Existe uma espécie de consenso confortável entre um grupo específico de ambientalistas: o de que proteger a natureza é sempre algo inerentemente bom. Mas basta olhar um pouco mais de perto a história das áreas protegidas no Brasil e no mundo para perceber que a questão nunca foi tão simples.
Em muitos casos, a conservação foi construída como política de exclusão: parques nacionais, reservas e unidades de conservação nasceram a partir de uma ideia importada de natureza “intocada”, como se os territórios precisassem ser esvaziados de gente para merecer proteção.
O problema é que, na América Latina, quase nunca existiu natureza sem presença humana, então a ideia colonizadora de conquistar, com a desculpa de preservar territórios sem pessoas e seus modos de vida, é altamente equivocada. Existiam e existem povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, extrativistas, geraizeiros, ribeirinhos e comunidades tradicionais que moldaram, preservaram e produziram biodiversidade ao longo de séculos, e isso é história básica.
É justamente por isso que o XII Seminário Brasileiro e o VII Encontro Latino-americano sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social, o XII Sapis e VII Elapis, têm relevância política fundamental. O encontro, realizado neste mês de maio na Universidade de Brasília, não discute apenas gestão ambiental ou conservação, ele tensiona um dos pilares históricos do ambientalismo tradicional: a ideia de que proteger a natureza exige controlar territórios e limitar a presença humana.
Há uma crítica importante, e muitas vezes incômoda, dirigida ao conservacionismo clássico. Durante décadas, parte significativa do movimento ambiental tratou comunidades locais como obstáculos à preservação.
Em nome da proteção da fauna, da flora ou da paisagem, populações inteiras foram removidas de seus territórios, criminalizadas por práticas tradicionais ou impedidas de acessar recursos naturais essenciais à própria sobrevivência. E podem chamar isso como quiserem. Eu chamo de racismo.
O discurso preservacionista frequentemente ignorou que quem mais destrói florestas, rios e ecossistemas não são povos tradicionais vivendo de maneira comunitária, mas grandes cadeias econômicas: mineração, agronegócio predatório, grilagem, especulação fundiária e megaprojetos de infraestrutura. Existe, portanto, uma contradição profunda em um ambientalismo branco que vigia comunidades tradicionais, enquanto negocia silenciosamente com os verdadeiros agentes da devastação.
O Sapis e o Elapis surgem justamente desse incômodo histórico. Desde suas primeiras edições, os encontros ajudaram a consolidar no Brasil e na América Latina um campo crítico da conservação, que passou a defender a inclusão social, a governança participativa e os direitos territoriais como elementos centrais das políticas ambientais.
Não se trata de negar a importância das áreas protegidas. Ao contrário, trata-se de perguntar quem decide sobre elas, quem paga o custo da conservação e quais formas de conhecimento são reconhecidas como legítimas nesse processo.
E os dados concretos desmontam, cada vez mais, a velha narrativa de que populações tradicionais representam ameaça ambiental. Um levantamento de 2023 do MapBiomas sobre territórios quilombolas mostrou que essas áreas estão entre as mais preservadas do país.
Entre 1985 e 2022, a perda de vegetação nativa em territórios quilombolas foi de 4,7%, enquanto em áreas privadas chegou a 17%. Nos territórios já titulados, o índice é ainda menor: 3,2%.
O dado talvez seja um dos mais importantes do debate ambiental brasileiro contemporâneo, porque evidencia algo que movimentos quilombolas, indígenas e tradicionais afirmam há décadas: garantir direitos territoriais também é uma política de conservação ambiental.
O contraste se torna ainda mais evidente quando observamos que os territórios quilombolas ocupam 3,8 milhões de hectares – ou seja, apenas 0,5% do território nacional –, mas preservam cerca de 3,4 milhões de hectares de vegetação nativa. Na Amazônia, no Cerrado e na Caatinga, essas comunidades seguem desempenhando papel central na manutenção dos ecossistemas, mesmo enfrentando insegurança fundiária, violência e ausência histórica de políticas públicas. Enquanto isso, áreas submetidas à lógica privada de exploração da terra concentram índices muito maiores de supressão vegetal.
Os dados do MapBiomas também ajudam a desmontar outro mito persistente no debate ambiental: o de que a conservação depende necessariamente de controle estatal rígido ou exclusão humana. Na prática, o que os números mostram é justamente o contrário. Onde há reconhecimento territorial, pertencimento comunitário e proteção de modos de vida tradicionais, os índices de preservação tendem a ser maiores. Não por acaso, os territórios indígenas e quilombolas aparecem hoje entre as áreas que mais conservam vegetação nativa no Brasil.
O tema desta edição, “Territórios, Áreas Conservadas e Sociobiodiversidade: caminhos para a equidade e a paz”, dialoga diretamente com os dilemas geopolíticos do presente. A palavra sociobiodiversidade, aliás, incomoda setores mais conservadores do ambientalismo, justamente porque rompe com a separação artificial entre sociedade e natureza. Ela reconhece que a biodiversidade também é produzida por relações sociais, culturais e territoriais. Que existem modos de vida responsáveis pela manutenção de ecossistemas inteiros.
No fundo, o debate colocado pelo Sapis/Elapis é simples, embora profundamente político. Não existe preservação sem a presença das comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas. Não existe conservação legítima baseada na exclusão de quem historicamente protegeu os territórios, e não existe futuro ambiental possível enquanto a política ambiental seguir tratando populações tradicionais como problema e grandes interesses econômicos como parceiros inevitáveis.
Ufa!
A presença do Sapis/Elapis me traz boas lembranças de diálogos abertos e democráticos. Lugar de encontro e troca de conhecimento, comida boa, conversa gostosa e inteligência coletiva. E que bom que eu me juntei na panelinha certa do movimento socioambientalista, pé no chão e com boas mãos na construção a partir do território.
Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista “Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental” da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.