segunda-feira, setembro 20, 2021

O Negro e o Jazz nos EUA

Resumo
O tema deste projeto se deu por um interesse sobre a trajetória do desenvolvimento dos Estados Unidos e do papel do negro no país. Tendo como objeto a luta pela igualdade – que inevitavelmente perpassa pela cultura de um país –, pretendo investigar a inserção de um ritmo que antes era tido como “sem valor” e que aos poucos se tornou reconhecido como parte fundamental da cultura estadunidense. ‘Jazz’ é a palavra que demonstra a presença e importância do povo negro desde o início da história dos EUA, povo esse que foi tratado como “irrelevante”, mas que colaborou efetivamente na construção da nação e de sua cultura.

A análise fílmica tem por objetivo investigar o racismo sofrido pelos negros e a tentativa de desvinculação do jazz de suas ‘raízes negras’, através do ‘esvaziamento de valor’ do estilo musical quando ainda era maioritariamente um ritmo periférico, e da grande disparidade que havia entre “empregos x bandas brancas” e “empregos x bandas negras”, até o momento de sua aceitação social. O artigo será baseado na intersecção de dois pilares: a forma de representação histórica do jazz no documentário de Ken Burns; e a história dos Estados Unidos (alguns aspectos político-sociais).

Espera-se ao final deste trabalho comprovar a – ainda existente -, intenção exclusiva da expressiva contribuição afrodescendente na história e cultura dos Estados Unidos da América, exclusão essa, que começou a ser representada no cinema em O Nascimento de uma Nação (1915) e que hoje ainda permanece, quando filmes sobre o jazz tem entre seus protagonistas – em sua maioria – pessoas brancas, como vemos em La La Land (2016) e Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014). E consequentemente, mostrar a necessidade de uma revisão da história no que diz respeito a importância estrutural que a população negra desempenhava e ainda desempenha no país.

Ken Burns e o documentário Jazz

Ken Burns nasceu no Brooklyn, em 1953 e se tornou um dos cineastas mais respeitados da atualidade. Com seu documentário sobre a Guerra Civil Americana ganhou mais de quarenta prêmios de T.V. e cinema, sempre estruturando seus trabalhos na história dos EUA. Já tem um vasto número de trabalhos que segundo ele “Surge de uma intenção de conhecer mais o meu país, saber como ele funciona, e conhecer a mim mesmo.”. E esse tipo de busca não pode ser dado de forma rasa, por isso, seus documentários contam com extensas horas de duração. No documentário analisado nesta pesquisa, Burns levanta um pensamento que permeia toda sua obra:
É irônico que a narrativa americana tenha se baseado na falha que é o racismo. Quando Thomas Jefferson disse “Todos os homens são criados iguais.” ele possuía duzentas pessoas, que nunca foram livres. Então vemos uma narrativa americana, uma história americana, presa nessa questão.

O documentário foi lançado em janeiro de 2001 nos EUA, teve uma grande audiência, no canal não comercial PBS (Public Broadcasting Service) e se expandiu para vários países. Ken Burns remonta a história do nascimento do jazz em New Orleans na última década do século XIX, até a morte de Louis Armstrong, Duke Ellington e quando de Miles Davis inicia o fusion jazz, proclamando em 1975 ‘a morte do jazz’. Acompanhamos a criação do jazz, seus pioneiros e seus músicos mais consagrados, todo seu processo de desenvolvimento, tanto musical quanto de uma inserção na cultura popular dos EUA. Intrinsecamente a isso é contada a história dos Estados Unidos, suas bases, seu desenvolvimento, suas crises e revoluções.

Os Estados Unidos da América

A idealização de nação nos Estados Unidos da América, nunca foi inclusiva, havia padrões que eram necessários serem reproduzidos para que o objetivo de “civilização” fosse alcançado.

Os “pais peregrinos” são tomados como fundadores dos Estados Unidos. Não são os pais de toda a nação, são os pais da parte “WASP” (em inglês, white, anglo-saxon, protestant, ou seja, branco, anglo-saxão e protestante) dos EUA. Em geral, a historiografia costuma consagrá-los como os modelos de colonos. Construiu-se uma memória que identificava os peregrinos, o Mayflower e o Dia de Ação de Graças como as bases sobre as quais a nação tinha sido edificada. ” (KARNAL, 2010, p. 46).

