Relembre outros casos em que o grupo Carrefour foi cenário de ações violentas e racismo

Enviado por / FonteO Globo

Em 2020, a rede assinou um Termo de Ajuste e Conduta (TAC) depois de um homem negro ter sido assassinado por seguranças de unidade em Porto Alegre

O vídeo que mostra duas pessoas negras sendo agredidas, enquanto encostadas no muro do supermercado Carrefour, em Salvador, causou revolta e uma enxurrada de críticas nas redes sociais. As lojas do grupo têm um histórico recente de casos de violência e racismo, o que levou, inclusive, a um posicionamento da marca na própria descrição de suas páginas: “Racismo é crime. Denuncie. Disque 100 ou procure a Delegacia de Polícia Civil mais próxima ou o Ministério Público”, diz a biografia do Instagram.

Em 2020, João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, foi espancado até a morte por seguranças em uma das filiais da empresa em Porto Alegre. No mesmo ano, as imagens de um funcionário de 53 anos que morreu em pleno supermercado, mas teve o cadáver escondido por caixas de papelão, engradados de cerveja e guarda-sóis também causaram comoção.

Assassinato de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, homem negro espancado até a morte por vigilantes brancos em um supermercado da rede Carrefour, em Porto Alegre, comoveu o país em novembro de 2020 (Foto: Reprodução)

No mês passado, Vinícius de Paula, marido da jogadora da seleção brasileira de vôlei Fabiana Claudino, disse ter sido desprezado por uma atendente de caixa de uma unidade de Alphaville, em São Paulo, que deu preferência a uma mulher branca.

Depois do último caso, a multinacional foi cobrada por órgãos da Defensoria Pública e Ministério Público a prestar explicações, nesta segunda (8). O ofício foi assinado pela Defensoria Pública da União e a do Rio Grande do Sul, o Ministério Público Federal e o do Rio Grande do Sul e o Ministério Público do Trabalho. Todos eles assinaram um Termo de Ajuste e Conduta (TAC) em 2020, depois do assassinato de João Alberto Freitas no estacionamento de um mercado do grupo em Porto Alegre. A Educafro, outra entidade que participou do TAC, disse que estuda entrar com uma ação judicial.

O GLOBO apurou que um ofício já foi enviado ao Carrefour com o pedido de explicações sobre o que exatamente ocorreu na loja de Salvador, e quais medidas serão tomadas. O TAC assinado em 2020 previa investimentos de R$115 milhões do Carrefour em ações de combate ao racismo, incluindo campanhas de conscientização para funcionários e bolsas de estudo para alunos negros.

A medida é extrajudicial e, inclusive, evitou que um processo fosse levado ao tribunal. Além disso, na época foi anunciada a criação, pelo Carrefour, de um comitê independente de diversidade e inclusão. Uma das exigências do TAC é a expansão da internalização dos serviços de vigia nas lojas da multinacional. Ou seja, não usaria mais serviços terceirizados e, assim, faria contratações diretas de porteiros e vigias, funcionários que podem revistar uma pessoa após furto, mas que não têm porte de arma. Esse pedido foi feito para garantir um controle maior sobre os funcionários e a qualidade do serviço.

Neste final de semana, as cenas do casal de negros sendo questionados e agredidos por supostos seguranças de uma loja de Salvador viralizaram. Num vídeo feito pelos próprios agressores, a mulher, que recebeu um tapa na cara, mostra uma sacola com pacotes de leite em pó e disse que pegou os produtos porque sua filha “estava precisando”. Após o compartilhamento das imagens, a Polícia Civil da Bahia passou a investigar o caso, e o Carrefour informou que a equipe de prevenção – segurança – da loja foi demitida e que um boletim de ocorrência foi registrado na Polícia Civil para apuração dos fatos.

Casal negro foi humilhado por seguranças em filial do Carrefour — Foto: Reprodução

Mesmo após a demissão da equipe, o Carrefour afirmou que ao menos um dos agressores que aparece no vídeo não é funcionário da rede, nem de empresa terceirizada. A informação foi dada porque, segundo o Carrefour, “não há colaboradores da rede interno ou externo com tatuagem na mão”. Um dos agressores, de fato, possuía tatuagem na mão, mas há outras pessoas nas imagens. A multinacional ainda não identificou essas pessoas ou explicou o motivo de elas estarem ali.

Educafro estuda medida judicial

A ONG Educafro Brasil, outra entidade que assinou o TAC de 2020 e acompanha o cumprimento das ações, também se manifestou sobre o caso. A Educafro, que é presidida por Frei David, repudiou as agressões e destacou que o episódio de agora lembra o ocorrido de 2020, em Porto Alegre. A ONG acionou sua equipe jurídica e disse que estuda tomar medidas judiciais e “buscar a responsabilização coletiva”.

Confira a nota, divulgada em primeira mão pelo GLOBO:

“EDUCAFRO BRASIL REPUDIA GRUPO CARREFOUR

A EDUCAFRO BRASIL repudia veementemente as agressões fisicas, racistas e marais, sofridas por um casal de pessoas negras, com filhos passando fome.

Foi nas instalações do Carrefour, em Salvador-BA.

São atos de tortura física e psicológica que mostram que (apesar dos processos abertos e vencidos pela EDUCAFRO Brasil) nada mudou nos padrões antirracista daquela empresa.

Este novo episódio de violência racista nos remete de imediato ao assassinato do cidadão negro João Alberto Freitas, em Porto Alegre, em 2020, que também ocorreu em uma loja da rede Carrefour. A empresa fez acordo (Termo de Ajuste de Conduta e foi multada em 115 milhões e mais 38 obrigações de fazer.

