A presença ostensiva do patriarcado nas eleições presidenciais

As discussões sobre as eleições presidenciais 2014 contam com três mulheres disputando a Presidência da República (Dilma Rousseff/PT, Luciana Genro/PSOL e Marina Silva/PSB), todavia deixam muito a desejar sobre as questões vivenciadas por mais da metade do eleitorado brasileiro (52%), as mulheres. Embora não haja uma mulher universal, as eleitoras não são de “biscuit”!

Por: Fátima Oliveira

Incomoda porque revela um incômodo/dificuldade em destacar a esquina primordial na vida de cada presidenciável: o ser mulher numa sociedade na qual a opressão de gênero é a regra. Avalio que estão equivocadas em não dar ênfase de onde observam e participam do mundo, pois o ser mulher e o ser homem não são apenas uma questão de genótipo nem de fenótipo, mas também um construto social!

Afirmei que “o feminismo não é um balcão de negociação de votos, a exemplo de algumas denominações e seitas religiosas cristãs!” (“As ideias feministas fazem toda a diferença nas eleições”, O TEMPO, 12.8.14) e hoje, após ter visto debates na TV e as propagandas eleitorais, declaro que o combate ao patriarcado via luta pelos direitos da mulher não sendo um balcão de negócios do voto feminino não interessa a presidenciáveis, sejam mulheres ou homens, pois remetem a uma herança patriarcal que urge ser extirpada: o direito das mulheres de decidir sobre seus corpos.

Compartilho trechos de quatro artigos sobre o tema. Gostaria de comentar cada um deles, mas pela exiguidade de espaço, transcreverei apenas algumas frases:

“Para quem não assistiu ao debate na Rede Bandeirantes, na terça-feira (26), saiba que Eduardo Jorge, que não atinge 1% das intenções de voto, de acordo com a última pesquisa do Ibope, levantou bandeiras consideradas polêmicas, como a ampliação do direito ao aborto, a legalização da venda de psicoativos considerados ilícitos e a ampliação de instrumentos de participação social” (“Porque Eduardo Jorge venceu o debate presidencial”, de Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 27.8.14).

“Minha mãe, que tem 86 anos, anda orgulhosa de ver três mulheres debatendo na televisão pelo posto de presidente da República. O valor simbólico desse novo protagonismo feminino é, ao mesmo tempo, imensurável e indiscutível”. (“Três mulheres não bastam?”, de Ivan Martins, “Época”, 3.9.14).

“Não houve bafafá porque Marina Silva, ao registrar sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral, tenha se dito da ‘cor/raça preta’… Cabe então a pergunta: para melhorar a vida dos negros e das mulheres, as origens têm importância decisiva? (“A preta e a presidenta”, de Mario Sergio Conti, “Folha de S.Paulo”, 5.9.14).

“Agenda feminina está fora do debate em pleito inédito no país, com três candidatas à Presidência e número recorde de eleitoras… No debate da TV Bandeirantes, foi o médico sanitarista Eduardo Jorge (PV) quem defendeu descriminalização do aborto, proposta encampada também pelo PSOL de Luciana Genro. Há tempo de desenterrá-los, pelo bem das mulheres do Brasil, que poderão não apenas ganhar, mas também decidir a eleição” (“Incoerência de gênero”, de Flávia Oliveira, “O Globo”, 7.9.14).

Concluo que as três candidatas estão em dívida com as mulheres em luta, porque insistem em não dar visibilidade à sofrença delas sob o jugo do patriarcado. E o difícil e doloroso de escrever sobre o tema é que as três são originárias da esquerda (sim, ainda há direita e esquerda!), historicamente o campo político que se comprometeu e tem compromissos, grosso modo, com o que chamamos “direitos da mulher”.

 

Fonte: O Tempo 

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