Com o filme, “O Nascimento de Uma Nação” (1915), fica ainda mais evidente a exclusão e a criação de uma identidade deturpada da população negra nos Estados Unidos, quando o homem negro é retratado como selvagem, estuprador interracial e que não merece ser tratado como ser humano.
Uma organização genocida foi fundada como um reflexo a abolição da escravidão nos EUA. Denominada Ku Klux Klan, essa organização, tinha como objetivo impedir que a população negra recém liberta fosse integrada a sociedade, visava impedir dentre outros direitos, o de adquirir terras e o direito ao voto, e como método para expor seus interesses perseguia, espancava e assassinava pessoas negras. O filme O Nascimento de Uma Nação, gerou o que foi chamado de segundo grupo da KKK e que seguia com veemência as atitudes do primeiro grupo, com toda sua brutalidade e desumanidade.

Menestrelismo

O menestrelismo reinou supremo no mundo norte americano dos entretenimentos desde cerca de 1845 até 1900, onde pessoas brancas – dentre outras coisas – realizavam performances burlescas da vida da população negra nos EUA. De acordo com Stearns:
Ele não contribuiu de nenhuma maneira para o desenvolvimento do jazz. Mas o menestrelismo forneceu uma introdução ao público em geral de um tipo de divertimento baseado em elementos negros, de histórias, danças e canções. Pois o menestrelismo educou o ouvido em geral, preparando caminho para a introdução ao jazz. (STEARNS,1964, p. 123).

Em parte do período citado, a escravidão ainda era permitida nos Estados Unidos e após o fim da Guerra de Secessão e a consequente abolição da escravidão, as leis segregacionistas, denominadas “leis Jim Crow”, foram postas em prática, colocando de forma ainda mais estrutural uma desvalorização da população negra a condições subumanas.

Diante disso, o trabalho de Ken Burns, Jazz, nos mostra um enorme contraste se relacionarmos o que é contado sobre o povo preto na história da nação e sobre o que vemos de protagonismo de grandes músicos negros – onde a grande maioria dos músicos de jazz mais influentes, são negros, tais como: Louis Armstrong, Duke Ellington, Buddy Bolden, Thelonious Monk, Tonny Parker, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e outros grandes nomes.

Introdução ao Jazz

O jazz é um estilo híbrido de música, resultado da mescla de diferentes ritmos. No primeiro episódio do documentário, Ken Burns fala sobre “gumbo”, que nada mais é, que uma sopa tradicional do Estado da Louisiana, composta por vários ingredientes que não possuem muitas características em comum. Gumbo, representa a diversidade de influências na formação do jazz. Como nos elenca Marshal W. Stearns, o blues, o spiritual e o ragtime, são ingredientes fundamentais para a estruturação do jazz (STEARNS, 1964).

Do blues, temos o grito ou o guincho, que viria caracterizar o jazz. A forma do blues também é uma mistura, muito da harmonia é derivado da harmonia europeia, mas há particularidades, como a terça bemolizada (a “blue note”); outro aspecto é a interpelação e resposta trazida da África Ocidental – que viria ser adaptada no jazz com perguntas e respostas de vocais ou quaisquer outros instrumentos.

No spiritual, segundo Stearns, ocorreu uma amálgama de hinos religiosos europeus muito tradicionais e do estilo de canto utilizado na África Ocidental, com o alongamento da melodia. Ressaltando no jazz (em seu período inicial), o modo característico de canto, como se um clamor estivesse sendo realizado.

No ragtime, ainda há a mesma relação, África Ocidental e Europa, mas diferentemente do blues e do spiritual, agora essa mistura desemboca em um ritmo maioritariamente alegre, alvoroçante e mais bem aceito na sociedade, Ernest Bornerman(1940) relata em seus estudos, que há familiaridade do ragtime com as músicas dos rituais vudu, que possuem um ritmo muito diferente do que já fora visto. E por terem estruturado sua forma rítmica em escritos, facilitou a popularização do estilo musical.

O jazz se tornou uma música orquestral em New Orleans, por volta de 1900, quando algumas pessoas negras conseguiram adquirir alguns instrumentos e aprenderam a tocá-los, juntavam-se no então Congo Square (um tipo de resistência das confraternizações tradicionais do Oeste Africano) pessoas que eram pequenos lojistas, cabelereiros e carregadores, tornavam-se músicos ocasionais (FRANCIS, 1987,p. 23).

