sábado, agosto 13, 2022
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O direito de respirar em um mundo racista

Não consigo respirar.

Mais um homem negro foi assassinado por um policial branco nos EUA, na segunda-feira passada. Menos um homem negro no mundo.

Sem ar, erro: escrevo “mais um homem negro foi assassinado…”. Está errado.

É preciso dar nomes. Não normatizar genocídios.

George Floyd, 46 anos, trabalhador, pagador de impostos, assassinado no último sábado, por um policial branco em Minneapolis, EUA.

Suas últimas palavras enquanto era enforcado por seu assassino:

– Não consigo respirar.

Morreu em 5 minutos. Segundo a medicina forense, uma eternidade dividida em 4 fases.

Primeiro, sente-se enjôo, vertigem, sensação de angústia, inconsciência.

Dois minutos depois, a medula colapsa, causando convulsão, contrações na musculatura (tanto da face quanto a respiratória) e os relaxamentos dos esfíncteres. A vítima se urina e se defeca inteira.

No terceiro minuto, a fase respiratória, o ar que falta. Lentidão e superficialidade dos movimentos respiratórios. Insuficiência ventricular esquerda.

O último minuto de vida é o colapso cardíaco. Arritmia, parada cardíaca e morte.

Em algum destes 5 minutos, teve forças para dizer apenas uma coisa.

– Eu não posso respirar.

5 minutos. Uma eternidade.

Leio o estudo publicado no UOL, informando que, no Brasil, negros sem escolaridade tem mais chances de morrer de Covid-19. Gente preta que vai morrer por não conseguir respirar.

E então eu não consigo respirar.

Estou dentro de casa, calma.

Preciso escrever a coluna. Sou um profissional. Sou um milagre estatístico. Um dos poucos negros brasileiros que conseguiram trabalhar com o que ama, que venceu pelo simples fato de ter tido as mesmas chances que um branco.

João Pedro, negro, assassinado em São Gonçalo, mandou antes de morrer uma última mensagem de whatsapp para a mãe:

“Estou dentro de casa. Calma.”

Morreu com um tiro de fuzil nas costas. A dor de um tiro de fuzil não se compara a nada. Rompe músculos e artérias, mas destrói nervos e ossos do tronco. A pressão demora a cair. Passa-se pelo menos 5 minutos sentindo essa dor inimaginável.

5 minutos. Uma eternidade.

Casos que, de tão corriqueiros, viram notícia de vítima sem nome, sem corpo, sem dor, de alguém que não teve o corpo violentado. Um corpo que dava prazer aos amigos, aos parentes. Um corpo vivo e com nome.

Em um colégio da zona nobre do Rio de Janeiro, alunos brancos se referem à colega Ndeye Fatou Ndiaye, 15 anos, negra, corpo com nome, assim: “Venderia no Mercado Livre”. E “Para comprar um negro, só com outro negro mesmo”.

Ndiaye respirou e reagiu nos 5 minutos que lhe foram dados. Os jovens racistas de família de elite, que no futuro serão adultos racistas no mercado, hoje estão afastados temporariamente da escola.

5 minutos. Uma eternidade.

O site Mercado Livre, a qual o garoto racista de elite se referia, já teve que retirar do ar um anúncio de produto, feito por um brasileiro, que colocava uma foto de uma criança negra à venda, com os dizeres: “Filhote de Macaco”.

Eu não consigo respirar.

O presidente da Fundação Palmares resolve criar o selo “não-racista”, para pessoas ou marcas que, segundo ele, venham a ser difamadas, acusadas injustamente de racismo.

Vejo o estudante racista recebendo o selo “não-racista”. Vejo os policiais que assassinaram João Pedro recebendo o selo “não-racista”. Vejo o assassino de George Floyd recebendo o selo “não-racista”. Vejo o sujeito que anunciou uma criança preta no Mercado Livre recebendo o selo “não-racista”. Vejo o próprio presidente da Palmares condecorando a si próprio com o selo “não-racista”.

“Para comprar um negro, só com outro negro mesmo”.

A história da escravidão do homem pelo homem tem um capítulo especial no Brasil. É aqui, na região central do Rio de Janeiro, onde funcionou o maior porto escravagista da história da humanidade. O Cais do Valongo. O útero do Brasil.

O Mercado Livre.

Eu não consigo respirar.

Vivemos na economia do Livre Mercado.

Um sistema que dá o direito de respirar a uns e não a outros.

Que sufoca pretos negando-lhes, por exemplo, escolaridade.

Escolaridade é ar.

E é só isso que o povo preto quer.

O mesmo direito de quem não é preto tem.

O direito de respirar.

5 minutos. Uma eternidade.

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