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Pureza e o filme, no enfrentamento ao Trabalho Escravo no Brasil

Brígida Rocha dos Santos (Foto: Arquivo Pessoal)

Pureza, mulher e mãe, sabia dos riscos, mas deixou o filho seguir, com a esperança de que o jovem voltaria. A esperança, fé e coragem da Mulher está inseparável do amor de mãe. Mesmo diante dos medos e inseguranças com o futuro e por saber de outros que já foram e não mais comunicaram-se, Pureza apoiou e abençoou seu filho Abel que saiu do Maranhão para trabalhar no Pará. 

As Esperanças e Inquietudes de Pureza mobilizaram o agir do Brasil no enfrentamento ao trabalho escravo. Esperança que permaneceu viva mesmo diante de saber que as condições são degradantes, que não podiam sair devido os distanciamentos e dividas com o empregador, até da morte de alguns no trabalho, mais a mulher manteve-se firme para libertar aos outros, mesmo sem conhecer as pessoas, ela seguiu inquieta, para de algum modo ser gentil e acolhedora com eles, sentia – se como se estivesse diretamente abraçando e protegendo o Abel.  

O jovem saiu do Maranhão buscando uma ‘oportunidade de melhorar de vida’, devido ausências de oportunidades e direitos nos seus territórios, ampliação das vulnerabilidades socioeconômicas e socioculturais e educacionais, ele assim como outros jovens são forçados a migrarem e encontram-se mais explorados e oprimidos. 

Mais é importante lembrar também que muitas vezes saem toda a família, devido toda as vulnerabilidades e precisões, e ainda por serem expulsas de seus territórios, devido os grileiros e grandes projetos econômicos implementados na região, destruindo além das casas, a natureza, os rios e a paz das comunidades, assim fugindo dos conflitos e pobrezas, passam pelo aliciamento e escravidão, pessoas idosas e até as crianças já foram resgatadas do trabalho escravo juntamente com outros familiares. É visível e sentida a ausência das políticas públicas, são muitas dores, ameaças e conflitos. Como também a prevalência do racismo e não equidade de gênero. Intenso desmonte do tripé da Seguridade Social com cortes orçamentários, desestabilizados, pelo descompromisso político e ampliação das expressões da Questão Social com as pandemias. 

A Pureza denunciou e denuncia que trabalho escravo ainda existe, que pessoas são coisificadas, que seus nomes são ignorados, identidades e direitos violados, vidas destruídas, pelos que escravizam e lucram com o crime de trabalho escravo.  

Muitas mães ainda estão esperando os filhos voltarem das situações que agridem a dignidade, pois estão com a alimentação precária, sem água potável, sem moradia ou em alojamentos que ofertam riscos diversos pela insalubridade e acomodações de agrotóxicos, sem uso de equipamentos de proteção, sem condições de higiene, segurança e saúde no trabalho.  Em jornadas que causam a exaustão, prejudicando a saúde mental e física, trabalham mais e não conseguem descansar, não conseguem tempo e condições para a convivência social e familiar. São forçados a trabalharem por meio de pressões psicológicas, tem documentações destruídas ou são forçados a assinarem comprovantes que receberam pagamentos, sem ter recebidos. Sentem dificuldades de saírem devido às dificuldades geográficas e ausência de transportes, ameaças e violências. Trabalham para pagar dívidas, das quais não seriam de suas obrigações. 

Pureza é a mulher que continua firme e forte como sempre, muito feliz com a sua família em Bacabal, ela é uma mãe abolicionista do Brasil. Que podemos conhecer no Filme Pureza. 

O grito da mulher e mãe Pureza Lopes de Loyola desafiou as autoridades brasileiras para agirem com maior compromisso no combate ao trabalho Escravo, iniciando por reconhecerem oficialmente que ele ainda existe.  Pureza não calou diante dos opressores, suas inquietações contribuíram para incidências na visibilidade e discussões da realidade de pessoas submetidas ao trabalho escravo. O Brasil oficializou   a existência e criou o Grupo Móvel de Fiscalização, então mais de 59,795 pessoas já foram resgatadas do Trabalho Escravo. 

O filme Pureza é a expressão da realidade de muitas outras pessoas que encontram -se submetidas nas condições degradantes, jornada exaustiva, servidão por dívida e trabalho forçado, características essas que são as principais do trabalho escravo contemporâneo conforme o Artigo 149 do Código Penal Brasileiro. Pureza, provoca muitas emoções, visibiliza o cotidiano e destaca também as mulheres nas relações de Trabalho. Expõe sobre a Quem interessa a manutenção da Escravidão. Uma real projeção da Vida atual de pessoas, adultas, idosas e em maioria jovens, como o Abel filho de Pureza.

O filme Pureza é brasileiro e estreia no Brasil no dia 28 de abril nos cinemas, já ganhou 28 prêmios, apresentado em 18 países e em 35 festivais. É um grande filme, com tempo de duração de 101 minutos. A Produtora Gaya Filmes e a Ligocki Entretenimento é que apresentam essa produção cinematográfica, tão importante. 

É importante destacar que muitos dos personagens, atuam no combate ao trabalho escravo. No ato de criação do Grupo Móvel de Fiscalização, estão agentes da Pastoral da Terra, Auditoras e auditores fiscais do Trabalho, trabalhadores e companheiros e companheiras de luta. A Pureza está representada pela atriz Dira Paes e entre os trabalhadores, alguns são pessoas que sobreviveram das relações de exploração no trabalho na região amazônica.

Foto de cima: acervo pessoal Dona Pureza e Foto de baixo: Felipe Reinheimer

No Brasil está ocorrendo mais de 10 pré-estreias sociais, para pessoas do campo e cidade, de vários Estados como Pará, Ceará, Bahia, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e outros.  Por exemplo no Maranhão será apresentado em abril na cidade de Bacabal e em maio na cidade Codó. O público presente nas exibições sociais, são acompanhadas pelos movimentos e redes, organizações e órgãos locais. Em especial a Comissão Pastoral da Terra está nessa mobilização junto aos demais parceiros que integram o Comitê de Lançamento do Filme Pureza.  

Lhe convido para participar conosco, ver o filme Pureza, conhecer a Pureza. Como dica siga @purezaofilme

Foto: Divulgação

Assista nos grandes cinemas do Brasil, também entre em contato para solicitar acessos exclusivos após o lançamento nacional, ou seja, articular para assistir com coletivos de modo virtual, ou em atividades presenciais. Reflita, discuta e multiplique os conhecimentos com os grupos e comunidades que você acompanha. O filme é um subsidio para todos e todas que queiram está multiplicando nessa jornada preventiva contra o trabalho escravo.


Brígida Rocha dos Santos. Assistente Social. Agente da Comissão Pastoral da Terra, integrante da Coletiva Negras que Movem no Portal Geledés, Liderança Feminina Negra apoiada na primeira edição do Programa Marielle Franco pelo Fundo Baobá.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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