Além das misturas de blues, spirituals e ragtime e da incrementação do estilo sonoro das bandas militares e adoção gradual dos instrumentos europeus, havia uma novidade que caracteriza até os dias de hoje o jazz e todas as suas evoluções, que são as improvisações, os solos, onde – comumente – um músico toma a dianteira em determinada parte da música, consequentemente dando maior voz a sua expressão criativa. Embaixo de tudo isso, estava um desejo poderoso e constante do negro norte americano de se fazer presente, de participar efetivamente da cultura branca que predominava. E a música era uma das poucas vias ‘abertas’ para se chegar a esse objetivo (STEARNS, 1964, p. 66).

A Era do Jazz

Até um pouco antes da popularização do jazz, em 1910, a grande elite da sociedade norte americana desconsiderava o gênero como música, por sua origem estar associada aos negros, eles diziam que não era arte, era apenas um barulho dissonante que não havia lógica musical e nem beleza artística, pois o padrão de arte eram os grandes concertos europeus, denominada “música clássica”.

A década de 20 teve muitos contrastes, pois se foi instituído o Ato Volstead (Sei Seca) que proibia a produção, venda e consumo de bebidas alcoólicas e contribuía para uma tentativa de marginalização moral do jazz, muitos avanços tecnológicos contribuíram para o desenvolvimento do jazz como elemento importante na cultura estadunidense, tais como: o rádio e o cinema falado , com aparições exclusivamente de músicos brancos – onde no primeiro musical produzido foi, justamente, um filme sobre um cantor de jazz(O Cantor de Jazz, 1927). Com isso, o jazz passou de eventual música de atração nuns poucos atos de vaudeville (pequenas peças de comédia) para algo aceito nos meios domésticos (HOBSBAWM, 1996, p.67).

Com a crise de 1929, a maior parte da população estava economicamente e emocionalmente arrasada, não se encontrava muitas oportunidades para as bandas de jazz se apresentarem, sobretudo as bandas formadas por pessoas negras. Como nos conta Burns em seu documentário, as gravadoras estavam fechando as portas, e o mercado fonográfico que era um dos mais movimentados na sociedade, estava praticamente falido. Fletcher Henderson que era negro, pianista e líder de banda tido como o mais talentoso dos EUA, precisou se apresentar por preços quase que irrelevantes. Mas apesar da grande depressão econômica, o jazz estava presente como uma forma de alívio de toda a tensão e desesperança, com a sua evolução para o swing(onde foi diminuída a quantidade de solos), seu ritmo alegre e dançante contagiava a população e mesmo sem muitas condições, algumas pessoas ainda guardavam seus poucos centavos para conseguirem no final de semana dançar e mitigar o sofrimento. Como nos afirma o escritor Gerald Early em uma de suas falas no documentário:

As pessoas precisavam de música dançante mais do que nunca, pois o país estava num desânimo só, acho que as pessoas precisavam da fuga, de ir ao Savoy e aos outros lugares para dançar. Elas precisavam daquelas bandas. Como antídoto para a depressão. Creio que o swing tenha feito o mesmo bem que as músicas da MGM para ajudar os EUA.

 

Mesmo com grandes músicos já tocando o swing na década de 20, ele só foi amplamente difundido com Benny Goodman e sua banda nos anos 30. Goodman era branco, estudava música com os músicos negros, mas não se apresentava com eles e em sua banda não havia nenhum integrante que não fosse branco, pois ele dizia que não seria bom para a imagem de seu grupo. 

Mesmo ainda no período da depressão, salões eram lotados de pessoas brancas para dançar, todos estavam fascinados pela música. Benny foi considerado o rei do swing aos 26 anos. E com ele que o jazz se popularizou e assim o swing se tornara a música popular americana. 

Um dos nomes importantes para a inclusão dos músicos negros na indústria fonográfica e oportunidades em salões foi John Hammond, um rapaz branco, de família muito influente que se tornou um admirador do jazz e começou a escrever sobre as diferenças percebidas na sociedade. Concomitante a isso, Hammond comprou um velho teatro que permitiu que músicos negros se apresentassem lá e pagava dez dólares por sessão e mais o valor do transporte. Além disso, John convenceu uma gravadora britânica a apoiar na gravação dos discos, com tudo isso, colaborou para tirar muitos músicos negros da miséria, além de revelar grandes talentos. 

