Por que as ofensas a Jorge Ben escancaram o racismo à brasileira

Jorge Ben foi chamado de “crioulo sujo” e quase saiu no tapa durante show no Circo Voador, no último sábado (13), no Rio de Janeiro.Os  casos de racismo, antes sofridos de forma velada e disfarçada nas relações da falsa cordialidade, agora estão mais explícitos.

Por Luiz Roberto Lima, do  HuffPost Brasil

É estranho, mas de alguma maneira isso é positivo:

É importante que os brasileiros racistas mostrem a sua cara. Na verdade, é fundamental. Pois temos que desconstruir o mito da democracia racial e harmônica, baseadas nas teorias da relação cordial entre os escravos e os senhores de engenho, quando cada um tinha o seu papel definido. Assim senhores e escravos podiam “viver juntos”.

E infelizmente, acredita-se nisso até os dias atuais. Então pra que vamos falar de racismo se vivemos bem assim?

A construção do mito da democracia racial é tão profunda e enraizada na cultura brasileira, que qualquer caso de racismo é dissuadido veemente. Há uma máquina sistêmica desde dos tempos coloniais que desconstroem denúncias e deslegitimam o discurso sobre racismo.

As pessoas até sabem que existe, mas preferem fazer de conta que não. Pra que vamos falar disso agora? Ignora.

A imprensa aborda como fato isolado. Na Justiça, as vítimas geralmente são tratada como loucas e/ou descontroladas; e são raros os casos de condenações. A apresentadora Maria Júlia Coutinho, conhecida como Maju, sofreu ofensas raciais pelo Facebook. Foi a primeira vez que a maior emissora do Brasil se posicionou. Maju disse que os ‘Preconceituosos ladram, mas a caravana passa’. Na verdade é ao contrario, “a caravana passa, mas os preconceituosos permanecem -, destilando seu ódio contra os negros.”

Embora o Brasil tenha adotado políticas de cotas, dos 39 ministérios do governo federal, apenas uma pasta é ocupada por uma negra, – e também pudera – a Secretaria da Igualdade Racial -; sendo que mais de 50% da população brasileira é negra.

Segundo a Anistia Internacional em “2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.”

De 2004 a 2007 no Brasil 170 mil pessoas foram assassinadas, enquanto que no mesmo período, somando as mortes ocorridas em países em guerra (Iraque, Sudão, Afeganistão, Colombia, Rep. Dem. Congo, Srilanka, India, Somália, Nepal, Pasquistão, Caxemira, Israel/Territórios Palestinos) foram 194 mil mortos, de acordos com os dados da Anistia. No Brasil somente em Maceió a taxa de homicídio para cada 100 mil habitantes é de 372,6 negros para 24,3 brancos. É inegável que existe sim a cultura de extermínio da juventude negra.

Recentemente, no intervalo do SuperBowl, a cantora Beyoncé fez história ao fazer um show político denunciando a violência contra a população negra na sociedade americana com a performance Formation.

Segundo o mapa da violência americano a polícia dos EUA matou uma pessoa negra a cada 26 horas em 2015. Segundo estes dados, um negro tem 3 vezes mais chance de ser morto do que um branco. E no ano de 2015 totalizou 336 mortos no país.

No Brasil o racismo é secular, e a maior dificuldade em se combatê-lo sempre esteve no fato de a sociedade brasileira afirmar que ele não existe. É importante que isso mude, quanto mais explícito mas fácil de combater.

O Racismo começa em coisas “banais” e subjetivas, como um lacre que é colocado apenas em produtos para negros ou pela falta destes produtos nos mercados, e vai até ao extremo do assassinato dos jovens negros, que tem sempre sua imagem associada a bandidos e a pessoas de má índole, mau caráter.

Devido a influência que os artistas, esportistas e políticos exercem sobre a sociedade, seria crucial que eles se posicionassem e levantassem suas bandeiras de luta.

É necessário remover o véu, e colocarmos na pauta.

Passou da hora da classe artística brasileira abordar a questão abertamente, e isso inclui, principalmente a negra. É necessário parar de fazer de conta que o racismo no Brasil não existe, pois os artistas negros também não estão imunes a ele.

 

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