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O país que mata seus Pelés

Brasil escolhe matar sistematicamente jovens negros e pobres, ratificando o DNA homicida de sua sociedade, que comprometerá o futuro

Por Aydano André Motta, Do Projeto Colabora

Ilustração de um menino na favela jogando bola, e um homem de terno segurando uma arma que aponta para a criança
(Foto: Ilustração Carlos Latuff)

O Brasil matou Pelé – não o Edson Arantes dos 1.281 gols, mas os novos, os do futuro, meninos pobres e pretos exterminados sistematicamente nas comunidades populares e periferias. O país que um dia foi do futebol consolida-se como o das mortes de negros e negras, incontáveis talentos potenciais sacrificados pela escolha do genocídio. Jovens que se vão aos milhares, na covardia dos tiros desferidos a esmo, no jogo sangrento e sem fim.

O Brasil teima em sacrificar os que vêm das quebradas, ceifando vidas em escala industrial, jogando fora seu futuro, aprisionando-se num presente perpétuo de covardia e mediocridade. Morrem quase todos pretos e pobres, na indústria da brutalidade, referendada pelas urnas de 2018, como certificado do DNA homicida de toda uma sociedade. É ele que aperta o gatilho sem dó nem piedade.

Nesta semana no Rio de Janeiro, foram-se dois potenciais craques de bola – Dyogo Costa (apelidado de Coutinho, como o craque carioca do Barcelona), 16 anos, da Grota, em Niterói; e Gabriel Pereira Alves, 18, do Borel, na Zona Norte carioca. Um jogou a última Taça das Favelas e tombou fuzilado pelas costas; o outro era atleta do Olaria e morreu baleado no ponto de ônibus, de manhã cedo, a caminho da escola. Vítimas da guerra burra, perdedora, numa goleada incomparavelmente pior do que qualquer 7 a 1.

É inaceitável que, em nome do combate ao tráfico de drogas, centenas de milhares de pessoas sigam aterrorizadas pelas forças do Estado

Eliana Sousa Silva
Diretora da Redes da Maré

O banho de sangue cotidiano grassa na mesma região metropolitana onde Romário sobreviveu até sair do Jacarezinho para o Vasco, o Barcelona, a seleção do tetra; onde Adriano escapou para se consagrar Imperador; onde Emerson Sheik venceu a marcação do destino em Nova Iguaçu (num barraco sem banheiro), até ser campeão por Flamengo, Fluminense, Corinthians; onde Vinícius Jr driblou a dureza de nascer negro em São Gonçalo, e materializou o milagre de chegar ao Real Madrid. Deram sorte.

Muitos, muitos outros humanos, mulheres e homens, não conseguiram escapar da indústria assassina. Para ficar só nesta semana no Rio de Janeiro, a adolescente Margareth Teixeira, 17 anos, alvejada com o filho bebê no colo, na comunidade do Quarenta e Oito, na Zona Oeste; Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, 19, morto por bala perdida num tiroteio entre policiais e criminosos na Comunidade Terra Nova, em Magé, na Baixada Fluminense; Lucas Monteiro dos Santos Costa e Tiago Freitas, os dois de 21, assassinados numa festa no Encantado, Zona Norte do Rio.

Wilson Witzel - homem branco careca, usando camiseta polo preta e óculos de grau - ao lado de dois homens encapuzados com armas de grande porte nas mãos
Wilson Witzel e seus snipers: apologia do extermínio no discurso dos “tiros na cabecinha”. Reprodução do Facebook

No mundo paralelo das autoridades, inexiste empatia com as vítimas. Muito ao contrário – Wilson Witzel, ex-juiz que virou o governador fluminense, estremece de prazer ao exaltar “tiros na cabecinha”, “snipers”, matar, matar, matar. Entende festivamente ter o mandato do extermínio desenfreado, que trombeteia entre sorrisos. Na sua tara, adora posar embrulhado em fardas policiais, empunhando armas potentes, brincando de Rambo ao lado do sangue derramado.

As consequências, na vida real, são devastadoras. A ONG Redes da Maré divulgou edição extraordinária do Boletim Direito à Segurança Pública, contabilizando as mortes nos primeiros meses do mandarinato do amante da bala. De janeiro a junho, no conjunto de 16 favelas que se estende a perde de vista a partir da Linha Vermelha, 21 operações policiais produziram 15 mortos; 14 delas ocorreram em ações com uso de helicóptero, o caveirão aéreo. Outras 12 mortes foram causadas por dez confrontos entre grupos armados. Em todo o ano de 2018, 16 operações deixaram 19 mortos; em 2017, 41 e 20, respectivamente. Em efeito colateral igualmente nefasto, no primeiro semestre, escolas e postos de saúde ficaram fechados por dez dias devido aos tiroteios.

“O que é inaceitável é que, em nome do combate ao crime do tráfico de drogas, centenas de milhares de pessoas sigam sendo aterrorizadas pelas forças do Estado. Em nome de que isso pode ser justificado? Isso não é justiça, isso não é segurança pública, isso não é inteligente – até porque as milícias seguem crescendo no vácuo deixado pelo tráfico”, pondera Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Redes, em artigo no El País. “Acima de tudo: isso não é humano, considerando que vivemos no Rio de Janeiro de 2019, e não, como alguns pensam, no século XIX, antes da abolição da escravatura. Somos livres, cidadãs e cidadãos. E seguiremos sendo. Queiram essas pessoas ou não”, avisa ela.

Prisioneiros em cima do terraço do preside-o, uma bandeira com as siglas PCC esta estirado
(PHOTO/Marie HIPPENMEYER / AFP PHOTO / MARIE HIPPENMEYER)

Não é só no esporte, tampouco no Rio; o genocídio dos pobres está entre as mais sólidas políticas nacionais. O Brasil aperta o gatilho contra suas misérias – tanto que 18 das 20 cidades mais violentas estão nas regiões Norte e Nordeste. Rincões como Maracanaú (CE), Altamira (PA), São Gonçalo do Amarante (RN) e Simões Filho (BA) padecem com números semelhantes aos de guerras. Encurralada numa guerra de facções, Mossoró (RN) vê explodir a taxa de homicídios. Pelos mesmos motivos, massacres em presídios tornam-se endêmicos.

Ate a improvável vitória do bom senso, morrerá muito mais gente. Multidões inteiras. Se o descobridor da cura do câncer ou da solução para o aquecimento global tiver que ser alguém nascido nas nossas periferias, dificilmente tais avanços vão se materializar. O Brasil escolhe não permitir.

A ter um novo Pelé de qualquer uma das suas favelas, prefere matá-lo a tiros.

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