Em 1933, Franklin Delano Roosevelt revogou a lei seca como uma forma de voltar a gerar empregos e aumentar a arrecadação de impostos com os bares de volta a legalidade. Um dos salões mais importantes para o início de uma integração racial era o Savoy, localizado no Harlem e era inspirado no Roseland Ballroom, mas diferentemente de Roseland – que só era permitida a entrada de pessoas brancas –, no Savoy, todos poderiam entrar e dançar juntos, sem nenhum tipo de distinção.

Benny Goodman e Fletcher Henderson começaram a fazer arranjos de músicas já consagradas no país, com a intenção de ganhar ainda mais público. Além de utilizar arranjos feitos por Henderson e Duke Ellington, Benny Goodman utilizava muitos arranjos feitos pelo pianista Teddy Wilson e certa vez, convidado para gravar um programa de rádio, sua produtora sugeriu que Benny levasse Teddy para a gravação, mas Goodman continuava com a ideia de que ter um negro na sua banda poderia diminuir sua popularidade, já que até então, nunca houvera se apresentado grupos interraciais. Por fim, Benny Goodman foi convencido e Teddy Wilson subiu ao palco para a apresentação, e foi um grande sucesso. Após esse dia, mais músicos negros foram convidados por Goodman, mas essa atitude não foi seguida por outros líderes de bandas. 

Como nos conta a história no documentário de Ken Burns, Ella Jane Fitzgerald – uma das vozes mais marcantes no jazz – era maltratada por seu padrasto e perdeu sua mãe aos 14 anos de idade, começou a cantar como uma forma de sobrevivência, mas não teve muitas oportunidades. Certa vez venceu um concurso de calouros na cidade do Kansas, concurso esse que dava direito a uma semana de apresentações no clube, mas por alegarem que ela era feia, por estar completamente fora do padrão beleza (mulher branca e loira), não atrairia clientes, foi impedida de receber seu prêmio e voltou a morar na rua por não ter dinheiro. Os negros em geral nos Estados Unidos da América compartilhavam da mesma exclusão que Ella, pois após a abolição da escravidão – o que pode ser visto como uma forma de renascimento –, não tiveram nenhum auxílio Estadual para inserção, de fato, em todos os âmbitos da nação, como nos afirma Leandro Karnal “A guerra tinha terminado com a escravidão no Sul, mas não representou a integração dos negros como cidadãos efetivos.” (2017, p.140). Com isso, a população negra continuou a margem da sociedade e quando encontraram no jazz um caminho para sua ascensão econômica e social através de seus esforços e talentos musicais, foram impedidos de avançarem por um bom tempo por conta do racismo. 

Ella Fitzgerald conseguiu reconhecimento por seu trabalho ao ser encontrada pelo trompetista da banda de Chick Webb que estava procurando uma cantora, pelo que Burns conta, Webb não queria dar uma oportunidade dela mostrar seu talento, mas com a insistência de seu trompetista, ele a ouviu e com isso Ella começou a fazer parte da banda. Teríamos aqui, uma das bandas que mais quebrariam padrões de beleza, já que Webb era negro e corcunda e Fitzgerald também era negra. Chik Webb e sua banda venceram a banda de Benny Goodman no que era tido como uma jams sessions (duelos de improvisação) mais aguardadas do período. Após a morte de Webb por complicações de saúde, Ella se tornou a líder da banda e continuou fazendo muito sucesso.

Duke Ellington e sua militância

 

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Cartaz com Ella Fitzgerald e Chick Webb. (Fonte: Documentário Jazz)

Duke Ellington foi o maior compositor de jazz do mundo e suas composições abarcam de canções alegres até as mais tristes. Na luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos ele também teve enorme relevância e usou de seu status para realizar atos em protestos (além de sua própria música) contra a situação do povo negro em seu país. Ao fazer suas turnês, os integrantes de sua banda foram impedidos de se hospedarem nos hotéis e de serem servidos em restaurantes, derivado disso, Duke começou a viajar em leitos particulares de trens e comer em pátios públicos, para que mais pessoas fossem conscientizadas da segregação que dividia o país e embora tivesse grande expressão no cenário nacional e até internacional, continuavam sendo rejeitados de participar em todas as instâncias da sociedade. Sobre uma turnê em Paris, seu trompetista Harry Carney disse “Pela primeira vez na vida eu havia me sentido como um ser humano de verdade.”

