Revolucionário, mas não é para todos

Descansar é fundamental para a saúde física e mental, mas mais um direito sequestrado dos negros

Passei os últimos dias pensando no significado e na profundidade de uma postagem que li numa rede social contendo a afirmação: “Descansar é revolucionário!”. Fiquei me perguntando quem é que consegue descansar de fato?

Pergunto a partir do lugar privilegiado de quem tem educação, trabalho decente, moradia digna, além de direito a lazer. Contudo, me sinto culpada quando estou “fazendo nada” e me permito cuidar de mim.

Foto: Delmaine Donson/iStock

Conversando com amigas, confirmei a suspeita de que boa parte também tem dificuldade de ficar quieta, “só relaxando”. Mesmo quando há essa possibilidade, como num feriado prolongado.

Mas foi a declaração de uma mulher preta como eu que calou fundo. Disse: “Se me dou um tempo, parece que estou falhando com alguém”.

Infelizmente, não é um sentimento isolado. Trata-se de mais um dos legados da escravização, que ‘sequestrou’ o direito dos negros de viver sem correr contra o tempo, o tempo todo, diante do que se apresenta cotidianamente como um enorme passivo a resgatar.

Como descansar sabendo, por exemplo, que serão necessárias mais de três décadas para que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos negros se iguale ao dos brancos no Brasil pelas estimativas do último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento?

Mulheres negras são o maior contingente da população brasileira: cerca de 60 milhões de pessoas, ou seja, uns 29% do nosso povo. Também chefiam a maioria das famílias. São responsáveis por 34% das crianças e dos adolescentes de até 14 anos. Mas em geral ganham menos.

Mulheres negras têm fama de fortes, mas a “força” que move também sufoca.

Mais que revolucionário, descansar é fundamental para a saúde física e mental. Pena não estar ao alcance de todos. Não é por acaso que pessoas negras sofrem mais de doenças crônicas relacionadas ao estresse (como transtornos mentais e hipertensão arterial). É cansativo.

+ sobre o tema

Movimento negro pede cotas na USP e desaprova bônus

Estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e...

Motorista de ônibus discrimina passageiro catador de latinha no Rio

"Ele não tá errado, não. Ele está trabalhando e...

Cartilha racista da Polícia Militar do DF: Assaltante=negro, vítima=branco

por Conceição Lemes A cartilha racista "Previna-se contra furto e...

Mãe diz que filha sofreu racismo em escola do Rio: ‘cabelo de pobre’

Publicação de desabafo na web teve mais de 1,3...

para lembrar

As culturas negras vendem, mas quem lucra com elas?

Do cuscuz nordestino pela manhã, ao café de São...

Livro reúne artigos sobre a emancipação negra na América

Lançada pela Editora da USP, obra é resultado de...

Mães apontam racismo após adolescentes serem acusadas de furtar caneta em shopping no Rio

Duas adolescentes contaram que foram acusadas de furtar uma caneta na...
spot_imgspot_img

Se o Estado perder o controle, o que vai restar?

Cinco pessoas foram mortas durante a 16ª operação policial do ano no Conjunto de Favelas da Maré, nesta terça-feira, 11 de junho. Uma das...

Após ‘discriminação racial’, Lewis Hamilton compartilha postagem em defesa a Bukayo Saka

O heptacampeão mundial de Fórmula 1, Lewis Hamilton, utilizou suas redes sociais para compartilhar um texto em em defesa do jogador Bukayo Saka, da...

Ministério da Igualdade Racial apresenta aprimoramentos da Lei de Cotas no Serviço Público em seminário na Câmara dos Deputados

Nesta terça-feira (11), a Diretora de Políticas de Ações Afirmativas, Layla Carvalho, representou o Ministério da Igualdade Racial no primeiro painel do Seminário Cotas no Serviço Público, na Câmara dos...
-+=