O discurso da tolerância como domesticação

Apenas uma sociedade profundamente intolerante pode invocar a necessidade da ‘tolerância’. Aceitar o outro por perto, mas não tão perto assim.

Gabriel Bichir

Há certos setores da sociedade que tendem a disseminar uma concepção de política ligada à conciliação, à tolerância e ao bom senso; enfim, todos os valores do autêntico “cidadão de bem”. Contudo, eles partem de um pressuposto equivocado. Se nos voltarmos aos gregos, encontraremos uma concepção muito distinta, que faz apelo à dialética, ao confronto de posições opostas no qual apenas uma sai vencedora. A arte política é, originariamente, conflito.

Insistir nessa noção dialética do conflito é fundamental para dissipar concepções levianas e desmascarar a “bela alma” reacionária. Espinosa já dizia que do choque de duas potências contrárias apenas uma poderia sair vencedora, já que uma potência não seria capaz de maximizar-se por conta própria, sem impor-se sobre alguma outra. Ora, se levarmos isso a sério, será necessário descartar uma série de discursos que circulam sub-repticiamente e são ingenuamente assimilados pelo senso comum.

Um deles é o discurso da tolerância e do respeito. “Sejamos tolerantes com o diferente”, dizem. “Discordo de você, mas respeito seu ponto de vista”. Eis a morte do pensamento em duas únicas frases! Diferença não é algo que se tolera, discurso não é algo que se respeita (ainda que se possa respeitar uma pessoa). Todas essas afirmações partem do pressuposto conciliador de que tudo se resolve na integração; para as pessoas que defendem tais posições o mundo seria um lugar muito mais belo se todos se dessem as mãos. A caridade cristã esconde-se onde menos a esperamos… 

Maquiavel já se mostrava um ferrenho crítico dessa posição. Em seus Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, afirma que a cidade está invariavelmente dividida em dois “humores”: aquele dos poderosos e o do povo. A liberdade política surgiria desse embate; com efeito, impõe-se como uma necessidade ao povo refrear a ambição dos mais ricos, os quais, se deixados à vontade para fazerem o que bem lhes conviesse, arruinariam a cidade.Tais opostos não estariam sujeitos à conciliação, pelo menos não de maneira permanente.

Na atualidade, o discurso em voga é o do consenso universal, o que se dá tanto na esfera estatal como nos meios de comunicação. No entanto, como nos aponta Maquiavel, nem sempre tal consenso é possível. E mais: nem sempre devemos buscá-lo, pois nessa busca há sempre uma perda irremediável. Perdemos a capacidade de compreender a história como puro movimento, como choque constante entre opostos que batalham por seus interesses e que também foram constituídos historicamente. Ora, de que adianta a esquerda tentar dialogar com quem defende a Marcha da Família com Deus? Os pressupostos de cada lado são absolutamente diferentes, o diálogo já está impossibilitado de antemão não há aí qualquer possibilidade de consenso. O que fazer em tal caso? Lutar. Lutar e resistir até o fimcontra quem defende a ditadura e sua herança assassina. Apenas assim será possível fazerjustiça histórica; ser conivente para com nossos algozes, minimizar seus feitos, tudo isso é um atentado contra a memória do povo brasileiro, de cada mãe que chorou com a morte do filho pelas mãos dos militares. Há certos momentos da história que não podem ser minimizados, nem perdoados. O conflito já está dado, o que não se pode é tentar escapar dele. 

De fato, o consenso universal não é só impossível, mas ilusório. Trata-se de uma forma de mascarar o problema político, de fraudá-lo, isto écolocá-lo em termos incorretos e vazios de significado, o que inviabiliza uma análise consistente. Tais discursos são incapazes de dar conta da complexidade do campo político e, não raramente, recaem em seus contrários. Apenas uma sociedade profundamente intolerante e segregacionista pode invocar a necessidade da “tolerância”; ser tolerante significa, em essência, aceitar que o outro esteja por perto, mas não tão perto assim. Uma sociedade que tolera o homossexual é uma sociedade homofóbica, da mesma forma que uma sociedade que tolera o negro é uma sociedade racista. Repensar esse paradigma significa recolocar o problema da alteridade e do sentido da diferença no horizonte político.

Muito ganharíamos ultrapassando essa visão estreita. A diferença não seria mais vista como algo a ser “tolerado”, mas como afirmação do puramente diferente, inassimilável. Na atual conjuntura, isso não se configura como algo provável ou sequer possível. As vendas do consenso impedem-nos de pensar essa alteridade radical, a qual aparece sempre nas “formas terroristas que nos obsessionam”, como diz Baudrillard. Já o negro ou o homossexual constituem diferenças plenamente assimiladas no esquema vigente de dominação. Integradose devidamente “domesticados” no horizonte normativo do branco heterossexual, eles não constituem grande problema, sua diferença está sob controle. O problema é que essa tentativa de “domesticação” sempre traz em seu bojo um efeito colateral: surgem, paralelamente a conquistas de importantes direitos, novas formas de racismo e homofobia com um teor fascista cada vez mais intenso.

 

Evidentemente, tal esquema conciliador não produz esses movimentos como uma causa produz seus efeitos. De fato, é a própria tentativa de assimilação que falha; não pode ser plenamente levada a cabo porque a alteridade resiste, e nesse movimento de choque surge, então, uma fissura, uma excrescência do sistema. Ora, como seria possível a ascensão de tantos grupos racistas e homofóbicos extremamente violentos em países como a França,marcados historicamente pela constante presença do Estado de bem-estar social e da luta por direitos? Some-se a isso o crescimento expressivo na Europa de partidos de extrema direita (como o Front National francês) em eleições recentes. Trata-se de um fenômeno que não pode ser explicado apenas pelo viés financeiro, da atual crise econômica que remonta a 2008, ou por uma suposta “decadência” da esquerda atual.  

Apenas reestabelecendo o laço essencial entre teoria e práxis será possível recolocar o problema da significação do campo político de forma a evitar discursos reducionistas e a combater o fantasma reacionário da “bela alma” e sua tolerância infinita.

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Gabriel Bichir é estudante de filosofia da FFLCH/USP.

Fonte: Carta Maior

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