sábado, maio 28, 2022
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O caso da musa abstrata – pretensamente – intelectual do samba e a branquitude nossa de cada dia!

Nesse ano de 2022, de situações tão surreais e absurdas, chegamos a época dos desfiles dos carnavais de Rio e São Paulo, período em que vemos aparecer e multiplicar aos montes, as chamadas musas do samba abstrato, com a sua incrível capacidade de acreditar tenazmente que o mundo gira em torno de seu umbigo, ou de seus balangandãs.

Período de muito brilho e purpurina no ar, de reportagens e mais reportagens recheadas de futilidades e pretensas humildades. Em que estas entidades da nossa mediocridade social se manifestam livremente, incentivadas por uma grande mídia que lhes são fiéis e receptivas. Sempre em meio ao enaltecimento da festa carnavalesca no Brasil ser o maior espetáculo da terra, uma das construções humanas mais respeitadas e admiradas por todo o mundo, somos apresentados a uma série de reportagens, aparentemente inocentes e descontraídas, em que surgem as musas abstratas do carnaval. Com suas falas padrão e gestuais mecânicos, que nos lembram remotamente a algo similar com o que compreendemos enquanto espontaneidade. Com os seus gingados, ou melhor pulos e giros, que acreditam ser a arte do sambar!

Fora estas características comportamentais, que se ressalte sobre estas musas, o seu padrão físico padrão de mulheres de fenótipo europeu, que se enquadre no modelo de pessoa branca como o referencial de beleza que temos em nosso país. Com os seus cabelos descoloridos, quanto mais platinados melhor. Donas de um corpo, na maioria das vezes turbinado por silicones, botox e “correções plásticas”, sempre alinhados a uma estética de beleza que se adeque a um padrão imaginário muito mais próximo dos ideários de nossas elites e de seu machismo endêmico, do que da realidade comum, e verdadeiramente tão bela, de nosso povo. 

Para que não haja dúvidas, esse padrão de beleza que as musas abstratas do carnaval divulgam, nada mais é do que a negação pública das mulheres negras enquanto os referenciais de práxis e simbólicos das escolas de samba. Um processo delicado e tortuoso, até mesmo pela sua negação do estereótipo sexualizado do conceito de mulata, que se faz associar as mulheres negras quando começam a ganhar os destaques e reconhecimento de sua beleza, elegância e arte, que exerciam através do bailado popular representado pelo samba, como passistas. Quantas mulheres negras, dançarinas extraordinárias, que através de seus passos enfrentaram as hostilidades, os preconceitos de nossa sociedade racista e machista que insistia em lhes taxar e tratar enquanto “simples e puros” objetos de luxúria e prazer, a disposição dos homens de “bem e de família” que se entregavam aos prazeres da carne durante a época do Carnaval? Mulheres negras, negadas em suas humanidades, estereotipadas enquanto objetos sexuais. “Depravadas”, “amorais” e “destruidoras do lar”, sempre a procura de amantes para lhes sustentar? Em qualquer escola de samba, em qualquer parte do Brasil, essa foi (é) uma realidade comum as lutas que envolveram a criação, o reconhecimento e a afirmação dessas entidades mistas de cultura, religião e política. Enquanto mais uma, dentre tantas e diversificadas, expressões de resistências negras em suas lutas antirracistas e pró negritude em míticas terras brasilis de democracia racial. 

Por isso, quando muitas destas musas colocam que a participação delas como sambistas/passistas não significam uma afronta a história das escolas ou do próprio samba, mas sim a comprovação de sua verdadeira essência democrática de ser uma “festa” para todos! Elas estão sendo alienadas sem noção, ou canalhas dissimuladas, pois para início de conversa, carnaval popular no Brasil não é somente festa, mas resultado de processos de resistências e ressignificações históricas e sociais dos grupos socialmente dominados e minorizados em nossa sociedade. Lutas essas de práticas e simbolismos que se dão a mais de século, desde a inserção dos elementos populares de nossa cultura ao antes aos tradicionais e elitistas festejos de Momo que se tinha até as primeiras décadas do século XX.