Duke Ellington, em 1941, financiou com sua própria renda a produção do primeiro musical negro, onde não havia nenhum branco fazendo o papel de um negro, apenas atores/atrizes e cantores(as) negros(as). Denominado “Jump for Joy”, foi produzido em Hollywood e a intenção era de homenagear a contribuição da América negra ao país. “Eu sustento”, disse a um entrevistador. “Que o negro é a voz criativa dos Estados Unidos, é a América criativa.” O musical foi um grande sucesso, mas nunca chegou a Broadway. O país não estava pronto para um espetáculo sobre os direitos civis. 

O negro, o jazz e a Segunda Guerra Mundial

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Musical “Jump for Joy” (Fonte: Documentário Jazz)

Quando se iniciava a produção em massa de todo tipo de recurso bélico para o confronto da 2ª Guerra Mundial, Franklin Roosevelt mantinha a proibição do emprego de pessoas negras na indústria bélica. Phillip Randolph que era o presidente da irmandade dos carregadores de leito, ameaçou realizar uma marcha até Washington se o presidente não abrisse a indústria armamentista para a população negra. Roosevelt concordou, mas diferentemente das indústrias, nem o presidente dos EUA, nem Randolph conseguiram a integração do exército estadunidense. Mais tarde, segundo o documentário, Randolph iria dizer: 

Apesar de não conhecer um negro que queira ver as nações unidas perderem esta guerra, conheço muitos que, antes do fim da guerra, querem ver a supremacia branca tomar uma surra. Os negros americanos estão diante não só de uma escolha, mas de um desafio duplo: conseguir democracia para nós, nos EUA e ajuda e a democracia a vencer a guerra para o bem de todo o mundo.

Dave Brudeck que serviu na 2ª Grande Guerra, participou da organização de uma banda a Dave Brudeck’s Wolf Pack band, banda onde não havia segregação racial e muitos músicos negros integravam sua banda. De volta aos Estados Unidos, Brudeck e seus companheiros passaram por uma ocasião que segundo ele, foi muito marcante.

Quando chegamos ao Texas e fomos para o refeitório, soubemos que não serviam negros. Tinham de dar a volta e fazer fila na porta da cozinha. Um deles disse que não comeria, começou a chorar e disse: depois de tudo o que passei, no primeiro dia nos EUA, nem posso comer junto com vocês. Eu me pergunto por que passei por tudo aquilo.”, Dave Brudeck in Jazz, 2001

O jazz sempre esteve presente durante a guerra, além das bandas formadas nas bases militares em outros países, Louis Armstrong – que é o maior nome no jazz até os dias atuais, por sua vasta contribuição em inovações de técnicas, tanto de canto, como instrumental –, estava com 40 anos quando se iniciou a guerra e por isso não pôde servir em combate, mas se apresentava em bases militares segregadas e visitava hospitais. 

Cerca de um milhão de afro americanos serviram na guerra, e aproximadamente quinhentos mil foram para a Europa, em regime de quase completa segregação racial lutar pela ‘liberdade mundial’. No fim da guerra, os movimentos em busca dos direitos civis para o povo preto ganhavam ainda mais força, pois após um grande esforço para conquistar uma vitória mundial em um conflito contra um regime ditador, segregacionista e genocida, fez-se ainda mais nítido a injustiça que se vivia nos Estados Unidos.

Os Estados Unidos após a Guerra

Em 1947, exatamente um mês após Jackie Robinson romper a barreira racial na grande liga de beisebol, Louis Armstrong apareceu com seu amigo Jack Teagarden, e seu pequeno grupo no Town Hall de Nova Iorque e viriam a tocar por mais de 20 anos juntos. Sendo considerado um marco muito importante como resistência a segregação. 

