Pandemia reforça que determinadas vidas não valem nada, diz escritora

Enviado por / FonteFolha de São Paulo

A morte de João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, baleado dentro da casa de seu tio em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, durante uma operação da Polícia Federal com apoio das polícias Civil e Militar fluminenses, é um reflexo do que a escritora Bianca Santana, doutora em ciência da informação e mestra em educação pela USP, classifica como um genocídio da população negra no Brasil.

Integrante da Uneafro Brasil e da articulação da Coalizão Negra Por Direitos, Bianca participou da live Ao Vivo Em Casa promovida pela Folha nesta quarta-feira (20) e criticou duramente a ação policial no Rio.

“Imagina o seu filho, dentro da sua casa, brincando com os primos, e o Estado brasileiro abrir a porta e atirar na sua criança. Não é acaso, não é bala perdida, não é violência. É uma política deliberada do Estado brasileiro”, afirma. “Há um genocídio em curso no Brasil. O movimento negro denuncia esse genocídio há muitos anos.”

Ao usar o termo genocídio, a escritora defende que é preciso dar esse nome para entender que o número de jovens negros mortos no Brasil reflete o racismo estrutural presente no país.

“Se a gente não nomear a coisa corretamente, se a gente não perceber que é uma ação estrutural e que, infelizmente, repete-se no Brasil todos os dias, a gente não vai interromper esse absurdo.”

Bianca lembra, ainda, que há menos de um ano a garota Agatha Vitória Sales Félix, 8, também era vítima de uma ação da polícia, ao ser morta por um tiro nas costas quando estava dentro de uma Kombi que transitava pela Fazendinha, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

“No Brasil, o número de jovens negros exterminados todos os dias é imenso. A gente tem um jovem negro assassinado a cada 23 minutos no país. O Senado brasileiro já reconheceu isso em uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito”, diz ela.

De acordo com a escritora, de todas as balas perdidas que atingem crianças no Rio de Janeiro, 91% atingem crianças negras.

“Não tem nada de perdido nessa bala. Ela é uma bala que tem um alvo específico. E, nesse período de pandemia, fica ainda mais grave e desolador a gente perceber o quanto determinadas vidas não valem nada.”

Durante a live, Bianca também citou um estudo da pensadora Sueli Carneiro, de quem ela está escrevendo uma biografia. Segundo a escritora, Carneiro escreveu em sua tese, em 2005, sobre dispositivos de racialidade.

“São várias normas, ditas ou não ditas, que estabelecem um ‘eu hegemônico’, que merece viver, em contraposição a um outro.”

Como exemplo, ela cita o fato de que, até o momento, nenhum dos quatro hospitais de campanha construídos em São Paulo durante a pandemia do coronavírus são nas zonas leste e sul da cidade.

“A zona leste de São Paulo não tem leitos suficientes para atender a população. A zona sul também não”, diz. “E por que a gente não tem hospital de campanha nessas regiões? Porque a política do estado é fazer viver determinados sujeitos e outros sujeitos, nesse caso com o signo da negritude, deixar morrer.”

As transmissões do Ao Vivo em Casa têm exibição tanto no site da Folha quanto no canal do jornal no YouTube. De segunda a sexta-feira, a série de lives traz entrevistas, serviços, dicas e apresentações musicais, entre outros conteúdos, pela internet.

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