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Murucutu mantinha 50 escravos em famílias

Em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que pretendia libertar todos os escravos, cuja força de trabalho tanto enriqueceu senhores de engenho e a elite cafeeira. Desde 1834 já era proibido o tráfico negreiro transatlântico entre o Grão-Pará e a África. Em 1850, esse tráfico passou a ser proibido entre o Brasil como um todo e a África.

Uma exceção, conhecida e estudada em pesquisas desenvolvidas pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, é o Engenho Murucutu, localizado na cidade de Belém. Mais de 30 anos após a proibição do tráfico negreiro no Grão-Pará, ele ainda mantinha uma média de 50 escravos.

É o que apontou estudo da bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica do Museu Goeldi, Juliana Brandão, estudante de História da Universidade Federal do Pará (UFPA). Orientada pelo arqueólogo pesquisador do MPEG, Fernando Marques, ela desenvolveu a pesquisa “Força negra a serviço do engenho: o uso de escravos africanos no Engenho Murutucu no século XIX”.

O estudo utilizou parte da documentação existente no Cartório Chermont, em Belém, que inclui escrituras e outros documentos sobre o Murucutu, e duas fotografias do Engenho de autoria do italiano Filippo Augusto Fidanza – um dos mais importantes fotógrafos em atividade no norte do Brasil no fim do século XIX e princípios do século XX.

As imagens pertencem ao acervo da Biblioteca Nacional e os dados referem-se ao período compreendido entre os anos de 1869 e 1876. Na pesquisa foi também estudado o material arqueológico proveniente de escavações feitas no Murucutu. A investigação também analisou os relatos de viajantes, cuja riqueza descritiva apresenta importantes aspectos culturais, econômicos e sociais.

Em estudos já realizados no Murucutu foram constatadas e mapeadas algumas construções como a capela, a casa grande, os edifícios destinados à manufatura que compunham a “casa do engenho”, o forno e a base da chaminé, além das obras hidráulicas – barragem, canal e calha – do sistema motriz, que funcionou com a energia das marés. Prospecções geofísicas do subsolo realizadas em pesquisas desenvolvidas por Fernando Marques, em 2002, e Marina Melo, em 2005, apontaram também indícios de uma estrutura localizada nos fundos do terreno do engenho, correspondente presumivelmente ao prédio da senzala. De fato, em uma das fotos de Fidanza é possível identificar existência de um prédio avarandado, comparável às senzalas, do tipo pavilhão, típicas da região nordeste do país.

Com a documentação encontrada no Cartório Chermont, se chegou a dados detalhados dos escravos, como idade, sexo, cor e ‘número de matricula’, além de seus nomes, o que ajudou também a identificar os laços de parentesco dentro do engenho

A pesquisa constatou que o Murucutu, entre os anos de 1869 e 1876, apresentou, em média, 50 escravos, cuja maioria era do sexo feminino, com quantidade significativa de crianças e jovens entre 13 e 26 anos.

Juliana Brandão explica que “os escravos ‘pretos’ ou ‘carafuzes’, que trabalhavam no Murucutu, estavam organizados em famílias. No entanto, não se tratavam de famílias nucleares, com presença de pai e mãe, tendo em vista que nas escrituras constam apenas os nomes das mães acompanhados dos de seus filhos”.

O fato da maioria da comunidade escrava do engenho ser constituída por mulheres é entendido por Juliana como um indício de que “as relações estabelecidas não eram monogâmicas e que poderia haver relações entre membros de diferentes famílias, podendo, consequentemente, existir entre eles tios e primos de segundo grau”.

A própria documentação de cartório aponta para o fato de que os escravos do Murucutu estavam organizados em famílias, o que levou a bolsista a supor que o “dono dos escravos do Engenho reconhecia essa estrutura familiar escrava, mesmo diante da falta de conhecimento acerca da figura paterna”. Dessas famílias, três possuíam três gerações, mostrando, possivelmente, a estabilidade que os escravos poderiam usufruir quando pertencentes a uma família.

O fato do Engenho Murucutu apresentar, entre os anos de 1869 e 1876, em média 50 escravos, comprova o elevado valor de um cativo e as dificuldades de aquisição na região Amazônica após a proibição do tráfico negreiro a partir de 1834.

Uma vez que o Murucutu tratava-se de uma propriedade de grandes posses, não é de estranhar que os cativos tenham estabelecido laços familiares, pois eles não conviviam com a possibilidade da propriedade entrar numa crise repentina e, por isso, ter de ser vendidos, conforme acontecia em posses menores.

Para Juliana, “havia um interesse tanto por parte dos senhores como dos escravos em estabelecer matrimônios entre os últimos”. (Agência Museu Goeldi)

Fonte: Diário do Pará

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