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O chute de Éder

Quando o número 9 português marcou o gol da vitória na Eurocopa o mundo conhecia mais uma vida gastada na ausência e na resistência. A representação de Éder, entre tantos jogadores negros entre Portugal e França, transcorria a incredulidade de torcedores. Porém, transcendia o gol durante uma final.

por Guilherme Cruz via Guest Post para o Portal Geledés

Quando Éder marcava um gol, milhares de campinhos de terra, pequenos terrenos, alguns pés descalços e muitas bolas rasgadas eram tocadas para além daquele jogo-espetáculo. A transcendência de vida, que ainda permeia o corpo negro dentro do futebol (e demais esportes), alavanca um novo exemplo de significância. A narrativa que montava o atacante era o enunciado da vida fora das quatro linhas.

O que hoje se tornou futebol está longe do alcance que sempre norteou sonhos de meninas e meninos, e as imposições de empresários. A mudança, o desafio, a casa própria, a vida outra… Tudo muito bem legitimado pelas cifras da lavagem de dinheiro e corrupção que impulsionam o futebol profissional. Os olheiros, os cartolas, os multimilionários, as empresas, são elementos que desnorteiam o que por aqui ainda chamam de “paixão nacional”. A formação do futebol business é outro fator de desqualificação, de perda de signos e discursos, da desestruturação imagética e sentimental enquanto sociedade. O futebol se tornou espelho de uma sociedade que aparta, que não abraça a alteridade, que cria injúrias e justificativas pela não existência. O futebol, em sua problemática, estabelece que, por exemplo, o lugar do torcedor é em casa com sua pay-per-view-cat, longe do estádio, distante da segmentação VIP que tornou os estádios brasileiros esterilizados. O documentário Geraldinos expõe esse dilema pensando a partir da “revitalização” do Maracanã. Um simbólico modelo de desfragmentação social; é a legitimação do modelo segregatório que vivemos cotidianamente. O torcedor não consegue mais se deslocar – o transporte público é quem apresenta o amarelo; o estádios barram sua entrada – os ingressos é o técnico que não te deixa no banco de reservas; a “sociedade” elitista que domina os novos estádios não te reconhece enquanto composição de cenário qualquer – o cartão vermelho como meio sequencial. Esse torcedor que recebe o amarelo, que o técnico não escala, e que é expulso mesmo sem entrar em campo é a mesma lógica para a vivência da trabalhadora e trabalhador periférico. É a disputa de penâltis diárias e decisivas que todas e todos sofrem (nas tentativas, pois a luta é imensa) de segregação social.

Todxs nesse domingo olhariam a disputa entre o francês Griezmann, e o badalado Cristiano Ronaldo. A França multiétnica, que ainda tem dificuldade de legitimar-se como tal, possuía Sissoko e Pogba que forçavam a eliminação – momentaneamente – do discurso fascista francês. Só ali, nesse breve momento, servindo como entretenimento, a capacidade negra possuiu a legitimação evidente. Somente nesse começo, meio e fim foi que a França esqueceu sua disputa racial nos guetos. E a ideia nacionalista se fez voga cantando a Marselhesa de um povo que renega seus conflitos étnicos. E na hora do hino, nos rostos, e no silêncio na hora de cantar, víamos a mais negra seleção portuguesa versus a mais negra seleção francesa.

A sociedade europeia, desde muito tempo, perdeu sua capacidade de reconhecer suas alteridades, um população que ainda possuiu dificuldade em compreender origens e entender a mobilidade de sua formação – e por isso, o único lance ensaiado é de renegar. Ou ainda, quando esse pensamento visa somente realçar breves respiros de reconhecimento e aceitação. Quando Portugal perdeu Cristiano Ronaldo, foi o sentimento fadista de desilusão e descrédito que prevaleceu nos torcedores portugueses. Entre a queda do “melhor do mundo” e o chute certeiro e decisivo de Éder, os gritos dessa conquista eram de refugiados, dos escravizados, dos violentados, dos mortos. Por um outro movimento (e pensamento) que prevaleceu naquele instante, por quem esperava a decisão de outros pés. Éder, em seu trabalho de atacante, abriu a defesa e aniquilou uma barreira que dizia que Portugal não seria campeã. Mas o movimento de Éder foi transgressor na maneira de demonstrar uma outra visibilidade, pois para quem foi ao estádio ver uma disputa entre um alsaciano e um português “legítimo” – teve que se redimir, muito provavelmente sem reflexionar, sobre o negro diaspórico, provindo de sangue africano da Guiné-Bissau e de resistências.

Ele, com três anos de idade já possuía na sua identidade a marca do deslocamento forçado e do distanciamento afetivo. Foi criado num orfanato em Coimbra, e só aos 19 anos conseguiu a cidadania portuguesa. Éder, que foi considerado pelo seu próprio técnico como “o patinho feio” da seleção, foi o nome mais contestado na convocação portuguesa da Eurocopa. Porém, em sua vivência de reelaboração, de superação linguística e cultural, e resolução de traumas, enquanto sujeito diaspórico cria meios de contestação e afirmação. Como a luva branca que virou sua marca registrada ao comemorar gols. “Tem a ver com toda a adversidade que correu na minha vida”, disse. E completa, como resposta aos críticos. “É uma forma de me motivar. Festejar desta forma faz-me sentir bem”. O jovem jogador negro que passa para a história de Portugal, com o gol mais importante do país, ainda assim lutará para sua sobrevivência. Pois, seu nome será diminuído, inserido como coadjuvante perante ao CR7. Assim, como a exploração latente realizada por Portugal aos povos africanos, as inúmeras violações, pelo silenciamento da História, Éder – assim como todo refugiado e imigrante – busca sua existência. Porque até mesmo o twitter oficial da seleção portuguesa reconheceu, ou melhor, não reconheceu Éder como elemento constitutivo daquela festa. “Nem franceses, nem portugueses…ninguém parou Éder!“. Mais uma alegoria, outro elemento cambiável, outro ninguém (com vida e significância limitada) que não é nem francês, nem português.

Óbvio, cara leitora e leitor, que o simbolismo do futebol é irrisório quando nos combatemos com nosso cotidiano de violência. De discurso, por exemplo, quando Galvão Bueno parabenizava a França pelo combate ao terrorismo durante o evento; deixando de lado o genocídio da juventude negra – esse terrorismo nacional que instituições hegemônicas como a Globo decidem silenciar, e onde nenhuma Copa ou Olimpíada poderão deixar alguma lição de resolução e “integração” (muito pelo contrário). Porém, o futebol – queira ou não – teve mais uma escrita histórica nesse 10 de julho (um dia depois que Serena Williams quebrou mais um recorde com 22 títulos de Grand Slams), e nessa data – e em qualquer espaço de visibilidade e discussão – precisamos elaborar enunciados, abraçar discursos, expor ideias, criar sujeitos, beijar Éder, comemorar com Serena e garantir novos rumos para além dos gramados e quadras. Quebrar a noção da utilização como entretenimento do corpo negro, e de todos os colonialismos existentes. Pela nossa vida, pela nossa resistência, por um devir transgressor das nossas realidades.

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