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O protagonista invisível

possibilidade de atualização. Com isso, o autor reforça também a sua maneira pessoal, autoral, distinta de narrar a tradição.

Por tudo isso, volto (e voltarei) muitas vezes às obras de Joel Rufino dos Santos!

porHeloisa Pires Lima 37 via Guest Post para o Portal Geledés

Sempre me impressionou a posição do escritor Joel Rufino no cenário literário nacional. Sobretudo, o voltado para o leitor infantil e juvenil. Sua biografia editorial instiga por expor a exceção num país onde a cor do sujeito se relaciona com os impedimentos aos acessos à produção de livros. Revisitada, ele já aparece com destaque na coleção Recreio nos idos dos anos 1970. Os semanais com atividades interativas eram avançados para a época e tinham a coordenação de Ruth Rocha que o convidou. Ele também tomou parte da célebre e muito bem avaliada coleção Taba, publicada a partir de 1982 pela mesma editora, a Abril Cultural. Os fascículos ilustrados reuniam textos selecionados para par com o disco que acompanhava o material. Neste circuito, entre outros, nomes como o de Sylvia Orthof, Maria Clara Machado,Ilo Krugli, Ana Maria Machado. O volume de lançamento é assinado por Joel tendo por parceiro musical, Gilberto Gil a que se seguiram, Caetano, Secos e Molhados, Nara Leão, etc.

No âmbito do reconhecimento pela critica literária o escritor foi capaz de façanhas como a de ser premiado com o Jabuti, em 1979 e 2008 além de ser a indicação brasileira ao troféu Hans Christian Andersen o mais importante prêmio internacional de literatura infanto-juvenil o que se deu em 2004 sendo também um dos quatro finalistas em 2008.

Mas se o espaço das letras nunca esteve imune à crueldade simbólica que age sobre a falta de oportunidades para as populações descendentes do histórico da escravidão, a maioria no país e a minoria nas prateleiras, como perceber a inserção rufinante? Joel ao prefaciar a obra -A mão Afro Brasileira 38- publicada nos cem anos da abolição no Brasil, evidenciou o episódio oitocentista da reação de Nabuco quando chamaram Machado de Assis de mulato genial. Na desconstrução de Joel, era o mesmo que dizer: “Se o maior escritor da língua é um negro, não há literatura”- Esta lógica do passado parece uma camada cultural assentada nos circuitos editoriais inclusive do presente. Cadê a população negra nos elos dessa cadeia? Resultado disto é a raridade do ponto de vista negro disponibilizado nas bibliotecas para adultos ou crianças.

A presença de livros escritos por Joel Rufino, voltada para o público infantil e juvenil, fez a diferença no histórico desse segmento. Primeiramente, porque muitos dos títulos de sua autoria ofertam o modelo de humanidade negra para o leitor em formação. Vale observar o aspecto quantitativo do contexto onde ele desponta. Basta comparar os personagens associados à procedência branca-européia na produção da época, com a negro-africana no exercício de considerar as origens continentais. E quando ocorriam, prevalecia a estereotipia menosprezadora sob os olhares atuais. As Nastácias e os Barnabés, sujeitos caracterizados muito próximos da escravidão frequentaram quase absolutos nos materiais voltados para uma geração. Ao lado deles, uns poucos e recorrentes personagens do folclore. Ainda comparativamente a multiplicidade de situações de uma e outra origem a fornecer elementos para cristalizar o padrão de auto-imagens ou a imagem de um outro direcionou a noção de equidade tão cara para os dias atuais.

Mas é o aspecto qualitativo, expresso no ponto de vista, na abordagem dos temas, que revela a resposta de um escritor diante de sua própria história. Joel Rufino, além de ampliar repertórios de referência negra, inflou de densidade os habitantes de sua literatura. Seus textos foram, tantas vezes, pontes para conversas com crianças ao meu redor, de filho a alunos de sala de aula. O ângulo elaborado pelo historiador soube proteger a afetividade para a referência entrar pelo coração.

Portanto, é a dimensão da biblioteca mais democrática, aquela que disponibiliza também o ângulo de uma existência negra, como o espelho para identidades sociais o que ressalto do escritor em seu curso dentro e de fora das páginas. A propriedade literária, o cuidado gráfico das criações, o preenchimento de espaço no setor ressoa um protagonismo de primeira ordem. A jornada que prende minha atenção é também um binóculo, ou critério, para observar a sociedade que compartilhamos. E no detalhe desse dinamismo, há ainda para fazer notar as tentativas do autor de ultrapassar temáticas tão somente vinculadas à identidade negra. Sem perder de vista a complexidade humana como presente da vida, Joel recupera a procedência negro-africana como uma presença particular. Ele a torna visível, mas jamais restrita como imagem e como assunto. Ele é sábio em escapar das normas e das expectativas impostas aos autores.

Por isso, Joel Rufino me impressiona. Por ser um protagonista que segue articulado a boas histórias, aquelas cheia de contradições, impactante em alguns momentos, pueril em outros tantos. E vale sempre perguntar: qual será o próximo enredo para o encontrar ?

37- Antropóloga, autora, entre outros do Histórias da Preta [Prêmio José Cabassa e Adolfo Aizen da União Brasileira dos Escritores (1999)], e O marimbondo do quilombo- indicado ao Prêmio Jabuti 2011. Também é a consultora para os episódios do Livros Animados - TV Futura, fase 2009-2011, projeto A cor da cultura.
38 - Emanoel Araujo (org)- A mão afrobrasileira. SP: Tenenge, 1988

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