 anos que, solenemente, sentenciou: “Eu só queria dizer que não importa a roupa que a mulher está ou onde ela está. Assédio é errado.”

Emocionada, a ativista se conteve para não chorar diante da plateia paulistana. “Eu mesma só fui aprender aos 27 anos o que aquela garota já sabia aos 9”, diz Juliana, fundadora da ONG Thing Olga e à frente do movimento #meuprimeiroassedio, que sacudiu as redes sociais neste ano com depoimentos de quase 100 mil mulheres falando sobre abusos sofridos.

Este fervilhante 2015 ficará marcado pelas belas imagens das brasileiras, de todas as idades, tomando as ruas do País e lutando por seus direitos.

O movimento eclodiu em outubro, com a campanha sobre o primeiro assédio, e ganhou corpo depois que o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ameaçou dificultar o acesso ao aborto em casos de estupro.

O “Fora Cunha” na voz feminina foi o grito mais contundente e corajoso contra o deputado. Por esse protagonismo, que colocou a discussão feminista no cotidiano das escolas, das famílias e no ambiente de trabalho, ISTOÉ escolheu homenagear a mulher na tradicional premiação “Brasileiro do Ano”.

Assim, de forma genérica, para contemplar desde as estudantes que criaram coletivos feministas nas escolas, passando pelas ativistas das redes sociais às veteranas que, desde meados do século passado, abriram caminho para as mulheres terem seus direitos assegurados.

E também aquelas que foram às passeatas ou as que compartilharam suas histórias. O avanço é de todas. Juliana de Faria, o rosto que as representa nesta reportagem, não foi escolhida à toa.

Na vanguarda com seu coletivo Think Olga, um projeto que cria conteúdo feito para, por e sobre mulheres, ela está por trás da maioria das ações que culminaram neste 2015 tão feminino.

Apesar do movimento ter ganhado visibilidade com uma roupagem aparentemente diferente, muitas ativistas refutam chamá-lo de novo. “Não gosto dessa ideia”, diz Juliana. “Tivemos conquistas importantes no passado, um punhado de portas foram abertas para que eu pudesse criar uma campanha de hashtag no Twitter e ser bem-sucedida, mas as lutas ainda são as mesmas: mercado de trabalho, violência doméstica, aborto, racismo.”

Como explica a historiadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em história do feminismo Margareth Rago, as ações de 2015 são fruto de um movimento de quase 200 anos, que começou no século XIX. “Desde então, só cresceu.”

Nesta atual reação feminina, as mulheres negras assumiram um protagonismo próprio. “Tivemos um ano importante, com a 1ª Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, que reuniu 50 mil pessoas, e nossa organização nas manifestações. Ocupamos espaços, mas precisamos ir mais longe”, diz Djamila Ribeiro, mestre em filosofia política e feminista negra. Mas na mesma medida que houve essa insurgência, a opressão aumentou. Ataques racistas contra personalidades como as atrizes Thaís Araújo, Sheron Menezes e Cris Vianna e a jornalista Maria Júlia Coutinho ficaram em evidência nas redes sociais. “É lamentável que isso aconteça, mas dá visibilidade para um problema que muita gente finge não existir”, afirma Djamila.

A campanha #meuprimeiroassedio suscitou uma discussão entre aqueles que ainda não haviam entendido o limite entre um gracejo, um elogio, uma cantada e o assédio propriamente dito. Juliana Faria é taxativa: “O limite é o consentimento”, diz. “Se houver consentimento, ótimo. Sem isso, até um ‘oi linda’ pode dar medo.” Os números de violência sexual ajudam a explicar esse temor.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 1 em cada 5 mulheres será vítima de estupro ou tentativa de estupro ao longo de sua vida. “Na questão do assédio, nós temos uma experiência completamente diferente da dos homens quando pensamos na forma de desfrutar a cidade, a rua. Andamos de cabeça baixa, temos medo, mudamos de calçada, fazemos o caminho mais longo, pensamos duas vezes nas roupas que vamos usar.”

Com a força mostrada em 2015, o movimento está confiante para os próximos anos. Duas das pautas mais urgentes são a descriminalização do aborto e o combate ao feminicídio. Juliana, que trabalha ao lado de Maira Liguori, Nana Lima e Luíse Bello no Think Olga, está otimista. Seus olhos brilham quando fala das adolescentes que criaram coletivos em suas escolas e foram para as ruas. “Elas estão mostrando que a próxima geração não será tímida. O futuro será lindo. E não vejo a hora de vê-las liderando.”

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