Por detrás desse discurso de democratização da “festa do carnaval” representada pela entrada em massa dessas musas abstratas nas escolas de samba, em especial do Rio de Janeiro (desde final dos anos 1980) e de São Paulo (desde começo dos anos 2000), temos um exemplo concreto de como a branquitude exerce seus privilégios de humanidade sobre os demais grupos que com ela convivem. Pois a noção de humanidade propagada por essas agremiações – que com seus desfiles nos revelam uma outra compreensão de nossa história, embates e oposições ante nossos valores-referenciais morais preconceituosos e, mais, obtusos, ao mesmo tempo que nos torna nítido a existência-persistência de lutas cotidianas de sujeitos que mesmo perseguidos e negados em suas humanidades, não desistem de buscar e apontar que outras formas de vivências e relações  aqui sempre existiram, para longe de qualquer exploração ou discriminação, e se fazem ainda hoje como farol que apontam a chegada de uma nova era civilizatória que haverá de ser semeada e erigida por estas paragens, para finalmente nos tornarmos nação de fato e de práticas – acabam como que ignoradas, com apoio de vários órgãos de imprensa. Pois só é válido e enaltecido, o que coloca em destaque os padrões de beleza identificados enquanto brancos, não importando se você realizou apliques ou escovou os cabelos, para lhe dar um aspecto “afro”, ou se submeteu a inúmeras sessões de bronzeamento, para ressaltar uma suposta herança ou pertença de raízes negras. Pois essa forma de apropriação cultural e física do que é ser negro no Brasil é exemplo de nossa noção de que a branquitude por estas terras se apossa, a seu bel prazer e interesses, o que lhe convém das populações por elas tratadas historicamente enquanto subordinadas e inferiores.

Nesse sentido somos obrigados a ouvir palavras, expressões proferidas sem a verdade da alma, como “dedicar um abraço a toda comunidade”, sem por vezes saber o nome da região ou dos bairros que a agremiação representa; “é uma honra desfilar por essa escola”, pois não é incomum elas não saberem o nome da escola por qual desfilam (sim, por mais absurdo que isso pareça, não é fato nada incomum); “amo toda essa gente, todo esse povo”, mas não suporta nem chegar perto de seus próprios ritmistas, sempre andando cercada por seus staff ou seguranças; “me sinto em casa nessa quadra”, mas não aceita circular e por vezes nem tirar foto com as pessoas que lá vivem, só mostrando “poses e sorrisos” quando as câmeras de televisão estão ligadas; “por dentro sou negra/ou gostaria de ser negra”, mas no seu cotidiano ridiculariza e deprecia todas as pautas e reivindicações das populações afrodescendentes, quando não divulgando e promulgando conceitos deturpados como “vitimismo”, “racismo reverso”… Ou seja a branquitude se faz presente nos desfiles de nosso Carnaval, de maneira atuante e constante a pelo menos três décadas, enquanto mais um dos mecanismos de apagamento das historicidades e resistências negras no país, assim como da normatização e manutenção de nosso racismo estrutural.  

Mas nesse ano, tivemos o aparecimento de uma nova forma de musa abstrata do Carnaval, uma mutação de nossa soberba e ignorância elitista, o da “musa do carnaval que se acha intelectual”. Que com sua presença no desfile desse ano no Rio de Janeiro, acredita que está enriquecendo a importância e significado da “festa”, pois a presença de uma pessoa com o seu perfil (mulher branca de classe abastada) e mestranda da USP (o que para ela é, por si só, atestado de intelectualidade. O que só aqui já nos revela uma situação, no mínimo controversa, do que é ser intelectual. E se tal condição lhe dá um exercício de superioridade humana perante a sociedade em sua volta) representa uma quebra de estereótipos, de preconceitos que ocorrem nessa festa popular. Para melhor explicar, faltou coragem para essa pretensa intelectualidade pensante explicitar com todas as letras, que:

a-) as escolas de samba são espaços de pessoas sem cultura ou educação, locais de convivências de pessoas incultas;

b-) são lugares de exclusão e segregação de pessoas brancas, de nível social superior, em que se dá uma forma de “racismo reverso”, ao qual ela fará combater com a sua presença;

c-) sua ida a esta festa, que não lhe é feito comum, se dá na intenção de se opor aos “estereótipos que incomodam”, como de que o samba e as escolas de samba não são lugares para brancos, para tanto, com seu gesto de ida e busca por pertença, desenvolver as pessoas dessas comunidades carnavalescas o entendimento do que é de fato ser antirracista e combater preconceitos de fato.

