sábado, dezembro 3, 2022
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Pensando cá com minhas máscaras

No imaginário da minha infância, nas minhas brincadeiras de mocinho e bandido, aqueles que usavam as máscaras eram os bandidos e, no meu mundo perfeitamente dicotômico, quem sempre perdia eram os bandidos. Aos oito anos de idade isso bastava para meus ideais infantis. Não passava pela minha cabeça que as máscaras pudessem ter outros significados e serem símbolos tão expressivos. 

Aos nove anos descobri os super-heróis e os super-vilões. Surge aí a primeira subversão da ordem do meu mundo dicotômico: os dois lados usavam máscaras ou disfarces; os super-heróis e os bandidos tinham que esconder sua identidade. Os bandidos obviamente senescondiam porque eles personificavam o mal. Eu, pleno das minhas certezas que a idade me proporcionava, torcia para que o Super-Homem e seus pares não só ganhasse, mas também aniquilasse os oponentes, afinal o Curinga e  os outros vilões eram o lado mal da estória. Contudo ficava na minha cabeça uma das primeiras inquietações da minha vida: Porque os super heróis tinham que esconder sua identidade? Eles têm super poderes; o Super-Homem teme apenas Kriptonita (que nem consta na tabela periódica) e o Sol Vermelho (distante anos-luz de nós); o Homem-de-Ferro tem uma armadura praticamente indestrutível, o Batman possui um cinto de utilidades, o brasileiríssimo Morcego-Verde consegue ser super herói mesmo na vila Xurupita, o Homem-Aranha consegue potencializar os poderes de um simples inseto, mas nenhum deles conseguem vencer a angústia da pulsão de morte, afinal quando assumem uma identidade secreta, estão se escondendo de quem?. Os super heróis, mesmo (re)vestidos de tanto poder, são vulneráveis, refletindo a nossa própria vulnerabilidade diante da Morte. Nos colocando na condição dos super-heróis, a máscara serve para nos esconder, fazer com que façamos  parte de um mesmo TODO, nos protegendo dentro de um anonimato. Afinal quando o Homem-Aranha tira a máscara ele volta a ser o fotógrafo Peter Parker, o Batman volta a ser o Bruce Wayne e o Morcego-Verde volta a ser o Zé Carioca, mais um dos heróis que vivem em uma Comunidade Carioca (mesmo que todos saibam quem ele é, o que importa é o símbolo para o próprio Morcego Verde). Esse mesmo anonimato que protege os heróis expõe o cidadão comum ao inimigo da impessoalidade e todos os males que isto pode acarretar.

Aos dezenove anos, quando entrei na faculdade e iniciei meu percurso na Medicina, me tornei um mascarado; Talvez o termo mais adequado seja multi-mascarado; Mal saído do ensino médio me vesti de médico e coloquei a máscara de um conhecimento que ainda não tinha, mas como ator de um teatro grego comodamente passei a usar esta máscara de “doutor” que ainda não me pertencia, (mas que eu desejava)  e uma outro de TNT que me protegia das doenças respiratórias; Doenças que supostamente o OUTRO poderia transmitir. Poucas vezes me lembro de ser instruído por algum professor a utilizar máscara quando eu ou um dos meus colegas estudantes estava resfriado, porém se o “Doente” fosse o OUTRO, muito especialmente se este outro fosse diferente do padrão que, imodestamente, queríamos que eles fossem, deveriam utilizar máscara. Esta máscara interposta entre nós, muitas vezes já era uma espécie de segregação racial-genêro-econômica, afinal por muitas vezes ao percebermos sinais de doenças respiratórias em pacientes diferentes do que esperávamos, exigíamos o uso da máscara, mas se o paciente fosse mais “formatado”, às vezes deixávamos a obrigatoriedade desta máscara de lado. Os vírus, fungos e bactérias, mesmo com seu potencial nocivo, julgam menos do que nós.

Em 2014-2015 tivemos uma enorme onda de protestos que resultaram na destituição do poder da Presidente Dilma Roussef. Dentro deste processo houve a ação dos “Black Blocs”, grupos mascarados produziram ações violentas. Utilizavam das máscaras para garantir o anonimato e assim impedir que fossem individualizados como sujeitos. Estabelecendo um paralelo ao que ocorre nas brigas de torcida, ocorre uma catarse violenta em que os envolvidos poderiam no dia seguinte, assim como os super-heróis e Super-vilões, voltar a prática da vida cotidiana, seja para o bem ou para o mal. 

