“Racismo promove intolerância religiosa”, afirma fotógrafo Roger Cipó

Para Roger Cipó, segregação racial é a chave para entender a intolerância que violenta praticantes de religiões de matrizes africanas no Brasil. A fotografia seria um importante meio para defender a história do povo negro.

no Brasil de Fato por Rôney Rodrigues – Crédito fotos: Roger Cipó

“Vai ser difícil esquecer a pedrada”. Essa foi a declaração de  umaa menina de 11 anos após ser agredida no subúrbio do Rio de Janeiro, quando saia de um culto de candomblé. As pedras, de um jeito ou de outro, parecem que sempre voaram, com uma sinistra coincidência, em direção às religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé. Mas, afinal, em um país considerado tão plural como o nosso, como explicar esses constantes atos de violência?

“É o racismo que provoca a intolerância religiosa no Brasil”, afirma o fotografo Roger Cipó, 24, em entrevista ao Brasil de Fato. Ele é candomblecista, atua em movimentos contra intolerância religiosa na cidade de São Paulo e, por meio do coletivo “Olhar de um Cipó”, pesquisa ações de resgate, preservação e valorização da identidade e estética das religiões de matriz africana. Para ele, a fotografia é uma arma política na defesa da liberdade de culto religioso e no combate aos discursos de ódio da chamada bancada evangélica. Para Roger, as “pedradas” voam há muito tempo: “é crime e foi sutilmente acomodado à sociedade brasileira já na escravidão”.

 

Você já foi vítima de intolerância religiosa?

Infelizmente, a intolerância religiosa agride a todos nós, seguidores do candomblé e da umbanda, desde sempre. Esse crime foi sutilmente acomodado à sociedade brasileira durante a escravidão, quando a igreja católica inferiorizou, marginalizou e demonizou nossa fé e nossos costumes. Desde então, todo aquele que crê em deuses africanos sofre com essa violência, seja quando usamos nossas roupas e insígnias sagradas em locais públicos ou quando grupos fundamentalistas utilizam os meios de comunicação para nos hostilizar. Vivemos uma “Inquisição”que nem é mais velada: a liberdade de crença religiosa está cerceada. E quem se preocupa com isso?

Você utiliza a fotografia como uma arma política. Como seria possível construir um imaginário mais humano e inclusivo por meio de seu trabalho? 

Nessa luta, tenho defendido a importância de nossas histórias serem escritas, documentadas e registradas por nós mesmos. Optei por usar essa arma porque a atmosfera dos terreiros de candomblé produz imagens lindas, impactantes e de uma sensibilidade, que reluz e faz com que se abram olhos até então fechados pelo preconceito. Torno a dizer: a sociedade brasileira criou uma “venda”- um tanto cruel –que não permite conhecer o quão lindo e singelo é o universo das religiões negras. Registrar nossas histórias faz com que as nossas comunidades se vejam, se reconheçam e se valorizem mais. Além disso, dá a oportunidade para a sociedade olhar para o candomblé como ele é: uma estrutura religiosa pautada nas relações entre seres humanos e forças da natureza, em que o amor pelos elementos vitais e pelo outro conduz à ascensão espiritual. Com a fotografia, pessoas que nunca entraram em um terreiro de candomblé se sentem, no mínimo, curiosas para nos conhecer, através das imagens. O resultado é lindo e a maioria das pessoas se encanta e escreve coisas como: “nossa, não imaginava que candomblé era assim!”. Retornos como esse me impulsiona a apresentar nosso universo para cada vez mais pessoas, pois a experiência tem provado que, ao verem o que de fato o candomblé é, o preconceito dá espaço à uma fascinante admiração.

Alguns especialistas afirmam que o Brasil é um país relativamente pacífico em termos de violência religiosa, comparando, sempre, com ataques como ao jornal Charlie Hebdo e às mesquitas. Você acredita que essa “relatividade” em relação às violações ao direito de livre crença religiosa existe de fato ou é que não há uma midiatização dos casos ocorridos no Brasil?

O que acontece no Brasil é tão sério e violento quanto o episódio de Charlie Hebdo, porém a mídia brasileira é omissa quando o assunto é crimes contra os direitos religiosos de nossas comunidades. Nossos terreiros são queimados. Traficantes expulsam sacerdotes dos morros a mando de igrejas. Crianças são proibidas de assistirem aulas na escola. Mães de Santo têm a saúde agravada ao serem expostas à xingamentos e situações constrangedoras. Uma menina é apedrejada por andar vestida de branco. Além de tudo isso, temos igrejas que comandam importantes veículos de informações, se aproveitando desses espaços para destilar ódio contra as religiões negras.

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Apesar de notarmos uma reação intolerante, preconceituosa, discriminatória e racista e um certo recrudescimento de alguns direitos, muitos afirmam que houve avanços, por parte do Estado, no combate a intolerância religiosa. Você acredita que houve esses avanços?

Não atribuo avanço ao Estado. Reconheço o importante avanço dos diversos movimentos sociais que, a cada dia, se fortalecem mais para cobrar que o Estado garanta nossos direitos básicos. Falta ao Estado brasileiro colocar em prática a laicidade e igualdade em direitos. Se nossas lutas progrediram e se hoje conseguimos espaços para denunciar as violências contra os nossos, atribuo à eficiência e garra dos nossos movimentos e não a um Estado dominado pela intolerância e fundamentalismo.

Outra questão é a influência de certas lideranças ligadas a igrejas neopentecostais. Como lidar com essa questão, ainda mais quando temos uma bancada evangélica conservadora na Câmara?

A bancada evangélica é uma ameaça à igualdade de direitos e liberdade de expressão no Brasil. Os ataques à nossa religião acontecem, sim, por incentivos diretos e indiretos de líderes neopentecostais. Suas ações e discursos incentivam o ódio às diferenças. Eles nos colocam como diferentes – leia-se: inferiores – e, ao invés de pregar o amor, fraternidade e o bem entre os povos, ultrapassam os limites de consciência e pregam o extermínio ou a conversão imediata.

Um ponto, inclusive que você citou, sobre esses crimes de intolerância religiosa é que não pode ser dissociado da questão do preconceito racial, principalmente porque o principal alvo dessa intolerância são as religiões de matrizes africanas. Além disso, há a questão de classe. Como fazer um contraponto a essa situação?

Não se reconhece, não se aceita e não se respeita a religião criada por descendentes de reis e rainhas africanos. O racismo tem peso na construção da consciência intolerante que, brutalmente, violenta os praticantes da umbanda e candomblé. Em um país construído na pluralidade e com influência de diversas culturas do mundo, o que explica o fato de só as religiões afro-brasileiras serem alvos de pedradas? O racismo! É o racismo que promove a intolerância religiosa no Brasil. O contraponto mais importante nessa luta é o fato de que, cada vez mais, o Povo de Axé se fortalece. Estamos ocupando espaços sociais importantes para defender nossa história. A cada ano que passa, temos mais candomblecistas nas universidades – e eu não digo o universitário que decide entrar para o candomblé, falo do Povo de Axé que vai para academia pela importância de ocupar esse espaço e de se munir do conhecimento acadêmico para discutir na sociedade as angústias, indignações e também os desejos de sua comunidade religiosa.

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