O primeiro dia no gabinete sem a vereadora Marielle Franco

“Oi, meninos.” A vereadora Marielle Franco passava pelo portão do anexo da Câmara Municipal do Rio de Janeiro e cumprimentava os seguranças. “Sempre sorrindo, mesmo quando estava séria”, descreveu um deles. Em seguida, pegava o elevador até o 9o andar e chegava à sala 903, seu gabinete. Encontrava-o repleto de gente. Na maioria das vezes, mulheres — funcionárias, voluntárias e pessoas que estavam ali para ser atendidas, com pedidos de ajuda.

No ambiente, que já não era silencioso, Marielle afirmava sua presença de mulher grande, muito além de seu 1,80 metro. Falava alto. Saudava com alegria a presença de comida — e sempre, mesmo que tivesse acabado de almoçar num rodízio, aceitava um pedaço a mais, uma mordida. Sua presença se espalhava na sala pelo cheiro do incenso de pau-santo, que nunca deixava de acender. O barulho, a comida, as mulheres, o cheiro. Reproduzia-se ali a casa de mulher negra, de favela, sua origem. “Sabe casa de mãe no domingo?”, sintetizou uma integrante da equipe.

Por cinco dias, o gabinete ficou vazio, trancado. Na última terça-feira, apenas o cheiro da fumaça de pau-santo — aceso por uma colega de gabinete de Marielle que entrava ali pela primeira vez depois do assassinato da vereadora — remetia à vida que aquele espaço experimentava até uma semana antes.

A porta da sala está como Marielle a deixou. Em volta da placa com seu nome, adesivos cobrem quase todo o espaço livre — eventos, atos e causas: “Candelária nunca mais”; “Basta! Contra a cultura do estupro”; “Direito à favela”; “Nossas vidas importam”; “Escola sem racismo, machismo e lgbtfobia”; “Neste Carnaval, meu enredo é liberdade”; “Nenhum beijo a menos”.

Abrindo-se a porta, uma sala em L. Na primeira parte, as baias planejadas para que todos pudessem se ver e conversar enquanto trabalhavam. A ideia de Marielle era que o ambiente reproduzisse fisicamente o ideal de uma fala desierarquizada, plural. “Somos assim, somos mulheres, só sabemos fazer as coisas em roda, em ciranda”, explicou uma das funcionárias do gabinete. A formação da própria equipe unia segmentos diversos da esquerda: gente do movimento negro, militantes lgbt, representantes da favela, feministas.

Na segunda parte da sala, a mesa grande que se dividia entre espaço de reunião e de celebração dos aniversários ou simplesmente do compartilhamento da comida. Ao fundo, uma saleta com a mesa da vereadora. A placa pendurada na maçaneta remarca o que Marielle já havia afirmado com sua vitória na eleição (como quinta vereadora mais votada de uma Casa essencialmente masculina): “Lugar de mulher é onde ela quiser”.

Marielle Franco, assassinada aos 38 anos, tinha uma risada alta e compartilhava a liderança com a equipe (Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo)

A mesa de Marielle, em frente a sua cadeira vazia, expõe o cruzamento entre as esferas privadas e públicas de sua vida — um cruzamento que marcava sua atuação política. Lembranças de aniversários de crianças da família dividem espaço com o livro A Defensoria Pública e a atuação na defesa da mulher e uma boneca da Mônica, personagem de Mauricio de Souza — em referência à arquiteta Monica Tereza Benício, sua companheira por 12 anos. A estante ao lado reflete as crenças da vereadora. Há representações de São Jorge e Nossa Senhora Aparecida ao lado de bonecas negras abayomi, feitas de pano.

Quando estava no gabinete, ela se dividia entre o espaço reservado a ela e a parte comunitária da sala. Todo o ambiente carrega o calor da ocupação intensa até dias antes (“Marielle era um sol”, descreveu uma funcionária. A janela com vista para o Theatro Municipal, as fotos na cortiça, os objetos pessoais, os Post-its com lembretes nos computadores, os documentos, um estandarte de um bloco de Carnaval encostado num canto (que ninguém sabe muito bem como foi parar ali) seguem como estavam. Há pistas da ausência, porém. Girassóis e rosas murcham num vaso. Telefones não tocam.

Enquanto Marielle ocupou o gabinete, o telefone tocava com frequência — inclusive seu número pessoal, que ela costumava dar a quem chegasse pedindo ajuda, desde o tempo em que atuava na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio. Procuravam o gabinete com solicitações como o auxílio para redigir um currículo. Ou até com desesperados pedidos de socorro, nos casos de mulheres sofrendo violência doméstica ou tendo de lidar com traumas graves (“Meu filho foi assassinado, estou enlouquecendo”; “Minha amiga foi vítima de estupro e quer se suicidar”). Não era raro aparecer alguém simplesmente com fome. Nessas ocasiões, antes de qualquer conversa, abria-se a geladeira, preparava-se um prato.

Em seu gabinete, acumulava adesivos das causas que abraçou (Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo)

Ao lado da geladeira, hoje, ainda se lê o aviso: “Amoras e amores: atenção aos restos de comida”. Ela não tolerava a desorganização. Cobrava que a equipe mantivesse o gabinete arrumado, sem papéis espalhados. Ao ouvir recentemente o argumento de que era difícil manter tudo em ordem num ambiente compartilhado por tanta gente, Marielle sugeriu aos funcionários que eles tivessem pastas individuais para guardar seus documentos e material de trabalho. Não teve tempo de implantar a ideia.

A movimentação de Marielle no gabinete não era discreta. Distribuía galhos de arruda à equipe quando sentia que precisava barrar energias negativas. Tinha o costume de dar tapas amistosos — o que não significava que fossem fracos, pelo contrário. Reclamava da bagunça em voz alta, da mesma forma como, sem esbarrar no autoritarismo, cobrava desempenho. Podia ouvir em resposta, como piada, “olha a relação opressor-oprimido”. Ria.

No gabinete, a intimidade de Marielle com sua equipe se revelava também de forma menos espalhafatosa. Como no ato de chamar uma integrante da equipe à sala para conversar. A pauta, revelou-se depois, não tinha nada a ver com trabalho. Ela queria apenas saber por que a funcionária estava triste e, mais do que isso, o que poderia fazer na prática para ajudá-la. Era o tipo de liderança que assumia as responsabilidades simbólicas e práticas do cargo, mas que também não tinha pudores em dividi-las. “Não sei o que fazer com esse problema, me ajudem. Este mandato é nosso”, dizia. E, depois de cada pronunciamento na tribuna, sempre perguntava à equipe como havia sido sua fala, em que poderia melhorar.

Quando a sala 903 for reaberta em definitivo, pouco restará de Marielle ali. Ela será ocupada por seu suplente, João Batista Oliveira de Araújo, conhecido como Babá, também do psol, que deverá assumir o cargo nas próximas semanas. Os depoimentos da equipe, agora desfeita, sugerem que em algum lugar o espírito daquele gabinete vai sobreviver:

“Quando soube da morte, pedi que ela descansasse. Mas como uma mulher daquela pode descansar?”

“Quando acabou o evento na Casa das Pretas (na noite em que Marielle foi assassinada), ela me deu um tapão no braço e me disse, rindo: ‘Não é porque você fez um evento bonito desses que você vai achar que não precisa mais trabalhar, né?’.”

“A gente precisa seguir, ela ia pirar se a gente ficasse parado.”

Na sala desocupada, o cheiro forte do pau-santo resiste.

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