O feminismo em África

O que é o feminismo na África? O feminismo é a presença de uma mulher chefe de Estado no Mali ou na Libéria? É ele o primeiro rascunho dos direitos das mulheres na Constituição da Etiópia com a autoria de Meaza Ashenafi? Ou é a primeira Primeira Ministra mulher do Senegal? Talvez o feminismo seja a eleição de Aminata Toure como primeira mulher a ter uma cadeira na Africa Union. Em todo continente, mulheres estão traçando um caminho feminista na África e criando um verdadeiro movimento de “womanism[1]” em vários países. Apesar dessas conquistas, e de vários ganhos substanciais, porque o feminismo continua a ser considerada uma palavra manchada?

Tradução do artigo “The Feminist Edition”

O pensamento de que uma mulher vai se colocar em primeiro lugar, perseguir seus objetivos na carreira em vez de estagnar, querer reconhecimento e exigir visibilidade, tudo isso ameaça nossa presente ideia do que é ser africanx. Nós ouvimos de nossos pais e irmãos, tios e avós que mulheres podem ser forte, mas não tão forte. Mulheres devem ser inteligentes, mas não tão inteligentes. Mulheres devem ter opinião, mas não podem ser teimosas.

“Porque nós continuamos pensando que uma mulher que se curva ao seu marido admite inferioridade? A verdade é que o casamento como uma instituição africana evoluiu. Homens estão dividindo mais as contas com as esposas, mulheres estão se tornando mais independentes e assumindo o comando mais do que antes, etc. Mas, contudo isso, ainda somos a sociedade dos “homens chefes de família”. E quem diz que isso não está funcionando pra nós?”

– Ayo – Bankole Akintujoye

A sociedade do “homem chefe de família” está funcionando pra nós onde nossos países tem casamentos forçados com frequência, violência relacionada com dotes, estupro marital, assédio sexual, esterilização forçada, tráfico sexual, espancamentos, gravidez forçada, mutilações e violências emocional e psicológicas? É suficiente dizer que isso é parte da nossa cultura ou que a religião permite ou que a tradição exige que a mulher seja inferior ao homem? Nós ainda estamos dispostos a aceitar que 50% do nosso capital humano seja tratado como propriedade, ou menos que um humano, ou menos que um homem?

Não são só as nações africanas que estão lutando contra isso, mulheres como Betty Kavata são maltratadas pelos maridos que as batem até a morte, mulheres africanas também estão tentando entender o que o feminismo significa pra elas. Do outro lado da diáspora e do continente, jovens mulheres se colocam do outro lado do debate. Algumas perguntam porque se preocupar já que estão recebendo uma educação, começando uma carreira pra simplesmente se curvar para um homem que vai te negociar pelo próprio sobrenome? Ao contrário, com sua graduação, sua inteligência, paixão e carreira, você não tem ninguém em casa, não tem filhos e provavelmente você virará as costas para o seu papel natural na vida, e do modo africano de ser. Nesse jeito de ser, você terá que separar seu caráter feminino de sua feminilidade tanto o quanto você possa imaginar.

Para mulheres africanas crescidas no exteriror que leem bell hooks, Patricia Hill Collins, Melissa Perris Harry, Audre Lorde o que significa ser uma mulher africana, e feminista? Para uma mulher que cresceu no continente, onde a presença e a pressão da cultura persiste, o que significa ser uma mulher africana, e feminista? Para irmãos, filhos, tios, pais, amores e amigos o que significa amar uma africana feminista, ou ser uma africana feminista?

Por isso, gostaríamos de falar mais sobre isso e explorar a conversa sobre o tema Feminismo em África. Há espaço em nossas culturas, em nosso países, em nossas políticas e culturas, em nossas casas e igrejas para o feminismo? Se não, porque? Você acha que nossas culturas tem mecanismos para garantir a igualdade, ou nós não precisamos de igualdade da maneira que o feminismo estabelece? Essa “tendência” mundial de alguma forma ameaça o modo de ser africanx? E se não, nós estamos dispostos a aceitar que nos tornaremos mais africanxs, dispostos a explorar e expandir nosso potencial e nossa habilidade incluindo uma gama de mulheres do continente em todas as esferas da vida?

Vamos juntxs explorar o que feminismo africano e da diáspora parece ser e se ele é de fato uma coisa necessária, se ele é possível dado o nosso sistema cultural abertamente patriarcal. Se o feminismo africano existe, com o que ele parece? Que tipo de impacto ele deve causar em nossa literatura, nosso sistema de educação, política, inovação e tecnologia? Quem nós seriamos se o feminismo ou os princípios feministas fizessem parte de nossa sociedade?

Fonte: Blogueiras Negras

+ sobre o tema

Conheça a vereadora que desbancou políticos tradicionais e bateu recorde de votação em BH

Pela primeira vez na história de Belo Horizonte, uma...

Estudante branco agride mulheres negras durante Virada Antirracista na UFSC

No dia de protesto antirracismo na UFSC, hoje (25), o...

Sobre o maçante e doloroso assunto “Solidão da mulher negra”

Tem um ponto a respeito do maçante e doloroso...

Rihanna sobre rivalidade com Beyoncé: ‘Não coloquem mulheres negras umas contra as outras’

Beyoncé recebeu 9 indicações ao Grammy 2017, consagrando-se a...

para lembrar

Workshop: Um gosto de África

Fonte: Jornal Ìrohin Com Daniela Moreau26 de setembrosábado...

Territorialidades de Cidinha da Silva

Programa Tradução em Libras disponível. Faça sua solicitação no ato...

Fundo Baobá lança investimento financeiro para líderes negras

Apresentado por Juliana Alves, evento no MAR (RJ) oficializa...
spot_imgspot_img

Fernanda Melchionna lança seu primeiro livro em Cachoeirinha neste domingo; “Tudo isso é feminismo?”

“Tudo isso é feminismo?” – uma visão sobre histórias, lutas e mulheres” marca a estreia de Fernanda Melchionna, no universo do livro. A bibliotecária...

Negra Li mostra fantasia deslumbrante para desfile da Vai-Vai em SP: ‘Muita emoção’

A escola de samba Vai-Vai está de volta ao Grupo Especial para o Carnaval 2024, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste sábado...

Livro põe mulheres no século 20 de frente com questões do século 21

Vilma Piedade não gosta de ser chamada de ativista. Professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e uma das organizadoras do livro "Nós…...
-+=