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Armstrong e Teagarden (Fonte: Documentário Jazz)

Após o término da Guerra, a economia dos Estados Unidos estava novamente equilibrada e combinado ao desenvolvimento da nação, desenvolvia-se o jazz. Do swing, passamos por Charlie Parker e o bebop, Gerry Mulligan e o cool jazz, Charles Mingus e John Coltrane com o soul jazz e Ornette Coleman e Miles Davis com o fusion jazz. Mas cada vez surgiam mais críticas ao jazz, pois acreditava-se que após o swing, o jazz começou a ser apenas comércio e as inovações o afastaram do que ele tinha de mais puro e voltaram a caracterizá-lo apenas barulho, pois se um dia ele fora um ritmo agitado e dançante, agora, ele extrapolou em sua agitação, e impossibilitou a dança.

A década de 60 foi uma década muito violenta nos EUA, as drogas estavam por todo o país, haviam protestos contra a guerra do Vietnã e grandes líderes das lutas pelos direitos civis foram assassinados, tais como: Malcolm X, Luther King e Medgar Evers. Em meio a todos esses acontecimentos, o rock and roll chega ganha mais notoriedade nos Estados Unidos 

Os Beatles tiveram sua primeira turnê em 1963 começando por Nova York, e toda a idolatria pelo jazz já estava em seus últimos momentos no gosto popular norte americano. Louis Armstrong foi convidado para gravar a música Hello, Dolly e apesar de não ter gostado da canção ela teve um grande sucesso, permaneceu em primeiro lugar das músicas mais ouvidas nos EUA, mas em poucas semanas, o rock retomou a dianteira. Agora grandes bandas que possuíam grandes contratos com gravadoras e recebiam um grande valor para realizar seus espetáculos sofriam para conseguir pagar as contas. (Jazz, 2001)

Conclusão

Diante dos fatos supracitados, observa-se que a contribuição da população negra na cultura norte americana é de tamanho inestimável, visto que as maiores inovações foram trazidas à tona por músicos negros, que viam na música a oportunidade de inserção na sociedade, para romper com a segregação. 

Nos dias atuais, grande parte das produções audiovisuais que tem o jazz como tema é representado por protagonistas brancos, como em La La Land (2016), Born to be Blue (2015), Whiplash (2014) entre outros. E essa ausência intencional de pessoas negras como protagonistas é um reflexo do racismo estrutural muito presente nos Estados Unidos. E aqui, podemos citar dois grandes problemas decorrentes desse racismo estrutural, que são:  a falta de representatividade do povo negro no cinema, sobretudo quando o tema é a produção ou representação cultural, que com isso não se percebe como parte crucial na formação de seu país; e a consequência dessa falta de representatividade é o branqueamento da cultura nos Estados Unidos, pois quando há uma grande associação do tema a certos personagens, é criada uma identidade de relação entre sujeito e objeto. 

Em contrapartida, alguns produtores audiovisuais estão investindo em materiais de maior representatividade negra, onde contam a história de grandes músicos, suas inovações e toda sua importância para o desenvolvimento da música, da cultura como um todo e do país. Para que assim, a população negra tenha mais referências históricas além da escravidão e das lutas por direitos civis, que também haja momentos de pura contemplação de algo feliz e bonito. 

 

Referências bibliográficas 

HOBSBAWM, Eric J. História social do jazz. Paz e terra, 2004.

FRANCIS, Andre. Jazz: Opus 86. 1987.

STEARNS, Marshall Winslow. A História do Jazz. São Paulo: Martins, 1964

 JONES, LeRoi. O jazz e sua influência na cultura americana. Rio de Janeiro,

Record, 1967.

MORSBACH, Mabel. O negro na vida americana. Record, 1969.

KARNAL, Leandro. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. Editora Contexto, 2017.

SALDANHAS, Viviane Rodrigues Darif. A Ku Klux Klan e a Instauração do Medo nos EUA. Sociologias Plurais, v. 1, n. 1, 2013.

 

Ficha Técnica

Título da obra audiovisual: Jazz, de Ken Burns, / Jazz: A Film by Ken Burns

Ano de Produção: 1995-2001

Diretor: Ken Burns

Produtor: Ken Burns, Lynn Novick

Estúdio Cinematográfico: PBS e BBC (inglesa)

Elenco: Keith David, Louis Armstrong, Duke Ellington, Sidney Bechet, Count Basie, Benny

Goodman, Billie Holiday, Charlie Parker, Miles Davis e John Coltrane.



Trabalho apresentado no curso de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro para conclusão da disciplina de História da América Contemporânea 2019.2 – Noturno

Professor: Wagner Pinheiro Pereira



** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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