É o complexo de “salvador” que em geral as pessoas brancas, ou que se consideram como tais, acreditam carregar em si, e que por isso devem repartir, mesmo que impositivamente, com os “outros”, com aqueles desprovidos de sua graça divina! Em pleno século XXI ter tal tipo de pensamento vivido e circulando tão ativamente, até por aqueles que se apresentam enquanto pessoas “liberais”, desprovidas de preconceitos ou, ao menos, em desconstrução dos mesmos, chega a ser estarrecedor. Mas no país da Terra Plana e dos antivacinas, em que o neonazismo mais cresce. Numa sociedade em que os genocídios das populações negras e indígenas fazem parte de nossa estrutura social e histórica até hoje, tal situação não acaba sendo surpresa! Infelizmente, não nos é surpresa, mas sim se dá em sentido de revolta e indignação! 

Pois mesmo que a pretensa intelectual não tenha dito isso textualmente, é isso que o discurso de sua entrevista nos revela! Na perspectiva de que “as vezes aquilo que não é dito, na verdade é aquilo que foi falado”! O que foi o caso da entrevista por ela prestada!

A canalhice desse tipo de ideário é tamanha, imbuídos por uma soberba e falta de noção que atingem níveis impressionantes! Mas é a ignorância de sua fala em relação a todo um conjunto de valores e construções históricas, que aqui discorri, é o recorte que pretendo agora expor e problematizar. Pois o seu pensamento de que sua condição de mestrando pela USP lhe dá condição de intelectualidade superiora ante TODAS as pessoas que estarão presentes nos desfiles da Sapucaí é absurdo de tão inacreditável! Se isso já não é exemplo de uma fala no mínimo presunçosa e fora de qualquer lógica, não sei mais o que seria… Mas sendo o pior que tal intenção guarda em si a sua certeza de que tal realidade se dá diretamente em oposição as sambistas negras, pois na sua fala ela também enfatiza a sua condição de mulher branca de classe social, digamos, diferenciada, no sentido de superioridade. Como se as demais passistas que estarão também a desfilar não estivessem em seu patamar, tanto as passistas de hoje, quanto as milhares que já desfilaram antes dela, nessas décadas de desfiles das escolas de samba cariocas. Passistas e carnavalescas, infinitas e grandiosas mulheres negras, que com seu esforço e brilho físico e intelectual construíram essa magnitude de expressão cultural que mistura balé, teatro, musical, ritos religiosos, atos políticos, produção de historicidades e novos sentidos, que a agraciada uspiana acredita “mudar de patamar” com a sua simples presença!

Quem tal pessoa pensa que é, para depreciar esse legado? Para desmerecer essas lutas e trajetórias?

Em vez de guardar para si a ignorância de sua branquitude em sua própria soberba, e não atrapalhar o desfilar da história. Que se dá em fluxo contínuo e constante, apesar de pessoas como ela, que aparecem querendo reinventar a história. 

Ante todo um processo de construção cultural, dessa forma de manifestação urbana afro-brasileira, que constituiu como instrumento de afirmação e consolidação das historicidades afros. Dos legados destas populações negras em meio a formação da sociedade brasileira, do não apagamento destes conjuntos de pessoas em meio aos processos de exclusão e segregação que marcam as transformações territoriais de nossas cidades. As escolas de samba são muito mais do que se passa nas grandes mídias, para além do que “apenas” um espetáculo. 

