PM mata jovem negro com tiro no peito na zona sul de São Paulo

OUTRO LADO: Policial diz ter disparado após ocupante de moto levar mão à cintura como se estivesse armado; familiares negam e apontam discriminação

O autônomo Ricardo Lopes, 46, diz ter feito o que pôde para evitar que o filho sofresse abordagens violentas da polícia por ser negro e morador da periferia. Na véspera de Natal, ele e João Richard de Oliveira Gama Lopes, 25, deixaram a casa própria em uma favela do Jardim Souza, na periferia da zona sul, e se mudaram para um imóvel alugado no Jardim Riviera, na mesma região de São Paulo.

Por volta das 22h45 de domingo (15), o jovem foi baleado no peito por um policial militar no Jardim Ângela, quando passeava em sua moto com um primo de 17 anos.

“Saímos para evitar esses policiais maldosos e dar uma vida melhor para minha família. Não teve nem tempo de curtir a casa, porque os policiais tiraram a vida dele”, disse o pai do jovem para a Folha, horas depois de enterrar o filho nesta terça-feira (17).

Questionada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) não respondeu sobre o motivo de o PM ter atirado. Disse apenas que no local foi encontrado um revólver calibre 32.

Familiares dos jovens negaram que eles estivessem armados. Para eles, João Richard foi morto por ser negro e dono de uma motocicleta potente —uma Triumph Tiger 800, modelo 2019, que custa cerca de R$ 50 mil. Ele era motoboy.

O cabo que efetuou os tiros contra João Richard não prestou depoimento formal, respaldado no Código de Processo Penal, que dá ao direito ao PM se pronunciar apenas na presença de um advogado. Ele, que assumiu ter feito os disparos, requisitou ser atendido pela Defensoria Pública.

O policial militar que apresentou a ocorrência disse que o autor dos disparos não usava câmera no momento da ação.

Conforme o boletim de ocorrência, policiais militares suspeitaram dos dois homens em uma moto e passaram a realizar um acompanhamento, que durou até uma base da PM na estrada do M’Boi Mirim, quando um policial em serviço atirou.

O policial militar que efetuou os disparos declarou, informalmente, que o ocupante da garupa da motocicleta sinalizou sacar uma arma, levando a mão à cintura. O PM deu quatro tiros, mas afirmou que não viu nenhuma arma com os dois homens.

Ainda segundo o registro do caso, policiais encontraram uma arma no mesmo trajeto realizado por João Richard após os disparos efetuados pelo cabo. O revólver aparentava péssimo estado de conservação e estava sem munições, diz trecho do documento.

Atingido no peito, o jovem foi levado para o Hospital do M’Boi Mirim.

Em depoimento, o primo de João Richard, que estava na garupa da moto, relatou aos policiais civis que eles retornavam de um baile funk quando passaram por um carro da Polícia Militar, que deu ordem de parada, mas seu primo acelerou. Nas proximidades da base da PM, viaturas bloqueavam a passagem, e João Richard subiu na calçada com a moto. Foi nesse instante que o PM teria atirado.

O adolescente negou que eles estivessem armados. Também não soube informar o motivo de seu primo não ter parado.

De acordo com o boletim, a ocorrência foi às 22h45. No entanto, a Polícia Civil comunicou ter sido acionada à 1h24, com chegada ao local do crime às 2h27 de segunda-feira (16).

Familiares e amigos fizeram um ato na região da avenida Guarapiranga na segunda. Eles incendiaram objetos e fecharam uma avenida. Imagens publicadas nas redes sociais mostram o momento em que policiais militares agridem pessoas que estavam no local. Um PM chegou a chutar uma pessoa que havia caído no chão. A corporação diz que foi acionada e adotou providências para conter a ação e desobstruir a via. Segundo a PM, as imagens citadas pela reportagem são apuradas por meio de um Inquérito Policial Militar.

Um tio de João Richard chegou a ser detido. Segundo os familiares, ele ficou cerca de cinco horas na delegacia até ser liberado. Sua prisão teria ocorrido após dar entrevista a uma emissora.

Em nota, a PM disse que as imagens das câmeras operacionais são analisadas. Conforme a corporação, foi aberto Inquérito Policial Militar para apurar o fato.

A SSP declarou que o caso foi registrado como morte decorrente de intervenção policial e ato infracional análogo à posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito. A morte é investigada pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa. O adolescente foi liberado ao curador após assinatura do Termo de Compromisso e Responsabilidade do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

Procurado, o ouvidor da Polícia, o professor Claudinho da Silva, disse que o órgão acompanha o fato. Silva disse ter sugerido o afastamento dos policiais envolvidos na ocorrência de suas funções operacionais. Para a Polícia Civil foram requisitados laudos necroscópicos e de balística, além de imagens de circuitos de segurança nas imediações.

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