segunda-feira, setembro 20, 2021
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“Precisamos olhar com carinho para nossas trajetórias, antes que o racismo acabe com o que resta de nós.”

Estamos rodeadas de mulheres negras incríveis. Atrizes, poetas, artistas, empreendedoras, psicólogas, sociólogas, mães, pesquisadoras, donas de casa, entre tantas e tantas coisas. Recorrentemente apoiamos umas às outras em seus projetos e construções coletivas e individuais. E é na coletividade que conseguimos nos fortalecer para seguir na luta e tentar amenizar os impactos sociais que perpassam nossa existência. Mas algo que nos ronda é o fantasma da baixa autoestima. É como se tudo o que fazemos pelas outras não conseguíssemos fazer por nós. Como se tudo o que falamos para as outras não servisse em nada para nós.

Ouvimos, certa vez, que luta não se faz com afeto. Ainda bem que resolvemos discordar porque acreditamos que enxergar a urgência de construir um mundo melhor para se viver é sobre querer o melhor para nós e para os nossos. E isso também é afeto. É na sensação de se ver no outro e com o outro que faz a caminhada valer a pena.  Mas quando percebemos que não conseguimos assumir  em nós qualidades e potencias sem questionar a veracidade de tais características, entendemos que é preciso falar sobre nossas particularidades. Na tentativa de nos conscientizar sobre atributos pessoais que muitas vezes negamos existir.

O racismo tem essa faceta violenta de nos agredir da forma mais profunda. Como disse bell hooks, os sistemas de dominação “alteram nossa habilidade de querer e amar”. Afetando, também, nossos processos de construção de um autoconceito que muitas vezes não fala por nós. Mas sim sobre como todo uma estrutura social procurou nos condicionar a não enxergar que podemos e somos mais. Como se fosse preciso nos ver pelo olhar do outro para poder nos ver e isso fala muito sobre como essas construções marcam nosso subjetivo.

Síndrome do impostor, descrédito de si e dos seus projetos. É como se o espelho não fosse capaz de refletir tudo o que dizem quem somos. A auto consideração de ser uma mulher negra incrível, ou, apenas uma mulher negra em toda sua complexidade é algo difícil. Sempre atribuindo sorte ou a esperteza, mas nunca nossas capacidades, esforços, inteligências. Porque é tão difícil reconhecer as qualidades que vemos nos outros em nós mesmas? Ou simplesmente reconhecer nossas qualidades individuais?

Demoramos para entender que essa sensação de não ser, não saber, não caber faz parte de algo que perpassa não só a uma de nós. Mas, também todas as companheiras que achamos incríveis e que estão todas marcadas pelo signo da raça. É como se de forma distorcida não enxergássemos a nossa grandeza e tudo o que nossa trajetória significa. Eu me vejo em um círculo com várias outras mulheres, refletindo umas às outras em pequenos espelhos e tentando mostrar a grandiosidade de uma para outra, mas, sem virar o espelho para si mesmas. São caminhos difíceis até encontrar o espelho que reflete um eu-mulher-negra em vivencia com todas suas qualidades e defeitos, toda a sua complexidade, todos os erros e acertos. Precisamos olhar com carinho para nossas trajetórias, antes que o racismo acabe com o que resta de nós.

A nossa ancestralidade marca um caminho que ganha força na coletividade e, assim, procuramos acreditar na construção de mudanças. Mas coletividade negra, além de articulação e estratégia, é sobre empoderamento e emancipação. É também autoestima, autocuidado, políticas públicas e garantia de direitos básicos. É também ver a si mesma com os olhos de afeto e admiração pelo que somos e podemos ser. Precisamos sim estarmos atentos, fortes e unidos. Porém, mais que isso, precisamos nos reconhecer enquanto potências. Entender que acreditar em nós não só é preciso, como é urgente!


Carolina Brito é paraibana, pós-graduanda em História e Cultura Afro-brasileira, MBA em produção de conteúdo para mídias digitais e Bacharela em Arte e Mídia – UFCG. Artvista, produtora cultural, empreendedora, criativa, aprendiz e dançante. É diretora e idealizadora da Enegrecida e líder apoiada no Programa Marielle Franco, do Fundo Baobá

Bruna Santiago, é autora do livro O Pensamento de Angela Davis, Mestranda em História pela Universidade Federal de Sergipe, Graduada em História pela Universidade Federal de Campina Grande, Coordenadora do Grupo de Estudos Literários em Escrituras Negras, Professora e Mãe.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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