quarta-feira, outubro 13, 2021
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Na pandemia, Viviani descobriu sua vocação de professora

Diversas portas de trabalho se fecharam durante a crise sanitária, o que a fez começar a dar aulas aos sobrinhos até montar um grupo de 13 alunos em Ferraz de Vasconcelos

Antes da pandemia, Viviani de Sousa Gomes, de 41 anos, acumulava uma série de trabalhos: assistente de loja freelancer em uma loja de departamento, decoradora de festa e locação de brinquedos, e auxiliar de cozinha em um buffet. 

Com a chegada da covid-19, as portas se fecharam para todos os setores em que atuava e ela precisou se ajustar conforme suas necessidades financeiras. Na pandemia, ela passou a ficar em casa com a filha Rayssa, de 17 anos, e o enteado Felipe, de 20, que é autista.  

Pelo fato de ter sempre trabalhado fora, inclusive durante a infância das crianças, o laço familiar com a filha Rayssa havia ficado fraco, já que a menina foi criada na maior parte do tempo pelos avós e pelas tias. “Eu trabalhava o dia inteiro e à noite fazia faculdade. Quando eu chegava em casa, ela já estava dormindo e eu saia antes de ela acordar”, lembra.  

Sem trabalho e com mais tempo disponível, a irmã a procurou para que ajudasse com os filhos dela na escola. Viviani, então, começou a dar aulas para seus quatro sobrinhos: Raiane, que está no 7º ano; Ruan, do 6ºano; Brian, do 5º ano; e Leonardo, do 2º ano.  

Outras pessoas em Ferraz de Vasconcelos, região situada no extremo leste de São Paulo, tomaram conhecimento de suas aulas e também pediram auxílio. Hoje, Viviani dá aulas para 13 estudantes, do maternal ao Ensino Fundamental. Pelo Whatsapp, ela participa de grupos de pais e professores de uma escola da região. Lá, ela fica ciente das atividades do dia e sobre quais lições precisa passar aos estudantes.  

O impacto negativo da pandemia na vida escolar dos brasileiros, principalmente dos de escolas públicas, já foi medido em algumas pesquisas. Segundo relatório do Banco Mundial, publicado em março deste ano, 70% das crianças brasileiras podem não aprender a ler adequadamente neste período pandêmico. Ainda o mesmo levantamento aponta crescimento no chamado índice da “pobreza de aprendizagem”, em que crianças de 10 anos são incapazes de ler e entender um texto simples. No País, segundo projeção da pesquisa do BM, esse índice aumentará de 50% a 70% dos alunos em “pobreza de aprendizagem”. 

Esta realidade foi vivenciada por Viviani, logo em seus primeiros dias como professora. Mas apesar das dificuldades encontradas, ela conseguiu fazer progressos com seu pequeno grupo. “Os alunos do primeiro ano não sabiam ler nada. Eles só conheciam o alfabeto em ordem, mas se perguntassem uma letra aleatória, eles não sabiam associar a letra com o som. Agora eles já sabem ler e escrever”, relata.  

Um dos grandes enclaves educacionais gerados pela pandemia no Brasil foi a longa permanência de escolas fechadas, agravando a desigualdade educacional. Com as aulas remotas, em 2019, 4,3 milhões de estudantes brasileiros não tinham acesso à internet ou por falta de dinheiro ou pela indisponibilidade do serviço nas regiões onde viviam. Destes, 4,1 milhões estudavam na rede pública de ensino. Os dados constam na pesquisa do  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

A ausência de internet impactou diretamente no ensino da rede pública. Na rede paulista, por exemplo, cerca de 91 mil alunos não conseguiram dar acompanhamento aos aulas e realizar as atividades escolares.

No Brasil, o telefone celular é a única ferramenta usada para acessar a internet por 75% da população indígena, 65% da população negra e 61% da população parda, índices consideravelmente muito maiores do que entre as populações brancas.

“A educação está largada e as crianças foram aprovadas automaticamente para o próximo ano sem saber o básico. O Ensino Municipal não está preocupado se você está aprendendo. Eles aprovam até a criança chegar no Ensino Estadual e lá eles que se virem”, observa Viviani.  

A professora afirma que todos seus alunos são muito inteligentes e o que mais a motiva é o esforço deles em aprender. Viviani ministra aulas de todas as matérias, com exceção dos idiomas por não ter tanto conhecimento nesta área.  

“Mesmo que eu não saiba de alguma coisa, a internet está aí com vídeos que explicam tudo. Por ser o nível básico, é muito mais fácil passar o que você sabe”, afirma. Ela se sente muito grata pelo trabalho que realiza e por estar fazendo a diferença na vida deles. “Eles têm muita vontade de aprender. Eu também os incentivo a estudar para chegar à universidade. Se formar só no Ensino Médio não basta. É preciso ter pelo menos o Ensino Superior, não importa a área”, diz animada.  

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Viviani improvisou uma escola no local onde guardava seus antigos objetos de decoração

Sua trajetória e as dificuldades enfrentadas no Ensino Superior 

Nascida em São Vicente, na baixada Santista, Viviani se mudou para Ferraz de Vasconcelos aos quatro anos. Seus pais foram casados durante 25 anos e tiveram cinco filhos, sendo que ela é a filha mais velha. Eles vivem em um terreno grande na região que possui espaço suficiente para abrigar parte da família. 

Viviani sempre estudou em uma escola pública no centro de Ferraz e durante a adolescência seu pai a incentivou a estudar informática. No Ensino Médio, estudou processamento de dados. Ao cumprir o estágio exigido obrigatoriamente pelo curso, ela começou a dar aulas em uma escola da região e foi nesse momento que decidiu que queria estudar Matemática.  

No entanto, no momento de ingressar no Ensino Superior, a sua faculdade não conseguiu formar turma e lhe restaram as escolhas de Ciência da Computação e História. Por influência de uma amiga, ela optou pela primeira.  

Viviani fez o estágio na área de Computação e chegou a trabalhar por três anos como suporte, mas sentia que aquilo não era o que queria. “Você tem que estar se atualizando sempre com os cursos e não importa o quanto estude, sempre vão existir muitas pessoas à sua frente”, diz. Dez anos depois, no final de 2014, ela conseguiu se matricular para estudar o que sempre sonhou. Mas em 2016, no momento em que precisava cumprir o estágio para obter o diploma, sua filha teve que operar o fêmur.  

Com as consultas, descobriu-se que Rayssa cresceu muito rápido no momento que estava com o gesso e uma das pernas não acompanhou o crescimento. Ela precisou colocar pino. O tratamento para a sua recuperação durou um ano e Viviani trancou a faculdade para se dedicar inteiramente aos cuidados da filha. Ao retomar os estudos, em 2020, a grade curricular havia sido mudada e ela teve que estudar dois semestres a mais.  

“Eu também tinha a matéria de estágio para cumprir e foi justamente neste momento que as escolas fecharam. Algumas faculdades montaram um plano de contingência, mas a que eu estudei não pensou em nada. No fim, tranquei o curso na faculdade que eu estava e me matriculei em outra”. 

Agora, ela enfrenta outra barreira: a nova instituição não quer eliminar as matérias que ela já estudou. Apesar de todas as dificuldades, ela afirma que não vai se abalar e vai conquistar seu diploma. Viviani também quer se especializar em educação inclusiva para crianças com autismo e quem sabe fazer um mestrado.  

“Conhecimento nunca é demais. E é uma coincidência: eu nasci no dia 6 de maio, que é o Dia Mundial da Matemática. Acho que sou uma predestinada a estudar Matemática desde quando nasci”, conclui. 

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