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Por um feminismo autocrítico e consciente

Por um feminismo autocrítico e consciente

Precisamos lidar de maneira diferente com as manifestações machistas de nossos companheiros, e de todos os homens com que convivemos. Falo do nosso compromisso em sair da lógica do “fez uma vez, será julgado pra sempre”, essa visão que nos leva a ver um homem a partir de uma ação machista que ele cometeu, ignorando a possibilidade de mudança e agrupando-o em uma categoria criminosa, já problemática, que reverbera nesse sujeito tensões e receios com o movimento feminista ao invés de aproximá-lo.

por Luádia Mabel via Guest Post para o Portal Geledés

Como apontou Angela Davis em seu magnífico discurso feito na UFBA, em Salvador: precisamos pautar um feminismo abolicionista ao invés de nos prendermos em lógicas carcerárias. Colocar em questão o feminismo carcerário está além de falar da problemática que envolve as leis e enquadramentos destinados a homens que cometem violências físicas contra mulheres. Embora nessa questão também hajam muitas adversidades a levarmos em conta, gostaria de comentar a respeito desses sistemas prisionais que temos construído em nossos discursos, rotinas e maneiras de interpretar os caminhos a serem trilhados para chegarmos ao projeto de sociedade que buscamos construir: com pessoas libertas e donas de si mesmas.

Desde a infância convivemos com regras, chantagens psíquicas e com o enquadramento de cada uma/um de nós em caixas fixas e sufocantes rotuladas desde como devemos ser, nos comportar, até a maneira que devemos tratar as outras pessoas de acordo com a caixa em que elas estão. Assim, homens aprendem a se comportar de maneira estereotipada como homens, e a como tratar mulheres sempre na busca por sustentar a posição em que essa masculinidade deve situá-lo.

É importante que incessantemente voltemos à busca por uma compreensão totalitária do processo de adoecimento que essa questão envolve. Nós, mulheres, não adoecemos sozinhas. Há homens que também estão nessa situação de ignorância perante a própria identidade e as obrigações impostas pelo meio social em que estão inseridos. Para eles existe impasse e sofrimento, e tirar a nossa exclusividade enquanto esmagadas pelo machismo também diz respeito a tornar as nossas lógicas cada vez mais humanizadas e pautadas em equidade.

Por isso, enquanto militantes compromissadas em garantir o bom senso e progresso do movimento feminista, há a obrigação de compreendermos nossos companheiros enquanto parte do caminho que buscamos trilhar para a libertação. Isso envolve incluí-los em alguns eventos, explicar e debater com paciência antes de atirar acusações e frases feitas, e, principalmente, convidá-los a construir espaços de discussão junto conosco.

Além disso, é necessário repetidamente nos lembrarmos de como se moldam as lógicas capitalistas em que vivemos desde sempre, e que tem natureza e estrutura definitivamente opressoras.

Quando nos deparamos a uma manifestação machista precisamos compreendê-la em totalidade, levando em conta diversos outros tipos de lógicas que podem atravessar nossas conclusões a respeito. Desde que começamos a nos organizar enquanto mulheres feministas houve, por exemplo, uma dificuldade das mulheres brancas em ligar ao racismo muitas das suas acusações ao sexo oposto. A questão fica mais evidenciada quando falamos de ideias presas ao imaginário social como a de que homens negros são menos ingênuos do que os brancos, já que não se encaixam no padrão romantizado e europeu que nos leva a enxergar os companheiros brancos enquanto menos propensos a violentar e, portanto, mais cavalheiros, compreensivos e merecedores de atenção.

Quando nos propusermos a discutir abertamente e sem estipulações prévias os males que vem junto com as questões sexistas, conseguiremos perceber se ao julgarmos um acontecimento estaremos deixando passar alguma outra imposição opressora que pode fazê-lo parecer mais grave ou verdadeiro do que realmente é, e pode evitar que usemos lógicas que funcionam como pena de morte para deslizes facilmente modificáveis.

Essa posição em que podemos nos situar para avaliar criticamente tais situações também ajuda, no fim, para que encontremos soluções que nos permitam a compreensão mútua e modificação real dos comportamentos de homens que lutam ao nosso lado mas não compreendem o teor machista de suas próprias ações, ou de homens que estão perto de nós e ainda fora de uma busca por libertação nesse sentido.

Analisar as causas e contextos em que tudo ocorre também são boas formas de nos situar perante a situação. O machismo, assim como muitas outras categorias de violência, atravessa as nossas relações como um todo. Por esse motivo, há um nível de discernimento obrigatório àquelas que se propõem a construir um movimento feminista realmente amplo e que contemple as categorias precisas para que possamos categorizar corretamente as pequenas e grandes injustiças diárias.

Não podemos alimentar pensamentos de mulheres que se recusam a compreender a raiz e reverberações de suas próprias atitudes antes de decidir como revidar a essas tentativas menos graves de opressão vindas do sexo oposto. É necessário que fiquemos atentas a uma onda feminista composta por mulheres preocupadas demais com os próprios umbigos, e que estão fora de um viés realmente analítico a respeito das situações a que são expostas e da maneira como se manifestam perante elas. Estamos seriamente compromissadas com o futuro da sociedade. Por esse motivo, garantir sensatez em nossas ações está além de uma vontade individual, passa a ser uma séria necessidade coletiva.

Não estou querendo dizer que não devemos julgar atitudes machistas, mas relembrando que esses julgamentos devem ser tecidos com responsabilidade. Não é a toa que volta e meia somos falsamente acusadas de odiar os homens. Há muito que diz respeito à ignorância de quem acusa, mas também algo que reverbera de nossas posturas, modos de nos expressar e agir perante as situações. É preciso que nos responsabilizemos em alguma medida com o que pensam de nós. Discursos que tentem ignorar ou colocar enquanto sem importância o que pensa e fala a comunidade que não compreende o feminismo não estão verdadeiramente intencionados em ampliar a luta das mulheres, mas parecem cada vez mais se centrar em bolhas que sustentem suas concepções de verdade longe do mundo e do que vai de encontro a elas.

Essas tentativas de impor as próprias conclusões goela abaixo nos outros lembra uma das maiores e mais sérias obrigações de uma/um militante: saber o momento de ter paciência (sem perder seu caráter incisivo), e o momento de ser combativa/o, no sentido mais duro do termo. Há momentos de diálogo e exposição, e outros que necessitam de intervenções mais agressivas. Nosso desafio é escolher sempre a opção correta.

Meu chamado é para a construção de um movimento feminista cada vez mais amplo e democrático. Uma busca para que com o passar dos dias possamos nos agarrar à certeza de que podemos lutar sem medo ao lado de nossos companheiros de vida ou militância e reconstruirmos, junto com eles, as bases da nossa sociedade. Além de nossas pautas enquanto mulheres pretas, brancas, trabalhadoras e quaisquer outras categorias, temos com esses homens um interesse em comum.

Isso não diz respeito a priorizar lutas gerais. Ao contrário, fala sobre o nosso alinhamento estratégico na tentativa de facilitar os caminhos para que consigamos chegar até às questões mais específicas sendo realmente contempladas. Li em algum lugar: o segredo da vitória é o povo. Reitero: o segredo da vitória é um povo unido e compreendendo-se horizontalmente sem gritos desnecessários, mas com a verdadeira certeza de que está lutando pelos melhores caminhos. Sigamos.


“Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. O Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.”

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