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O novo realismo social no cinema da Nigéria
Créditos da foto: Reprodução/Jornal do Brasil

O novo realismo social no cinema da Nigéria

“Kasala!”, o filme de estreia de Ema Edosio, é uma comédia de baixo orçamento passada em subúrbios da classe trabalhadora da capital da Nigéria. Distante do estilo e glamour habituais de Nollywood, como é conhecida a indústria cinematográfica do país, a terceira maior do mundo, transborda suor, poeira e maconha, misturados a cheiro de carne podre e óleo de motor. É também uma carta de amor a Lagos, que reflete um crescente interesse no realismo social no país.

Do Jornal do Brasil

O filme, cujo título significa “problemas” em gírias locais, se passa nas ruas de Ojuelegba, um subúrbio da classe trabalhadora na parte densamente povoada de Lagos conhecida como “continente”.

Embora a própria Edosio viva nas “ilhas” – a área mais próspera da megacidade de 20 milhões de pessoas -, esta é uma realidade que ela conhece bem, depois de crescer em uma área semelhante com seus oito irmãos. “Oitenta por cento de Lagos é assim. Esta parte, no entanto, está sub-representada em nosso cenário cultural”, diz ela. “Eu quero ser a voz que coloca a vida dessas pessoas na tela.”

Diretora Ema Edosio cresceu nos subúrbios de Lagos, que são o tema de seu primeiro filme ‘Kasala!’ (Reprodução/Jornal do Brasil )

O roteiro do filme, que se desenrola ao longo de 24 horas, envolve quatro jovens amigos que roubam um carro que pertence ao tio de um deles. Depois de sofrerem um acidente, eles precisam arrumar 20 mil nairas (cerca de R$ 215) para consertá-lo.

TJ e os amigos são adolescentes típicos, mas mesmo uma imprudência juvenil pode ter sérias consequências num bairro pobre de Lagos. O tal tio está cheio de dívidas e corre o risco de ser assassinado se não vender o automóvel.

O filme mostra jovens africanos presos na pobreza e em dívidas, vestidos com roupas de segunda mão e com sonhos de uma vida melhor, assim como o  ídolo, o astro de afropop, Davido. Acima de tudo, é um filme sobre a amizade, em que a vitalidade das grandes cidades da África está sempre presente.

Realismo corajoso 

O realismo corajoso é exatamente o que atraiu Abiodun Kassim, o ator que interpreta o pobre e endividado tio, que vive em uma barraca imunda de carnes no mercado local. “Meu personagem representa a espinha dorsal da Nigéria. É a história da vida cotidiana de todas essas pessoas que abrem caminho pela vida. Elas são a maioria, mas quase não se fala sobre elas”, disse.

Desde o lançamento, “Kasala!” ganhou aclamação da crítica na imprensa nigeriana. No site Bella Naija, Oris Aigbokhaevbolo escreveu: “2018 não foi um bom ano para Nollywood, mas ‘Kasala!’ ainda pode salvá-lo”.

O personagem de Abiodun Kassim enfrenta a pobreza e tem várias dívidas (Cenas do filme Kasala)

No site da Lagos Film Society, Dare Dan, por sua vez, saudou a “sensibilidade afiada de Edosio, que mostra como é a vida nesses bairros desde o primeiro plano. É uma comédia enraizada no realismo, algo que muitas vezes não encontramos nas telas nigerianas”, disse ele.

Apesar dos elogios, nenhum cinema local concordou em exibir “Kasala!”. A diretora diz que, aonde vai, escuta que as pessoas “querem ver filmes inspiradores”. De acordo com ela, para a maioria dos nigerianos, isso significa mostrar pessoas ricas.

Serge Noukuoue, organizador do festival anual de filmes Nollywood Week, em Paris, diz que “esse tipo de cinema social está lutando para emergir. Não está no DNA de Nollywood, que visa entreter”. Ele acrescenta que “ainda estamos na onda do ‘vidão’ do cinema nigeriano – imagens que mostram sofisticação, áreas da moda, mulheres usando muita maquiagem e por aí vai”.

No festival, entretanto, “Kasala!” foi escolhido como um dos filmes “imperdíveis”. “É um filme refrescante e autêntico. Ema Edosio é uma nova voz no universo de Nollywood. É uma coisa boa e muito positiva”, disse Noukuoue.

Desinteresse dos cinemas 

Abba Makama, diretor de “Green White Green” (2016), disse estar “muito, muito cansado” de produções “cada mais lustrosas”, que usam atores com sotaques britânico ou norte-americano. Ele descreve seu filme, cujo título se refere às cores da bandeira nigeriana, como seu “mosaico da loucura”.

Foi um dos primeiros exemplos de um pequeno mas crescente movimento de realismo social que atingiu o cenário cultural da nação mais populosa da África.

TJ e os amigos criam uma situação perigosa depois de roubar um carro (Cenas do filme Kasala)

O filme já foi exibido em cerca de 20 festivais em todo o mundo, inclusive em Toronto, e está disponível no Netflix. Mas, novamente, nunca foi exibido na tela grande na Nigéria, apesar do enorme sucesso.

“Nos anos 2000, havia apenas cerca de 20 cinemas em todo o país”, disse Makama. “Agora, temos múltiplos portais, como o site Africa Magic, ou mesmo o YouTube, além de mais cinemas… Apesar disso tudo, os filmes são praticamente os mesmos. Precisamos de uma plataforma alternativa de distribuição de cinema”.

Edosio concorda, confiante de que há uma audiência para seus filmes e os de outros que também estão nadando contra a maré.

 

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