segunda-feira, novembro 29, 2021
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“Não me venha falar da malícia de toda mulher”

Não me venha falar da malícia de toda mulher”: Ou: sintetizando dor e reconhecendo as “delícias” de sobreviver a ela.

de Luciana de Fatima Pinto Santos via Guest Post para o Portal Geledés

Há algum tempo fui estuprada em uma praia. Estava com um casal querido e fomos “amistosamente” abordados por um suposto veranista, que pouco depois nos apontou uma arma, dando-nos apenas o espaço da companheira de meu amigo fugir para buscar ajuda. O alvo era eu. Não era um assalto. Com o passar do tempo, o que parecia um duelo de machos teve seus rumos mudados. Não sei com que inspiração eu negociei minha vida e certo grau de integridade física, o que me trouxe forças pra correr após me livrar daquelas mãos perversas e dirigir até em casa.

Passei muito tempo “pedindo socorro”. Busquei formas de lidar com isso. Denunciar, falar, silenciar – para quem? Quando? Onde? Como? Foram perguntas que me torturaram muito. Escrever foi uma explosão motivada por uma das muitas discussões que o tema suscitou. Em uma delas, tocou-se em uma ferida que ainda transitava entre ataduras e exposição ao sol, para fortalecer “os poros de uma pele machucada”. A conversa, a tentativa de organizar o sentimento, a escrita, o reconhecer que existia dor, a interlocução com o/a outro/a favorecem um caminho para o distanciamento emocional.

Percebi foi que não falar sobre a violência sofrida, suas reações e consequências reforça a tendência social que nos responsabiliza – sutil ou abertamente – por provocar a agressão vivenciada. Tendência essa que defende a ideia de que somos nós (mulheres) que nos expomos, que vacilamos, que não nos preservamos. Sendo assim, seria nosso (aos olhos de outros) o papel de evitar, preparando-nos cotidianamente para combater a violência a qual estamos ameaçadas. Como se o desrespeito humano que isso implica se tratasse de um problema individual, que se resolve na relação entre a vítima e agressor. O fato, porém, é que nenhum desses “preparos” define as condições e formas de alguém reagir, e assim, estar ou não capaz de resguardar a própria vida diante de um iminente perigo, ou definir entre a vida, a gravidade da sequela ou a morte.

No pós-choque e na vivência do trauma inicial, o silêncio me permitiu uma sobrevivência emocional diante da necessidade de lidar minimamente com o que me aconteceu. Com o passar do tempo, pairou em mim uma atitude de não querer “incomodar” a possíveis ouvintes. Assim, muitas vezes me flagrei num discurso de suposta “proteção das relações”. Pensei que não falava para não tocar na ferida alheia, com a minha própria ferida. Depois me dei conta de que não falar sobre a violência sofrida adoece e reafirmava a tal culpa que a sociedade nos impõe.

Foi a partir de então que e a opção por falar foi sendo corresponsabilizada com as pessoas com quem partilhei essa experiência. Um acordo entre uso de bom senso, (na hora de escolher o momento e o/a interlocutor/a), e a simplicidade de quem escutava (em poder também assumir seu desconforto ao me ouvir). “Tudo bem se você não quiser falar”, ouvi certa vez de uma amiga. Do lado de cá, só pude responder: “para mim também é tranquilo se é difícil para você escutar”. Mudamos de assunto, mas assumimos mutuamente pelos nossos limites.

Ao mesmo tempo, me assumir vitima de uma violência nunca se igualou a apostar na revitimização impregnada em quem deveria acolher, no contexto do sistema de atendimento a vitimas de violência no Brasil. Qualquer mulher que sofreu violência sexista – foi SIM – vitima de um fenômeno social que não escolheu viver, e pelo menos no momento da agressão essa pessoa é vitima. Mas vale cuidar para que não incorramos no risco de desqualificar a dor alheia em função das cobranças pessoais sobre qual seria o “procedimento adequado”. Afinal, no meu caso, no momento exato em que tudo aconteceu, salvar e preservar minha vida foi mais forte e instintivo que qualquer argumento político, visão de mundo, ou imaginário de – “o que seria certo fazer durante e depois?”. Porque ao final, todo mundo sabe o que fazer do conforto do seu sofá vermelho. E muitas vezes o mais fácil é tão somente apertar o controle da TV e mudar o canal.

Isso, para dizer que a denúncia é um caminho de decisão da mulher. No meu caso, não denunciar foi talvez uma das decisões políticas mais difíceis da minha vida, mas havia uma escolha entre mim e o outro. Precisei me perguntar por vários dias seguidos se a denúncia (e todo o processo que ela implica) traria de fato benefícios para mim, ou só serviria para satisfazer a expectativa social da ação adequada em um caso como esse. Precisei me perguntar: “qual seria a luta!?” Na minha situação, vivendo sozinha em outra cidade e fragilizada demais para me expor, escolhi evitar a denúncia para não enlouquecer. Seguramente não teria estrutura emocional para vivenciar o passo a passo de um inquérito policial. E reviver tantas vezes mais a violência sofrida. Bem, ainda hoje acho essa escolha completamente legítima, e tão fruto do meu poder sobre a minha vida, quanto àquela decisão justa e urgente de quem opta e consegue denunciar.

Naquela situação, para acomodar a minha dor, eu só tive a mim, por mais que os afetos estivessem por perto, esse é, por definição, um processo solitário. Cada dia foi um passo: os pavores foram desaparecendo gradualmente, num tempo que não foi contado pelo relógio. Foram se convertendo em outras coisas, nos transformando, mas ainda podem se apresentar de novo em qualquer situação que o corpo suponha ameaçadora. Viraram medos, receios, e quem sabe um dia só lembranças. Mas não dá pra seguir vivendo insensível a tudo isso. A busca por aquietar as consequências da violência, para mim está vinculada à ideia de reconhecer os limites de uma sequela emocional, e assim, encontrar formas mais distanciadas de lidar com todas as sensações e sentimentos que esse trauma ativa.

Com o passar do tempo perguntei-me: qual o distanciamento emocional necessário para encampar um debate sobre um tema da violência sexista? Qual a minha condição atual de abrir mão do sentimento de que “só sabe quem passa”, para considerar as reflexões mais atentas e sensíveis, e ao mesmo tempo impor limites às aberrações machistas que se escuta sobre o tema? O que existe é a possibilidade de falar sob outra ótica. Para sempre, minha posição sobre esse tema terá as cores e às tintas de quem reconheceu e nominou as violências que viveu, e acolher isso foi doloroso, mas também libertador. Ter essa clareza foi um exercício diário. Perceber quem me tornei depois de tudo, e inclusive por isso me respeitar.

Sigo olhando o que se apresenta a cada dia, entendendo cada situação em que o medo se reacendeu ou se minimizou como possibilidades de avançar em processos de distanciamento do trauma. Seria muito difícil lidar com isso se não percebesse assim. Perderia o sentido, amargaria, apertaria o peito, angustiaria. Ainda estou no tempo de expor a ferida ao sol, de deixar as cascas saírem. É desconfortável estar em carne viva. Paciência. Por outro lado, é bom perceber que as partilhas possíveis, os colos e os abraços aliviem o ardor que tudo isso causa. E assim continuo, colocando os remédios que a vida dá, até que essa tal ferida seja somente uma cicatriz, um dia, quem sabe suavizada por uma bela tatuagem, ou por uma pele bronzeada por um lindo sol de verão.

 

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