A EDUCAFRO BRASIL já abriu duas ações civis públicas (por danos coletivos à população afro-brasileira) contra essa rede supermercadista, em razão dos casos de racismo praticados em suas instalações.

A segunda ação foi aberta no mês passado, em decorrência de uma série de casos de racismo contra consumidores negros tratados como suspeitos apenas por causa da cor de sua pele.

A EDUCAFRO BRASIL considera inaceitáveis esses episódios de violência e discriminação racial, merecendo o máximo rigor possível em termos de punição.

Diante deste novo e gravíssimo episódio de racismo, a EDUCAFRO BRASIL já mobilizou novamente sua equipe jurídica para estudar as medidas cabíveis e buscar a responsabilização coletiva.

O Carrefour precisa se dobrar à legislação brasileira, que considera a prática do racismo um crime infamante, abjeto e, por isso mesmo, inafiançável e imprescritível.

Nossa organização segue empenhada em buscar justiça e reparação para as vítimas de racismo, bem como em promover a conscientização da sociedade sobre a importância de se combater o preconceito e a discriminação racial em todas as suas formas.

Coordenação da EDUCAFRO Brasil”

O que diz o Carrefour?

Com a repercussão do vídeo, o Carrefour se posicionou neste fim de semana. Há suspeitas de que os agressores sejam seguranças terceirizados do supermercado, mas a rede afirma que, até o momento, não foi possível identificá-los. A empresa, no entanto, declara que a equipe de prevenção – segurança – foi demitida e que um boletim de ocorrência foi registrado na Polícia Civil para apuração dos fatos.

O diretor de prevenção do grupo, Claudionor Alves publicou um comunicado, onde define o episódio como inadmissível e afirma que a empresa busca o casal “para pedir desculpas e prestar apoio”.

– Na última sexta-feira tomamos conhecimento de um fato inadmissível ocorrido em uma das nossas lojas em Salvador, na Bahia. Duas pessoas foram covardemente agredidas na área externa da loja, e esse fato nos causou profunda indignação. É inaceitável que um crime como esse tenha ocorrido na área externa da nossa loja. Por isso, assumimos a responsabilidade de desligar a liderança e equipe de prevenção, além de rescindir o contrato com a empresa responsável pela segurança na área externa onde a violência ocorreu – disse o porta-voz. – Mas não paramos por aí. Um crime como esse precisa ser investigado e os autores punidos exemplarmente pelas autoridades competentes. Por isso, registramos uma denúncia na Polícia Civil, para que situações como essa não se repitam. Também estamos buscando contato das duas vítimas para pedirmos desculpas pessoalmente, além de oferecer suporte psicológico, de saúde ou qualquer outro apoio que seja necessário.

Polícia Civil da Bahia investiga caso

Em nota, a empresa disse que, com base na tatuagem na mão de uns agressores, não foi possível identificar ninguém na equipe do mercado com esta característica.

“Em um vídeo que mostra o fato, é possível identificar que o agressor tem uma tatuagem na mão. No avanço das nossas investigações internas, apuramos que nenhum profissional direto ou indireto que atua na unidade tem essa tatuagem. Mesmo assim, não podemos aceitar que um crime como esse tenha ocorrido em nossas dependências. Por isso, ontem mesmo desligamos a liderança e equipe de prevenção da loja. Reforçando nossa tolerância zero com a violência, inclusive nos cargos de gestão. Além de rescindir o contrato com a empresa responsável pela segurança da área externa, onde a violência ocorreu. Assumimos a nossa responsabilidade e tomamos medidas rápidas e duras”.

A Polícia Civil da Bahia, por sua vez, afirma que não foi protocolada denúncia na delegacia local, mas que investiga o caso.

“Não houve registro na 12ª Delegacia Territorial de Itapuã. Porém, a unidade já tomou conhecimento do crime através dos vídeos e iniciará as apurações dos fatos”, disse a instituição em nota.

Veja a nota publicada pelo Carrefour sobre o caso desta sexta-feira:

“Assim que tomamos conhecimento do caso lamentável, empenhamos de forma imediata todos os esforços para apurar o ocorrido e tomar todas as medidas cabíveis. A primeira delas e fundamental foi, de forma proativa, realizar uma denúncia de agressão e lesão corporal à Polícia Civil, para que esse crime inaceitável seja rigorosamente apurado. Esta denúncia foi registrada eletronicamente, com número de protocolo 2023/0000257096-0, e encaminhada à 12ª Delegacia Territorial – Itapuã. Esta medida reforça o nosso compromisso de sermos incansáveis no combate a qualquer tipo de violência.

Em um vídeo que mostra o fato, é possível identificar que o agressor tem uma tatuagem na mão. No avanço das nossas investigações internas, apuramos que nenhum profissional direto ou indireto que atua na unidade tem essa tatuagem. Mesmo assim, não podemos aceitar que um crime como esse tenha ocorrido em nossas dependências. Por isso, ontem mesmo desligamos a liderança e equipe de prevenção da loja. Reforçando nossa tolerância zero com a violência, inclusive nos cargos de gestão. Além de rescindir o contrato com a empresa responsável pela segurança da área externa, onde a violência ocorreu. Assumimos a nossa responsabilidade e tomamos medidas rápidas e duras.

É inadmissível que qualquer pessoa seja tratada desta maneira. É um crime, com o qual não compactuamos. Estamos buscando o contato da Jamille e do Jeremias para nos desculparmos pessoalmente, além oferecer suporte psicológico, médico ou qualquer outro apoio necessário”.

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