Myriam Taylor quer “ocupar” a televisão portuguesa com diversidade

Quando nos sentamos à mesa com amigos acontecem, por vezes, revelações inesperadas e passamos a olhá-los de uma forma diferente. E se fizéssemos o mesmo com os preconceitos? É o que nos propõe Myriam Taylor, a anfitriã da série Jantar Indiscreto, que começa a ser servida esta quinta-feira, 16 de Setembro, nos serões da RTP2.

Um cigano “normalmente usa gel no cabelo”, é “vaidoso” e tem vocação para “vender”. As afirmações abrem o primeiro Jantar Indiscreto, uma série de seis episódios cujo menu se estreia esta semana com a comunidade cigana. Na primeira parte, três cidadãos escolhidos aleatoriamente partilham as suas ideias pré-concebidas sobre os ciganos e são, depois, convidados a tomar um café com algumas “vítimas” dos seus preconceitos. Por fim, chega a grande refeição, que senta à mesa quatro convidados para um jantar sem tabus à volta do tema. 

Estes jantares indiscretos são conduzidos pela activista e empresária Myriam Taylor, que vê no panorama da televisão portuguesa “a mesma linha do sistema” que se recusa em dar visibilidade à diversidade do que é ser português. “O sistema privilegia aqueles que são de determinada maneira. E este passou a ser o modelo a seguir. E as pessoas acreditam que têm de se mascarar para poder ocupar determinado espaço”, argumenta Myriam Taylor, em conversa com o P3.

É, por isso, necessário desconstruir e reeducar as pessoas sobre vários conceitos, a começar pelo que é ser português. “O imaginário colectivo é completamente falacioso e redutor. E o grave é que, de forma sistemática, determinados grupos são sempre retratados de forma errada.”

O programa que se estreia esta quinta-feira, 16 de Setembro, na RTP2, a partir das 23h, pretende ser um ponto de partida para este encontro de diversidade e representatividade na televisão portuguesa. “Aquilo que nós hoje entendemos é que mais pessoas estão a aprender que têm voz e querem ocupar estes espaços. E ao fazê-lo contribuem para que a construção do imaginário colectivo seja mais aproximada da realidade.”

“Este país também é dos ciganos” 

Os convidados para o jantar desta semana são os ciganos Carlos Miguel, secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Maria Gil, actriz e activista, e Bruno Gonçalves, vice-presidente da associação Letras Nómadas. A eles juntam-se Rogério Roque Amaro, economista e professor no ISCTE, com um longo trabalho junto da comunidade cigana, e Myriam Taylor, activista e anfitriã do programa.

A refeição decorre com partilhas mais ou menos indiscretas, como aquele momento em que Maria Gil se sente na obrigação de revelar que, ainda hoje, sente dificuldades no acesso à habitação assim que os senhorios “descobrem” que é cigana. Ou o outro em que Bruno Gonçalves admite, reticentemente, que o que estes programas de televisão podem fazer é apenas “minimizar” o preconceito que existe em relação à comunidade cigana. Logo a seguir justifica a hesitação: “É feio dizer ‘minimizar’ porque este país é meu.” 

Todos à mesa concordam que tem havido progressos: se este jantar tivesse acontecido há dez anos, o mais provável seria que os convidados fossem académicos a falar sobre a comunidade cigana. Carlos Miguel reconhece o caminho percorrido desde então, e continua a destacar o encontro entre pessoas diversas como a melhor forma para combater o preconceito. 

Antes da sobremesa, há ainda tempo para desconstruir mitos. Rogério Roque Amaro desafia a que se faça um estudo sobre os impactos económicos positivos que o uso do Rendimento Social de Inserção (RSI) para integrar a comunidade cigana tiveram no país. Recorde-se que, apesar de este mecanismo ser muitas vezes negativamente associado aos ciganos, dos mais de 200 mil beneficiários do RSI em Portugal, só 3,8% são ciganos. 

Por outro lado, os ganhos com a comunidade são “espectaculares”, sublinha o economista. Muitos ciganos começaram a ser registados como cidadãos através deste mecanismo, as crianças passaram a ir à escola, são todas vacinadas e as futuras mães ciganas são acompanhadas nos hospitais e centros de saúde. “Quanto dinheiro é que isto vale?”, questiona Rogério Roque Amaro. “Os benefícios são muito superiores e nós vamos ver isso nas sementes do futuro, na relação com esta comunidade.” 

O programa Jantar Indiscreto tem, para já, previstos seis episódios, onde se vai falar também dos preconceitos sobre lésbicas, transgénero, o corpo ideal ou a ideia de que a participação política está reservada apenas para alguns. Porque os preconceitos são variados e, “a partir do momento em que escolhemos não tê-los”, explica Myriam Taylor, “temos todos de passar por um processo de educação”. 

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