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Podemos sorrir, nada mais nos impede

Oitenta e dois jovens morrem todos os dias. São muitos aviões para chorar

Por Ana Paula Lisboa, do O Globo 

Parece redundante dizer, mas é difícil a vida de quem sofre. Se diz que a depressão será em poucos anos a doença que mais matará no mundo. O Facebook está lotado de páginas “da depressão”, e chego a arriscar que sofrer virou modinha, ser feliz não dá like como antes.

Eu, que tenho medo do sofrimento, tomo cuidado pra não enlouquecer. Enquanto não dá para jogar tudo pro alto e passar a vender brigadeiro, fazer uma horta de produtos orgânicos ou vender miçangas, eu sigo nesse mundo louco fazendo ioga e meditação uma vez por semana. Para a maioria de nós é assim, poucos têm o privilégio de deixar seus empregos e fazer um mochilão pela América Latina vivendo das coisas que a natureza dá. Mas confesso que minha meta é terminar a vida em Arraial do Cabo, abrir uma pousada e aplaudir o pôr do sol todos os dias, com gratidão.

A sofrência é o ritmo mais cantado no país e tem no cantor Pablo seu maior ídolo, destruidor de corações com “Homem não chora”.

Eu prefiro Marília Mendonça. Eu lembro de vê-la a primeira vez, linda, sentadinha num banco, no centro do palco, no centro de tudo, no maior estilo Acústico MTV. Coxas grossas e uma voz potente. Diferente da maioria das cantoras da “nova MPB”, que exibem braços magros e um estilo blasé, Marília é um mulherão de 21 anos. Existe uma música da Marília Mendonça para cada mulher, para cada dor. Saber se você faz amor comigo “como faz com ela”, “hoje somos só metade”, “infiel”, “folgado” e “meu cupido é gari”, para citar alguns clássicos. Entorpecentes pesados!

Outro dia, no caminho do ponto de ônibus da Avenida Brasil até em casa, cinco bares diferentes tocavam Marília Mendonça.

Daí a surpresa nos ouvidos ao escutar os versos que dão título a essa coluna. Me pareceu estranho poder sorrir depois de um “acidente” de avião. E mais estranho foi ver a cobertura do velório na hora do almoço, jornalistas chorando entrevistavam pessoas que só sabiam chorar, três carretas carregando corpos, o logo de uma empresa alimentícia na carreta com corpos, eu, a TV e um prato de comida.

E o 29 de novembro foi eleito o dia oficial da tragédia: o processo contra os PMs acusados de matar o menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, com um tiro de fuzil na cabeça, em abril de 2015, no Complexo do Alemão, foi arquivado. Além disso, fez-se exatamente um ano que cinco jovens foram mortos depois de terem o carro alvejado por 111 tiros, na Pavuna.

Além dos 71 mortos na Colômbia, 82 jovens morrem todos os dias. São muitos aviões para chorar. São muitas carretas.

Daí um sambista me diz que podemos sorrir, nada mais nos impede.

Faz três semanas seguidas eu frequento o “Samba da benção” em Paraty. Óbvio que minha escrita aqui é totalmente de turista encantada, lugar em que frequentemente gosto de estar, cansa ter que ser sempre entendedora das coisas. Longe de mim me aproximar dos relatos de quem fala de samba, como o professor Luiz Antonio Simas ou da maravilhosa Flávia Oliveira. Eu fui só olhar…

A energia diferente dos sambas da Pedra do Sal ou do Cacique de Ramos, em que, mesmo sambando, se entende que naturalmente o canto é a parte mais importante. A gente coloca os braços pra cima e brada ao “destino, por que fazes assim? Tenha pena de mim, veja bem, não mereço sofrer”.

Aqui, não: a dança é parte integrante e forte do samba, com espaço para o carro abre-alas e para a porta-bandeira. Nem tanto, confesso. Mas há as meninas, umas quatro ou cinco, que assumem seus lugares de passistas em frente à mesa e de lá não saem, guardando o recuo da bateria.

Nas noites quentes na Praça da Matriz, os passistas, em sua maioria descalços, fazem uma poeira vermelha subir. A poeira é rapidamente absorvida pelos próprios corpos molhados de suor.

Eu, que era triste, só podia observar a alegria na primeira semana e sorrir de leve.

Na segunda semana eu já sabia cantar a música autoral, ficou na cabeça “no 13 maio de 1888 foi proclamada a libertação. É tudo mentira ou verdade sim, se for verdade, tire o resto na corrente que sobrou em mim”. Eu era um sorriso culpado.

A terceira semana me pegou pelo pé, “não dá pra fugir dessa coisa de pele sentida por nós, desatando os nós”. Eu era sorriso e samba.

 

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