São resistências, são lutas, histórias vivas daquilo e daqueles que não deveriam mais estar aqui, mas que persistem e cantam suas dores, alegrias, sonhos, frustações, revoltas e verdades ao mundo. Tendo as passistas funções expoentes nesse processo. Não por acaso, sendo a que melhor representasse a beleza e potência transformadora da agremiação sendo intitulada como Rainha de bateria. A responsável por cuidar, por fazer pulsar, ritmar com o coração da escola, que são os ritmistas, que por sua vez, nas representações simbólicas existentes entre candomblé e escolas de samba, ocupam os papéis de guardiões da rainha, como se fossem Xangôs ou Oguns em proteção a sua máxima paixão. Numa fluidez de movimentos, troca de olhares e sorrisos que encantam a todos que presenciam esses momentos que rompem a temporalidade terrena para ganhar ares eternos. Representação máxima de beleza e exuberância, aliada a toda uma técnica sofisticada de dança –  belas como Oxum, guerreiras como Iansã, rompedoras de todas as opressões, como Yabás que são – inúmeras vezes desafiam as leis da física para literalmente encantar a todos durante o desfile, fazendo fluir a energia gerada pela escola por todas as suas alas, reenergizando os seus componentes, ao mesmo tempo em que estabelecem o encantamento de toda performance com a plateia. Elevando a ocorrência dessa expressão cultural afro-brasileira para outros patamares de percepção, contribuindo decisivamente para estabelecimento dos momentos mais antológicos da cultura brasileira. E é essa beleza e exuberância da mulher negra, para longe da vulgaridade e exploração sexual que sempre se fez imputar a ela, que as passistas historicamente simbolizavam nas escolas de samba. Um período, mesmo que reduzido num contexto anual, em que o destaque da mulher negra enquanto sinônimo de beleza e poder se fazia de maneira inconteste, mesmo sobe ataques moralistas e racistas típicas de uma sociedade de herança escravocrata e senhorial como a nossa. Será que tal pessoa, para promulgar um absurdo desses, leu Lélia Gonzales? Uma intelectual e sambista, que acredito ser muito mais significativa, em ambas as áreas, do que a nova musa abstrata dos desfiles de Carnaval. Referência mundial dos pensamentos sociais e culturais negros, das negritudes e negro feminismo, que em um de seus mais belos artigos, aborda diretamente a questão da sexualidade e exploração da mulher negra, de como essa realidade é perpassada pelo carnaval e se faz perturbar através dos desfiles da escola de samba. Nunca foi fácil, não é fácil, e do nada chega ser que do nada, nos vomita seu intelectualismo estéril como a verdade definitiva e inconteste dessa realidade, que acaba por distorcer toda uma realidade histórica de lutas e resistências, para auto justificar sua presença em UM desfile como exemplo libertador e rompedor de estereótipos? Considerando que é a sua presença que fará vencer os preconceitos de nossa sociedade? Dessa forma querendo, ou ao menos acabar por validar a falácia do “racismo reverso” no samba-enredo da História? 

Faça-me o favor, musa abstrata intelectual do samba, respeite o samba! Respeite o carnaval popular! Respeite as lutas e historicidades dessas mulheres negras… Se ponha no seu lugar! Respeite, louve e aprenda com as trajetórias, arte e vivências de referências dessa arte de dança e alma que é sambar, dentre tantas outras, com Maria Lata de Água, Paula do Salgueiro, Pinah, Nega Pelé, NãNãna da Mangueira, Soninha Capeta, Nilce Fran… Afinal de contas, para uma intelectual de seu – pretenso – nível, saber pesquisar antes de emitir vereditos deve ser, ou deveria ser, de praxe. Embora depois de toda essa situação… Sei não… Sei não…

Só espero que não me venha com falas de que “não soube se expressar”, de que suas palavras foram “tiradas do contexto”, ou de que está sendo vítima nessa situação. A verdade é que ela, literalmente, atravessou o samba, antes mesmo de entrar na avenida! Calou o apito e silenciou o tamborim, antes mesmo do desfile começar! 

Seu ato, falho ou não, é consequência de todo um processo de embranquecimento que ocorre nas escolas de samba, em especial nos seus quadros dirigentes, a partir de meados dos anos 1970, ocasionado um afastamento – por pressões políticas e econômicas, iniciadas durante o regime ditatorial vigente no país entre os anos de 1964/1985 – gradual, mas constante, das famílias e comunidades negras que fundaram ou davam sustentação a estas agremiações. Realidade que teve como um de seus efeitos mais significativos e visíveis, a retirada das passistas enquanto elementos artísticos que perpassavam, atravessavam por toda a escola durante o desfile, havendo uma maior concentração nas figuras de três principais que seriam a rainha, com suas duas princesas. E a partir dos anos 1980, o que ocorre? As passistas destaques, a “realeza” entre as melhores sambistas da escola, passam a serem substituídas pelas musas abstratas do samba. Uma linhagem involutiva dos desfiles carnavalescos, que nesse ano de 2022 acabou por gerar a figura auto salvadora do samba, da musa abstrata intelectual, que veio para nos salvar de nossas próprias mazelas e desgraças e transformar o Carnaval, a partir de sua chegada, em uma festa realmente democrática de todos para todos, sem essas histórias de negritudes, resistências e de caráter popular! 

Mas, apesar de tudo e todos, o samba continua a resistir, os desfiles não param e as verdadeiras e majestosas passistas, as verdadeiras musas- e poéticas encarnadas – continuam a bailar e a encantar o mundo! Enquanto nos libertam de todas as dores e opressões do mundo! Em atos de verdadeiro congraçamento revolucionário! Sempre, na cadência bonita do samba, sem abstrações ou alienações pseudo intelectuais que possam lhe parar, somente em realidades utópicas de liberdades e alegrias!


Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil.

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