Pensar o digital como território

13/08/26
Por Nina Santos

Milton Santos nos deixou muitos legados a partir dos livros que escreveu, das entrevistas que concedeu, das palestras que proferiu. Isso transformou profundamente a forma de olhar o mundo no tempo em que ele viveu. Mas, talvez, seu maior legado tenha sido o de nos deixar ferramentas para transformar o mundo mesmo um quarto de século depois da sua partida.

No centenário de Milton, é impressionante ver a atualidade da sua obra e o quanto ela abre de horizonte para o que vivemos hoje, em 2026. O que quero propor neste breve texto é que olhemos os desafios digitais hoje colocados a partir da obra de Milton Santos.

Estamos em um momento histórico muito desafiador. Momento este em que a nossa capacidade, enquanto sociedade, de conhecer e reconhecer o que se passa no mundo encontra-se em profunda e rápida transformação. Transformação essa que cria uma série de novas possibilidades, diversidades e faz emergir vozes antes silenciadas. Por outro lado, cria um nível de fragmentação da realidade que coloca imensos desafios à constituição de um espaço comum de vivência e de sociabilidade.

Milton Santos nos dá um arcabouço teórico-metodológico amplo e cheio de possibilidades para olhar para este desafio, especialmente através da ideia de território e seus desdobramentos.

Nos tempos atuais, em que ainda vivemos uma certa contraposição entre a ingênua ideia de uma tecnologia digital neutra e o fatalismo de um olhar que vê no digital o fim da civilização, precisamos pensar o digital enquanto território, enquanto espaço de construção e de disputa. Não nos é mais útil pensar em dicotomias que já pouco fazem sentido: o virtual e o real, as redes e as ruas. Vivemos em uma sociedade em que o digital é onipresente e perpassa todo nosso cotidiano. Isso significa que essa nova dimensão das nossas vidas precisa ser pensada não como algo externo a ser conectado – ou desconectado – ao que já existia.

Precisamos olhar o digital como o que Milton Santos chama de território usado, a união entre sistemas de objetos e sistemas de ações. Precisamos parar de ver o digital apenas como sistema de objetos, como se isso desse a ele valor próprio. E como se isso significasse ainda que, o tempo todo, esse sistema de objetos precisa se ligar a um sistema de ações que está necessariamente fora dele.

Isso nos leva a interpretações extremamente díspares e, ao meu ver, igualmente deslocadas do problema. Foi assim que, em dez anos, passamos de uma visão do mundo digital como salvador da democracia, onde os povos oprimidos se levantariam contra seus opressores, para uma percepção da internet como cemitério das nossas democracias.

Essa visão limitada do ambiente digital nos leva a leituras muito parciais e equivocadas porque ignoram, primeiro, que o digital modifica o próprio sistema de ações e, segundo, que a combinação entre esses sistemas de objetos e de ações pode se dar de diferentes maneiras, inclusive no digital.

Disputar a construção do território digital me parece nossa única possibilidade de encontrar novas maneiras de construir uma sociedade mais democrática, mais justa e mais diversa com as bases que temos hoje.

Milton Santos olhou o mundo a partir do seu lugar e do seu tempo, mas deixou um legado que nos permite construir novos olhares até hoje. Precisamos nos dar ao trabalho de ir além de denuncismos e fatalismos rasos e fáceis. Construamos possibilidades, utopias, novos modelos de comunicação e de sociedade pelos quais possamos e queiramos lutar. Acho que este, talvez, tenha sido o maior legado que meu avô nos deixou.


Sobre a série especial 100 anos de Milton Santo, exclusiva no Portal Geledés

Neste ano de 2026, celebramos 100 anos do nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais do país. Geógrafo, escritor e professor, sua obra aprofunda conceitos fundamentais para compreender o espaço geográfico, discute a globalização e antecipa reflexões críticas sobre tecnologia, bem como expõe a urbanização desigual e o protagonismo das periferias na produção de conhecimento.


A grandeza de suas contribuições foi reconhecida nacional e internacionalmente. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Titular do Departamento de Geografia na Universidade de São Paulo, Milton Santos recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades no Brasil, na França e na Espanha. Em 1994, foi condecorado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, grande honraria da geografia mundial, e um ano depois, em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti pela obra “A Natureza do Espaço”.

Em homenagem ao seu legado, o Portal Geledés apresenta uma série semanal de artigos inéditos, escritos por pessoas que o estudam, desenvolvem pesquisas a partir de sua obra ou se relacionam politicamente com suas posições e falas. Ao final, os textos farão parte de um dossiê que celebra Milton Santos. Agradecemos a cada autor e autora que aceitou fazer parte desta celebração.


Sobre Nina Santos

Nina Santos é secretária adjunta de Políticas Digitais na Secretaria de Comunicação da Presidência da República e neta de Milton Santos. Tem doutorado em comunicação pela Universidade de Paris e atua como pesquisadora nesta universidade e no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital. É professora de pós-graduação em cursos da Fundação Getúlio Vargas e da Sorbonne Nouvelle. Além disso, é autora do livro Social media logics. Visibility and mediation in the 2013 Brazilian protests” (Palgrave, 2022) e vencedora do Prêmio de Tese da Universidade Paris II e do Prêmio Todas, da Folha de S. Paulo com Alandar, na categoria “Democracia, informação e liberdade de expressão”.


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