Na luta pela memória dos filhos, Mães de Maio são ligadas ao crime pelo próprio Estado que os matou

Fernando Luiz de Paula levou o dia todo para terminar um bico como pintor. Chegou em casa no Munhoz Junior, bairro periférico de Osasco, exausto. A região é formada essencialmente por trabalhadores sem dinheiro para viver na metrópole de São Paulo, distante dali a menos de uma hora a carro. Depois de dar um beijo na mãe, Zilda, decidiu tomar uma cerveja para relaxar —rotina de muitos moradores dos bairros pobres, depois de um dia inteiro na labuta. Era 13 de agosto de 2015. Fernando não teve nem sequer a chance de dar o primeiro gole no copo gelado. Levou um tiro na testa, disparado por homens encapuzados de preto, junto a outras 16 pessoas em uma das maiores chacinas do Estado de São Paulo. Os algozes eram policiais, segundo a Justiça, que condenou dois deles. Sem ficha criminal, em subemprego, com todas as provas a seu favor, o homem preto foi ligado ao crime organizado mesmo morto. Passados seis anos, quem convive com a acusação —e o vazio no peito— é sua mãe.

Ao longo de seus 67 anos, Zilda Maria de Paula enfrentou de tudo na vida. Foi abandonada pelos pais de sangue, deixou a casa do casal que a acolheu ainda na adolescência e viveu na rua. Sobrevivia limpando “casa de família”, como chama os lares de classe média em que trabalhava. Os trocados davam para o gasto. Até chegar à periferia de Osasco, ainda enfrentou cinco abortos espontâneos antes de Fernando nascer. Depois, veio o abandono do companheiro e a missão de criar uma criança preta periférica como mãe solo. Realidade no Brasil comparável a um jogo no modo extra-hard. Hoje, ela carrega com orgulho em sua vida o termo “mãe” como resistência. Na falta do abraço e do beijo de Fernando, resiste só ao sofrimento e a pecha de ser traficante.

Quem ataca é o próprio Estado que matou Fernando. Na semana seguinte ao assassinato do único filho, aquela mulher negra entrou para um coletivo, as Mães de Maio. A inspiração são as argentinas Madres de Mayo, “órfãs” de seus filhos e netos mortos ou desaparecidos forçadamente pela ditadura militar, no país vizinho.

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