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O rap me salvou

Dexter transformou sua experiência dentro e fora do sistema penitenciário em trabalhos sociais

Por Diana Carvalho, do Ecoa

Dexter (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

O rapper Dexter tem um incômodo. “Para muita gente, quem ouve rap é bandido. Uma vez um cara me falou, em tom de elogio: ‘Porra, negão, fui preso e, quando os homens me ‘pegaram’, eu estava ouvindo ‘Oitavo Anjo’.’ Respondi: ‘Que pena, cara. Você não entendeu nada. A música fala para você não cair nessa. O rap é para salvar vidas'”, contou à reportagem de Ecoa.

O músico fala com a propriedade de quem já esteve dos dois lados: dentro e fora do crime. Em 1998, ele foi preso depois de cometer sete assaltos. Cumpriu 13 anos de reclusão, parte deles na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Foi lá que formou com o também rapper Afro-X a dupla 509-E – o nome faz referência ao número da cela em que os dois ficavam. Com a turnê “Vivos”, eles voltaram recentemente aos palcos. O primeiro show reuniu 3 mil pessoas em São Paulo.

Além da carreira artística, Dexter se dedica a trabalhos sociais que vem realizando há quase uma década com presos, egressos e, mais recentemente, com jovens em situação de vulnerabilidade.

Deficiente, viciado e vicioso

“Quando fui preso, percebi que o sistema carcerário no Brasil é deficiente, viciado e vicioso.” A declaração de Dexter tem respaldo na realidade. O país está entre os que mais prendem no mundo. Isso não significa, porém, que a criminalidade esteja controlada. As cadeias estão superlotadas. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no mês passado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de vagas em 2017 (423 mil) era metade do que o de presos (726 mil).

Nesse contexto, a ressocialização de egressos é um desafio enorme. Afinal, mesmo depois de cumprir a pena são poucos aqueles que conseguem trabalho. Retomar a vida afetiva, ser aceito de volta pelos amigos e a família também são grandes obstáculos. Segundo um relatório publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2015, as taxas de reincidência variam entre 30% e 70%

Dexter também poderia ter engrossado as estatísticas, mas seguiu um caminho diferente graças à atitude de uma pessoa que percebeu o potencial que o artista (não o criminoso) tinha para transformar realidades – a dele e a de outras pessoas na mesma situação.

Dexter (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

Salvo por uma oportunidade

“Consegui sair do sistema por meio do rap. E quantos não têm o rap como apoio? Quantos não têm uma oportunidade? A minha aconteceu na Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos, quando já estava cumprindo o semiaberto. Um juiz me notou numa multidão de homens que contrariavam a lei. Ele viu um cara disposto a mudar e colaborar com a mudança de outras pessoas também.

O nome desse juiz é Jayme Garcia dos Santos Júnior, da Vara das Execuções Criminais da cidade. Meu advogado foi pedir autorização para um show em Brasília e, mesmo com o Ministério Público sendo contra, o doutor Jayme concedeu a minha ida. Ele demonstrou confiança e me chamou para uma conversa. Algo inédito.

Geralmente, os juízes não pedem audiência com um preso, a não ser que ele seja muito importante, que muita coisa esteja na mão dele. Durante a conversa, doutor Jayme me disse: ‘Tenho certeza de que você vai voltar do show. O senhor ama o trabalho que faz e é nisso que acredito. Quando voltar, quero falar sobre um projeto’.

Eu só sabia chorar. Estamos falando de um período em que eu já tinha desistido do crime e acreditava piamente que minha profissão, o rap, iria me tirar da prisão. O doutor Jayme estava devolvendo em amor algo que, em algum momento, usei de maldade. Mas não foi uma maldade fria, calculada, foi uma maldade que nasceu ali, no momento. Depois você pensa e fala: ‘Pô, não precisava, né?’. Mas foi um momento. Meu exílio foi um aprendizado.”

Projetos de ressocialização para presos e ex-detentos

O projeto sobre o qual o juiz queria falar era o “Como vai seu mundo”, que oferecia cursos profissionalizantes, rodas de conversa e apresentações culturais com o objetivo de ajudar na ressocialização de reeducandos.

Dexter aceitou o convite e, ao lado do especialista em mediação de conflitos, Eduardo Bustamente, impactou mais de 800 pessoas durante os anos de 2011 e 2012. Mais 80% delas conseguiram trabalho depois de cumprida a pena.

“Quando participo dessa troca de ideias o que tenho pra contar é exatamente o que as pessoas querem saber: ‘Como o Dexter, preto, pobre, favelado, rapper, ex-detento, execrado por uma parte da sociedade, conseguiu ser o Dexter? Como?’. As pessoas querem saber: ‘Como você se sustenta hoje, mano, se você não usa mais arma?’. Elas querem saber essas coisas porque, no Brasil, isso não é comum. Não é comum preto fazer sucesso.”

Trampo Justo

Em liberdade há oito anos, Dexter continua o trabalho fazendo visitas frequentes a penitenciárias do Brasil. Recentemente foi nomeado padrinho da ONG Responsa, que capacita e acompanha a reintegração de egressos ao mercado de trabalho.

Ao lado do juiz Ibere Dias, o rapper realiza o projeto Trampo Justo. O objetivo da dupla é orientar jovens moradores de abrigos para a inserção no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, estimular empresas a contratá-los. No estado de São Paulo, a cada mês, cinquenta garotos e garotas completam 18 anos e são obrigados a deixar as casas de acolhimento para tocar a vida sozinhos. Desde fevereiro, quando foi lançado, o Trampo Justo já conseguiu emprego para 54 pessoas.

“Quando recebo o convite do juiz Ibere para conversar com adolescentes que não são infratores, que em sua maioria são crias de acolhimento, sinto mais força ainda para continuar. Significa que o meu trabalho não serve só para quem passou ou para quem está dentro do sistema carcerário. A história da minha vida se amplia, é para quem entrou não entrar mais. E para quem não entrou nem se arriscar.”

“Negão, é só deixar o coração falar”

“O que faço é uma troca de ideia. Longe de mim menosprezar um palestrante, mas ele tem uma maneira mais bonita de fazer, ele coloca um PowerPoint na parede, dá números… Eu não. Não tenho isso. O que eu tenho? O coração.

Me lembro de ter perguntado: ‘Pô, [Mano] Brown, e aí essas ideias? Esses discursos, como é que é?’ E ele virou e me disse: ‘Negão, é só deixar o coração falar’.

É a essência. É só deixar o coração. Eu não sou palestrante. Meu diploma quem me deu foi a rua. Se hoje eu sou reconhecido, se ando por aí e gritam: ‘E aí, Dexter, satisfação!’, é o reconhecimento do meu trabalho, que é honesto, digno e tem que ser respeitado.”

“Estamos falando de amor”

“O que procuro mostrar é que a mudança tem que ser você, porque, se você esperar isso do Estado, o Estado não vai te ajudar em nada.

Se em cada show que faço eu conseguir fazer um dos nossos parar pra pensar que uma arma na mão vai acabar com eles, que o estudo e a humildade é que vão levá-los longe, eu já estou salvando uma vida. Foi isso que aconteceu comigo.

As palavras de Brown, de Edi Rock, de cada show a que fui estão impregnadas na minha mente até hoje. Foram palavras que salvaram a minha vida. E até aqui estamos falando do quê? De amor. Quanto vale uma vida?”

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