O livro de Djaimila Pereira e a história de um cabelo que é mais do que só aparência

Djaimilia Pereira é mulher negra, com família de portugueses e angolanos, mas de Angola se lembra pouco. Mora em Portugal desde os três anos de idade. Os passeios breves ao outro continente durante a infância não incrementaram muito sua memória sobre a terra de seus antepassados. Djaimilia é autora do livro Esse Cabelo, que além do título traz uma descrição na capa: “A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza a história de Portugal e Angola”. O romance é um livro de memórias de Mila, personagem inspirada em sua própria biografia. Djaimila compara a obra com um álbum de fotografia – há imagens captadas, mas ao mesmo tempo, também há memórias de cenas fictícias que revelariam estranhos familiares.

por Luciana Brito no HuffPost

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Mila tenta recuperar as lembranças de sua vida, onde o cabelo é o aspecto central para a composição de suas memórias. É por meio das lembranças que a personagem descreve a vontade de esquecer a existência do cabelo. O cabelo crespo era corporificação da discriminação vivida por habitar um corpo diferente da branquitude europeia: “os modos de os outros tratarem o meu cabelo simbolizou sempre a confusão doméstica entre o afeto e o preconceito” (:49), dizia Mila. Havia afeto, mas também violência nas senhoras dos salões que diziam como a menina ainda miúda deveria cuidar dos cachos para torna-los invisíveis.

É assim que os salões de beleza cruzam as memórias de Mila desde a infância com produtos químicos que prometiam o alisamento improvável, os penteados que se desfaziam com a chuva e os apliques de tranças que caiam ao menor toque após as horas permanecidas no salão e o couro dolorido. A biografia do cabelo de Mila não poderá ser descrita como mera futilidade, e por isso a personagem defende que sua história passa ao largo da descrição de um “conto de fadas da mestiçagem, mas é uma história de reparação” (:15). 

Em entrevista Djamilia diz que o retorno ao que não se viveu só poderia ser a criação de uma caricatura, e por isso o livro poderá ser também compreendido como uma “paródia de retorno às origens”. Mila provoca e diz que não se tornará o que nunca foi – é mulher negra, mas portuguesa. A Angola de suas origens nunca foi vivida na experiência, apenas na memória de histórias contadas ou na ficção daquilo que não viveu.

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Mas a tentativa de ser indiferente ao cabelo fracassa quando Mila se dá conta de que seu cabelo é mais que aparência, é também um modo de se apresentar no mundo. É assim que a biografia de um cabelo provoca a leitora – a discriminação cordial vivida por Mila nos subúrbios de Lisboa não nos deixa esquecer que ainda estamos distantes da vida em uma democracia racial. Nem em Lisboa, tampouco no Brasil.

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