“O tráfico de escravos não tinha futuro”

O Dia Internacional da Abolição do Tráfico de Escravos, assinalado no dia 23, foi instituído, em 1997, pelo Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).  O historiador e perito da UNESCO, Simão Souindoula, que proferiu uma palestra em Luanda, na União dos Escritores Angolanos, sobre a presença de angolanos no Peru, falou, ao Jornal de Angola, das vantagens de debater o assunto, pois a presença de africanos nas Américas já é do domínio público.

Historiador destacou os traços culturais angolanos que permanecem na América Latina Fotografia: Dombele Bernardo

Jornal de Angola – Por que os Estados africanos devem dar importância à presença de afro descendentes nas sociedades da América Latina?

Simão Souindoula – A abordagem destas questões são fundamentais por razões estratégicas, por um lado, e por outro, porque se pretende, desse modo, consolidar a cooperação com aqueles países, incluindo os Estados Unidos, porque entre os primeiros habitantes que chegaram àqueles países havia africanos. Tem sido também pertinente falar disso porque muitos dos afros descendentes querem saber as suas origens, o que na minha opinião é bom que seja definido.

Penso ser necessário a elaboração de uma nova história para os nossos irmãos que estão nas Américas e Caraíbas e o estabelecimento de uma cooperação mais acentuada entre os Estados, dando primazia aos afros descendentes, devido a exclusão que muitos enfrentam.

Há falta de emprego para técnicos qualificados e podemos recrutar esses quadros para desenvolverem África. Por exemplo, o Haiti mandou técnicos ao Congo Brazzaville, ainda no regime de Lumumba, o que muita gente desconhece. Portanto, o objectivo dessas abordagens está direccionado à cooperação orientada, para que se aproveite, os cérebros, cujas raízes são africanas.

JA – Além do que enumerou, existem, ainda, questões por discutir sobre o tráfico negreiro?

SS – Alguém tem de pagar moralmente pelo tráfico negreiro. Esse debate ainda não surgiu nas Nações Unidas, mas acredito que um dia há-de haver essa discussão a nível internacional com maior substância.
Importa realçar que o tráfico negreiro teve várias rotas, além das mais conhecidas. Existiu a rota brasileira, a argentina, a venezuelana, a cubana, a norte-americana, a peruana e tantas outras.

JA – Que consequências estiveram a favor dos escravos e seus descendentes?

SS – No Peru, entre 1532 e 1628, morreram 40 milhões de ameríndios. O repovoamento foi assegurado com um contingente de negros crioulos e de negros provenientes directamente de África, incluindo Angola.
Essa população de origem angolana teve uma participação activa na mestiçagem com os índios e com os castelhanos porque não havia muitas mulheres africanas, o que permitiu aos escravos acasalarem, dando origem a mestiços. Por isso, a escravatura não tinha futuro, pois não se sabia ao certo quem eram os escravos e quem eram os homens livres.

JA –  É, ainda, visível a cultura africana nas Américas, ou já se diluiu fruto da aculturação?

SS – A cultura sul-americana, como a do Peru, tem elementos antropológicos de Angola, à semelhança do que existe no Brasil. Essa presença pode ser encontrada nos vestígios da congregação de “los Congos”, com a sede no planalto de San Francisco de Paula, no Peru.
Além disso, a devoção religiosa Católica, com a famosa apresentação do escravo angolano Pedro Dalcon, que fixou, em 1951, o Cristo negro, é uma autêntica marca da angolanidade no Peru. A presença de africanos começa logo depois dos primeiros sinais de queda demográfica dos ameríndios, isto no princípio do século XVI, como mão-de-obra capaz de suportar o clima e o trabalho pesado no Novo Mundo.

JA – Quais são os sinais mais evidentes que actualmente confirmam esses acontecimentos?

SS – Em todas as comunidades africanas e afro descendentes houve sempre a necessidade de se eleger um rei do Congo. Esse princípio antropológico deveu-se à estrutura política e social da organização administrativa em África. Ou seja, os escravos procuravam manter os seus padrões de organização apesar de estarem fora das regiões de origem, do continente africano. E não só na América Latina, houve em Nova Orleãs, uma praça Congo, há, ainda, um grande museu sobre a civilização nativa das Américas, sendo um angolano, entre os escravos, o primeiro no Novo Mundo, com o nome de Juan Gaurido. Na Espanha deu-se, também, a reconstituição histórica dessa estrutura política, sendo isso um “trunfo” para reforçar a proposta do Governo em apresentar à UNESCO o antigo Reino do Congo como património intangível da humanidade.
A gastronomia, a religião, as expressões “macuco”, “mundongo”, “marimba”, “muana”, “moleque”, que fazem parte da linguagem veicular dos peruanos são sinais concretos, bem como a antroponímia, a música e os ritos funerários.
A palavra “macuco”, que em quimbundo significa fogareiro, consta do léxico peruano. O mondongo (prato de tripas), comida de escravos por excelência, hoje utilizado no Novo Mundo, é uma especialidade culinária proveniente do Reino do Ndongo. Apesar de uma história pesada, os escravos angolanos conseguiram influenciar algumas expressões da cultura nacional peruana.
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JA – Que aspectos foram realçados na palestra proferida, recentemente na União dos Escritores, para saudar o 23 de Agosto, Dia Internacional da Abolição do Tráfico Negreiro?

