Recy Taylor, a mulher negra estuprada por seis brancos que nunca foram condenados

Vítima relata em documentário agressão que sofreu em 1944 por homens que seguem impunes

Por TOMMASO KOCH, do El Pais 

imagem de arquivo

Na tarde de 3 de setembro de 1944, Recy Taylor saiu da igreja. Como num outro dia qualquer. “Era a que mais se divertia de nós”, recorda diante da câmera o seu irmão, Robert Corbitt. Já anoitecia, então Taylor, junto com um amigo e seu filho, começou a voltar para casa. Tinha 24 anos, a idade em que sua vida foi destruída. Porque, de repente, um carro se aproximou dos três. Levava sete sujeitos, todos armados, todos brancos. Taylor, por sua vez, era negra. O que deveu parecer aos ocupantes do veículo um motivo suficiente para ameaçá-la e obrigá-la a subir. Levaram-na para um bosque próximo, despiram-na, e seis deles a estupraram. Ela, enquanto isso, chorava: “Tenho que ir para casa a ver o meu bebê”. Quando finalmente conseguiu sair dali, contou tudo ao seu marido. O ataque, as pistolas, como estavam vestidos. Podia ser o primeiro passo para a justiça. Entretanto, só seis anos atrás Taylor receberia algo semelhante a uma reparação: em 2011, o Estado do Alabama lhe pediu desculpas por “falhar na punição aos seus agressores”. O que ocorreu até então? É o que conta o documentário The Rape of Recy Taylor (O Estupro de Recy Taylor), de Nancy Buirsky, revelado na seção Horizontes do Festival de Veneza, em setembro de 2017 (quando este texto foi originalmente publicado). O caso de Recy Taylor inspirou o discurso comovente de Oprah Winfrey no Globo de Ouro 2018, que lembrou sua luta por justiça ao ser homenageada.

Com imagens de arquivo e entrevistas com vários protagonistas, o filme narra uma história que reúne policiais mentirosos, racismo, os primórdios das lutas dos negros por seus direitos e o drama de uma família inteira. “Não nos viam como seres humanos, e sim como animais. E alguns ainda acreditam nisso”, diz no documentário um dos netos de Taylor. As recentes manifestações supremacistas em Charlottesville parecem reforçar seu argumento.

O fato é que os agentes foram rapidamente informados sobre o estupro. Identificaram o carro e seu motorista, Hugo Wilson. E este delatou seus seis companheiros. Mas a investigação terminou com uma multa de 250 dólares para Wilson. E ponto. Por isso a comunidade negra local recorreu à Associação Nacional pelos Avanços da Gente de Cor (NAACP). Esta mobilizou a própria Rosa Parks, a ativista negra que 10 anos depois mudaria a história ao se recusar a ceder seu assento de ônibus a um branco.

Continue lendo aqui 

+ sobre o tema

De uma certa idade

Numa era em que a beleza é considerada um...

Conexões diaspóricas: mobilização da Marcha das Mulheres Negras no mundo

Mulheres negras de 21 países da América Latina, Caribe...

Sobre alisamento capilar, racismo e liberdade

Quero falar sobre alisamento com quem ainda alisa o...

Gestão Doria desativa serviço de aborto legal do Hospital Jabaquara

Inaugurado em 1989, Hospital Municipal Arthur Ribeiro Saboya foi...

para lembrar

Dandaras: curso forma mulheres negras para ocuparem espaços de poder

Rosângela Santos Lopes foi a primeira pessoa de sua...

Assine a petição agora e divulgue: Pare o Estupro Corretivo

O "estupro corretivo", uma prática horrenda de estuprar lésbicas...

Chega a 5 número de detidos por agressão a homossexual

Entre os detidos, há uma menor de 17 anos,...

Tributo por Sueli Carneiro

Quase tudo já foi dito sobre a importância histórica...
spot_imgspot_img

Mãe Hilda de Jitolú, a matriarca do Ilê Aiyê

Em 1988, quando uma educação afrocentrada ou antirracista ainda não estava no imaginário brasileiro, uma mulher preta que nunca frequentou a escola abriu sua casa, em Salvador (BA)...

Aos 80 anos, Zezé Motta celebra uma carreira de grandes feitos e garante: “Eu não paro!”

É com um sorriso solto e uma presença indescritível que Zezé Motta conversa comigo no camarim do estúdio onde fotografamos as imagens e a capa que...

Justiça nega aborto legal de adolescente de 13 anos após seu pai pedir manutenção da gravidez

Uma adolescente de 13 anos que vive em Goiás teve o aborto legal negado pelo TJ-GO (Tribunal de Justiça de Goiás), após o pai da jovem...
-+=