Indiscutivelmente nos dias atuais a utilização da máscara se faz necessário por razões de proteção individual e coletiva contra a COVID19, porém este uso das máscaras não protege a população contra a violência social que ocorre cotidianamente; As mulheres agora se tornam alvos ainda mais fáceis dos seus algozes, afinal a máscara que protege a mulher contra o COVID19, acaba por despersonalizá-la ainda mais, as crianças são vítimas de violência e abusadas sexualmente de maneira ainda mais frequente, os idosos são muitas negligenciados de forma mais corriqueira, afinal o isolamento social faz com que os gritos de socorro que normalmente já são ouvidos por poucos, agora se tornem completamente mudos. As redes de assistência que se prestam ao auxilio à população em risco se encontram de portas fechadas ou com acesso restrito, estreitando horizontes de vida e perpetuando violências. Não se pode negar que existe ações de combate a disseminação ao Corona-Vírus, ainda que ao custo de ações de proteção social. Parece que o poder público quer reforçar a importância de lavar as mãos. Assim como fez Pôncio Pilatos… 

Os adolescentes, mascarados ou não, já sofrem com uma sociedade que não consegue compreende-los e inseri-los dentro de um contexto social que permita a vivência das liberdades plenas e da possibilidade de exercício de suas plenas potências. Agora que o acesso ao espaço físico da escola é vedado por razões de saúde pública e a aquisição ao conhecimento formal se dá quase que exclusivamente via internet, os excluídos de sempre são mais uma vez colocados no final da fila (inclusive literalmente). A maior parte da população brasileira, adolescentes ou não, acessam internet pelas pequenas telas do celular ou dividindo notebook com toda família em uma internet pré-paga de baixa ou média qualidade. Uma pequena casta abastada, formada em sua grande maioria por adolescentes brancos, morando fora do espaço das comunidades da periferia, podem acessar a educação formal em notebooks individuais com internet de boa ou alta qualidade, assistindo aulas dos seus próprios professores mantendo um ambiente mais próximo ao vivido cotidianamente. Os jovens da periferia, mesmo aqueles que não precisavam exercer nenhuma atividade remunerada antes da pandemia de COVID19, agora são expostos a uma nova realidade. Em função da supressão de muitas atividades econômicas, suspensão esta que se fez necessária como forma de controle a pandemia, estes jovens tem a renda individual/familiar reduzida e, obviamente, tiveram que redimensionar seu gasto com telefonia e internet. Redimensionamentos exatamente no momento em que a internet / telefonia se tornaram mais importantes. Desta forma a velha peneira que controla o acesso ao ensino público superior de qualidade, agora também “penera” o acesso a cultura e ao entretenimento, fazendo com que esses acessos tornem se ainda mais estreitos.

 Não fosse isso tudo bastante, há outro ponto que merece uma reflexão mais profunda. Para as pessoas que vivem nas periferias: ignoradas de forma tão continuada e repetida pelos poderes públicos, excluídos dos poderes de decisão, alijados de direitos básicos há tanto tempo, vítimas das mais variadas violências qual diferença faz mais esta ameaça à vida delas? Não quero minimizar o poder destrutivo que o COVID19 tem nas populações mais pobres, excluídas e marginalizadas. Basta lembrar que a taxa de incidência nas periferias das grandes cidades parece ser menor (Reforço a palavra parece, afinal nos grupos socialmente excluídos, nas populações indígenas, na população negra e na população LGBTI a testagem, já normalmente baixa para COVID19, é ainda mais baixa), mas a mortalidade é MAIOR. Maior também é a dificuldade em conseguir uma vaga de UTI, assim como é menor a chance de transferência para um centro de maior complexidade científica. 

A nossa população multi vulnerável convive há tanto tempo com as violências social, policial, econômica, doméstica e infantil que esta nova preocupação com a COVID19 é só mais uma para quem já tem tantas urgências. Diferentemente, para àqueles que não precisam viver o cotidiano das violências e a tensão provocada pela COVID19 está no topo das preocupações, ou pelo menos lá na parte de cima da lista, usar a máscara tem uma relevância diferente. Portanto, mesmo o “usar a máscara” é diferente para populações em diferentes situações econômicas ou sociais, tanto que a para uns pode ser fashion e customizada ou pode ser feito pelas costureiras da comunidade. A diferença é o que representa para quem usa e não a estampa ou o tecido.

Psicanaliticamente, quando somos despojados de tudo, resta-nos somente a PERSONA; A utilização das máscaras acaba por retirar, ainda que transitoriamente, uma das poucas coisas que sobraram para quem não tem mais nada: a IMAGEM que a representa. Assim, talvez torne-se mais fácil entender por que o isolamento social desejado pelos governantes muitas vezes não é alcançado. Afinal as demandas reprimidas da população há tanto tempo também não foram e, subjetivamente ou até objetivamente, seja este o momento da cobrança.

Sim, por motivos de saúde é urgente que usemos máscaras, mas também que as escolas públicas consigam ser mais eficazes para reduzir a distância entre o ponto de partida da corrida de ricos e pobres, que a saúde pública possa garantir que a esperança de vida em tempos de pandemia seja similar independente do cartão apresentado ser o da Unimed ou o CNS. Também é urgente que as forças policiais abordem as pessoas da mesma forma, seja no asfalto ou na favela, no shopping ou na quebrada; Urge que a rede de atenção social possa estabelecer laços bem mais fortes que os que prendem as máscaras ao rosto. 

Enquanto escrevo este texto assisto o jornal pela televisão e lá o Presidente Jair Bolsonaro, o Governador de São Paulo João Dória, o Prefeito do Rio Marcello Crivella, o Governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel e o Governador do DF Ibaneis Rocha apareceram de máscaras. Imediatamente sou remetido aos meus oito anos de idade, época da minha vida dicotômica: nos nossos “Bang-Bang” os bandidos usavam máscaras. Muita coisa começou a fazer sentido…

 

Homero Flávio Peixoto Gonçalves

23/05/2020


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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