SS – Pretendeu mostrar-se os traços culturais angolanos que permanecem nos países da América Latina, propriamente no Peru, e alertar sobre a necessidade de se desenvolverem cooperações culturais modernas com as comunidades que reivindicam origem angolana.
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JA – Na sua opinião quais são as fontes susceptíveis de pesquisa para o enriquecimento da História geral de Angola?

SS- A História de Angola tem cinco séculos oculares. É, ainda, uma história virgem, com a vantagem de ser caracterizada por fontes oculares e não indirectas, entre as quais se destaca a arqueologia.
Uma das zonas, mesmo aqui em Luanda, é a estação arqueológica do Benfica, um espaço importante para a pesquisa da história demográfica de Angola. Neste espaço podemos descobrir que as primeiras comunidades do litoral já trabalhavam os metais, no caso o ferro, pois existem vestígios não só esclavagistas, mas metais e peças de cerâmica que constituem fontes históricas oculares bastante importantes, que nos permitem fazer a reconstituição.

JA – Por coincidência, neste local do Benfica, à beira-mar, está situado o Triângulo Turístico Histórico-Cultural “Kanawa Mussulo”. De que se trata?

SS– Com o projecto “Kanawa Mussulo” queremos trazer à luz novos conhecimentos sobre a escravatura. Por exemplo, o genocídio judeu é conhecido internacionalmente, e há nos Estados Unido um grande museu sobre este genocídio. Mas, no mundo não temos um grande museu sobre a escravatura. Há que haver dois pesos para duas medidas.
Já existe um projecto apresentado, há 15 anos, pelo Governo do Haiti à UNESCO, que mereceu apoio de países africanos. Creio ser no plano histórico um problema, porém, revela-se o projecto mais emblemático da UNESCO porque houve escravatura em toda África, na América, Europa, Ásia, Indico e Pacífico.
O Triângulo Turístico Histórico-Cultural “Kanawa Mussulo” visa, essencialmente, organizar o turismo de memória, através de um roteiro sobre as rotas do tráfico em Angola, desde as regiões da baía de Cabinda, passando pelas zonas de Pinda, Benguela Velha (Porto Amboim) e Benguela Nova (Benguela), e as rotas do tráfico em Luanda, mormente na península do Mussulo. Não é um projecto turístico banal, mas inteligente.
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JA – Sabemos que há a intenção deste projecto propor à UNESCO que a península do Mussulo seja património da humanidade. Quer comentar?

SS – Temos a sorte de ter aqui perto três ilhas, incluindo uma igreja construída no século IXX, antes do início da abolição da escravatura.
Penso ser necessário que se promova o turismo de memória na Ilha do Mussulo. Por essa razão, o projecto “Kanawa Mussulo” atenta à inscrição do Mussulo na UNESCO, como património da humanidade. Com isto, pretendemos criar uma rede de sítios africanos de memória, à semelhança de Gooré, no Senegal, da Cidade Velha, em Cabo Verde, da Ilha de Moçambique e do arquipélago de São Tomé e Príncipe.
Neste perímetro pelo qual se estende o Triângulo Turístico, além da Ilha do Mussulo, há a Igreja da Cazenga e a Ilha dos Pássaros, locais que são potenciais atracções do turismo de memória que consta das nossas preocupações.

JA – Que passos já foram dados para o processo de inscrição do Mussulo a património da humanidade?

SS – O projecto “Kanawa Mussulo” tem feito várias diligências junto da UNESCO, sendo já um parceiro válido, com tutela moral, usando o símbolo da UNESCO nos seus documentos, o que pensamos constituir uma base de todo o processo que visa, inicialmente, firmarmos um reconhecimento a nível internacional para podermos contar com o apoio de instituições similares até chegarmos ao objectivo principal.

JA – Porquê que o projecto “Kanawa Mussulo” pretende investir no artesanato?

SS – Queremos fomentar a criatividade do artesanato, com base na escravatura, pois o que existe é pouco. Vemos a necessidade de se alterar essa realidade que empobrece o artesanato. Faremos com que o tráfico negreiro seja uma grande fonte de inspiração criativa, pois os turistas querem sempre obter obras originais.
Este desafio vai permitir que haja aumento das receitas provenientes do turismo. Os artesãos têm de ter novas apostas e com isso podemos implementar uma das nossas metas, que visa a industrialização do artesanato, nem que tenhamos de encontrar uma fábrica no estrangeiro que produza em série miniaturas de peças artesanais, o que para nós significa desenvolvimento cultural.
Criar um novo centro comercial, que acolha o mercado, passa, também, pelas nossas intenções, pondo de parte a venda na areia, afim de se evitar a desvalorização dos preços das obras. Depois da independência herdamos da ex-Diamang um acervo de peças de artesanato que inundou o mercado em quase todo o país, particularmente com a figura do pensador. É por esta razão que pensamos ser urgente diversificarmos as peças artesanais.

JA – Que figuras, ou peças, devem ser mais exploradas pelos artesãos?

SS – O caçador Tchimbinda Ilunga. Ao contrário do que muita gente pensa, esta figura, e não o pensador, é a mais conhecida no exterior. Infelizmente, essa peça hoje, na Europa, concretamente em Paris, já atingiu o custo de um milhão de euros.
No circuito internacional, e no plano estético, é o caçador Tchimbinda Ilunga a peça mais cara que, paradoxalmente, aqui no nosso país custa mil kwanzas.

Fonte: Jornal de Angola

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